Na sequência da reunião de hoje com Sócrates, Passos Coelho fez divulgar a carta que terá entregue ao PM, destinada a também ser entregue à equipa do FMI em Portugal.

A divulgação da carta, quase em tempo real, é consequência de um estado de enorme degradação da confiança existente entre os chamados actores políticos, nomeadamente entre JS e PPC que, neste momento, faz lembrar velhas quezílias de Eanes com Pinto Balsemão e Soares, ou Soares e Cavaco Silva.

No entanto, talvez seja por aqui que alguma coisa se possa endireitar. E é importante que contra Sócrates seja usada a única arma que ele domina mal: a Verdade.

Quem entrar pelos truques, pelas ambiguidades, pelas habilidades, pela manipulação grosseira ou subtil dos factos, será trucidado por Sócrates e a sua equipa que têm uma enorme vantagem neste campo e uma prática de anos. Perante um problema, os homens atrás dos bastidores buscam a fórmula, Sócrates aparece com ar de ofendido, Silva pereira faz de eco mais calmo, Santos Silva dá substância teórica e – afastado Ricardo Rodrigues da lides das respostas acintosas – Francisco Assis surge a dar uma certa aura de respeitabilidade e amaciamento ao primeiro ataque. Pelo caminho, poderemos ainda ter um Lacão a dizer qualquer coisa ou um qualquer outro elemento útil para estas coisas (Lello nos dias maus, Vieira da Silva nos bons).

Passos Coelho cometeu o erro de, com aquela história do telefonema e encontro antes de Sócrates levar o PEC4 a Bruxelas, ter cedido à tentação do truque. Como se viu, não correu bem. Os seus spin-doctors são neófitos. Não chega brincar aos blogues ou ás tertúlias para ganhar o traquejo de anos de governação servidos com um aparato profissionalizado de manipulação/distorção da realidade.

Contra Sócrates só mesmo a kryptonite da Verdade poderá ser eficaz, sem véus, algo que na política é uma quase total novidade – relembre-se como Manuela Ferreira Leite foi mal recebida nessa matéria –  mas que é possível usar sem o manto algo bafiento que envolveu a tentativa anterior. Nem sequer os truques de um Marcelo ou as habilidades retóricas de um Pacheco Pereira estão à altura da máquina de produção de realidades alternativas de Sócrates.

Sócrates reage mal à verdade, abespinha-se mesmo, não é encenação. Enraivece-se. Torna-se mal educado, brusco e prepotente: perde a compostura e o escasso verniz.

Era bom que PPC aprendesse isso. E, já agora, que à Esquerda usassem a mesma táctica, não se deixando embalar por sonhos de uma união das esquerdas que será impossível com o engenheiro como guia.

Ataquem-no com a Verdade. Mesmo quando for aparentemente menos confortável. É (quase) a única maneira.