Não há nada que agrade mais a quem se julga fadado para algo do que sentir-se insubstituível. Nada tilinta mais aos ouvidos de um pintodacosta ou joãojardim (para ir aos casos mais extremos de sucesso decrépito) do que uma vaga de fundo que sussurra ou brame que se é insubstituível e que sem nós o mundo descamba e desfalece.

A alguns mais discretos, bastam algumas vozes a assinalar essa mesma impossibilidade de substituição de quem é o homem (ou mulher… lembremo-nos de MLR!) providencial para um determinado lugar ou função.

A verdade é que a função ou o lugar é que podem ser insubstituíveis, quem a(o) ocupa não. Podem ocupá-lo melhor ou pior, mas a verdade é que as estrelas continuarão no céu e o orvalho nas ervas e flores nas manhãs mais bonitas.

Mas os que são grandes – e pequenos – líderes acham mesmo que são insubstituíveis. Não são. Ninguém é, para além de um certo contexto que eu quase limitaria aos afectos, e só gente ingénua, arrogante ou desligada da realidade pode pensar que é insubstituível, no sentido de tudo parar ou ficar irremediavelmente inclinado caso esse alguém não faça o que se espera dele(a) ou o que querem que faça ou ele(a) quer fazer e precisa de um pretexto para.

A consciência de que somos transitórios, pontuais, ocasionais e que raramente, muito raramente, a nossa individualidade vai para além do temporário é muito importante. É quase tão importante quanto a consciência de que um dia morreremos e – grande m****!!! – o sol nascerá no dia seguinte e nós não o poderemos apreciar. Sei do que falo, porque já há muito (cortesia da perda de muitos familiares próximos em idade precoce) percebi que quase todos somos substituíveis no nosso papel ou função, mesmo se com a morte ainda tenho uns problemas a resolver que a leitura dos velhos contos do Woody Allen não resolveram, excepto aquele em que se abre a hipótese de jogarmos às cartas o nosso destino com a ceifeira.

Agora quanto à vida social, política, cultural, económica, etc, o maior erro -e que muitos males causou no passado – foi a da crença de se ser insubstituível e de se ter uma espécie de destino marcado com a História Grande ou pequena.

É um erro.

Nos tempos que vivemos, de desnorte, este erro é comum, porque numa época de gente pequena, ao olhar-se à volta, qualquer pigmeu se julga gigante ou quase.

(e nada disto, repito, nada disto, tem a ver com o facto do meu novo cartão do cidadão me ter atribuído mais dois cm de altura do que o meu vetusto bi).