Esta, que dá um empate técnico a PS e PSD, mas claramente uma maioria de esquerda no Parlamento. Ou seja, mais ou menos como estamos, só que com uma carga de confusão em cima e o FMI e a UE a mandarem, no essencial, nisto.

Este é o ambiente ideal para os apelos ao Bloco Central, pois fica sem existir uma solução governativa alternativa funcional.

Vejamos:

  • Ao não aceitarem a ingerência externa, PCP e BE mostram-se indisponíveis para uma coligação com o PS, com ou sem Sócrates. Por maioria de razão, não os vejo a viabilizar, pela abstenção, um governo PSD/CDS.
  • O PS, caso ganhe as eleições, sozinho, tendo feito o pedido de ajuda financeira externa, não tem condições para governar, muito menos com Sócrates a PM.
  • O PSD, caso ganhe as eleições, sozinho ou acompanhado, será derrotado pela esquerda parlamentar à primeira oportunidade.

Resta, portanto, se as coisas continuarem assim, a solução pastosa do Bloco Central.

Só que não se vê como Sócrates e Passos Coelho poderiam gerir uma situação dessas a dois. O que perder as eleições, num cenário desses, teria de ser rapidamente afastado pelo seu próprio partido, para abrir caminho à tal coligação. Nesse particular, Passos Coelho está muito mais vulnerável, pois tem abertamente contra si inúmeros barões laranjas, que não se coíbem nada de o zurzir publicamente sempre que podem e nem falo de Pacheco Pereira para quem isso é ofício de vida. Já em redor de Sócrates se acoitaram quase todos, desde Alegre a Assis, Passando por Ferro Rodrigues. De fora, muito pouca gente e ainda menos com voz própria credível (Carrilho não conta, por causa da questão da credibilidade).

O espantoso é que, nesta altura, após tanto asneirame do Governo e tanta pirueta de Sócrates, o PSD ainda tem conseguido transmitir uma imagem menos eficaz para o exterior. Ao menos o PS erra com convicção; o PSD, mesmo quando acerta, parece que o faz meio envergonhado.

Anote-se que eu detesto a ideia de ser governado por um manto acinzentado, em forma de Centrão. Gostaria que houvesse uma maioria clara à Direita ou Esquerda e que, por uma vez, as águas se movessem. Mas, à Direita a maioria absoluta parece claramente impossível para o PSD e é muito duvidosa, mesmo com o CDS a apoiar. E à Esquerda, a maioria absoluta parece bem possível, mas este PS não é compatível para uma solução governativa com o Bloco e o PCP, apesar de certas pontes.

O que nos deixaria à mercê do compromisso nacional, em que todos metem a colher e nada se distingue. Onde teríamos Catroga em vez de Teixeira dos Santos e Miguel Relvas em vez de Lacão e Canavarro em vez de Alçada, mas pouco mais. Quiçá mesmo um Portas em vez de Amado.

Mas tudo isto revela-nos duas realidades indesmentíveis:

  • Apesar do buraco em que nos enterrou, este Partido de Sócrates – apoiando pelo medo da Direita fomentado pela Esquerda que ele despreza, excepto em causas fracturantes e TGV – ainda merece a confiança de mais de um terço dos eleitores. E isso chega para, com o crescimento da Esquerda mais à esquerda, inviabilizar uma solução sem o próprio PS.
  • Apesar de parecer que estas eleições estariam no papo, o PSD tem-se esmerado em hesitar (não se percebe o atraso no programa eleitoral), espalhar-se ao comprido (sempre que fala um guru ansioso e inteligente em vez do chefe ou do Miguel Relvas) ou ser torpedeado a partir de dentro (Menezes, Marques Mendes, Pacheco, Capucho), demonstrando como tem uma equipa política ainda com uma dose assinalável de amadorismo para andanças em que Santos Silva, Lacão, Assis, Silva Pereira e Ciª se sentem como tubarões em praia da Califórnia cheia de turistas nutridos.

Resumindo: ou o eleitorado se agita (para a Esquerda e para a Direita, impedindo o engenheiro de vencer e de ficar com todos os trunfos para continuar) e percebe que o tempo deste homem tem de acabar de uma vez, ou estamos muito bem (mal?) fornicados e cada vez pior pagos.