Ou uma espécie de díptico com o post abaixo.

Há poucas coisas que me incomodem mais do que uma crítica voluntariamente injusta ou um elogio desnecessário ou sem cabimento. Claro que existe a areia na virilha, em dia de praia sem protector solar e as perspectivas de carreira de José Castelo Branco. Mas, tirando quase só isso, críticas e elogios sem fundamento são coisas que me perturbam, num caso porque se nota que o objectivo não é demonstrar nada, mas apenas magoar, e no outro que a pessoa que elogia ou não tem a noção das coisas ou, de forma directa ou indirecta, tem algum objectivo a atingir.

A lisonja, o elogio fácil, ou quase só a insinuação de, é uma das técnicas mais antigas para corroer o carácter de outrem e, pelo caminho, para colocar à prova convicções e coerências.

Tenho, numa escala apropriada à minha escassa escala, uma conta modesta de ambos os males, críticas só porque e elogios só para que. E falo na primeira pessoa, para que nem tudo paire no plano da teoria abstracta e para que não se pense que os espelhos se pariram em casa e aqui no blogue.

Faz parte da maturidade mental e emocional de cada um(a), saber distinguir o trigo do joio, o essencial do supérfluo.

Não nego: há também poucas coisas como um elogio por parte de alguém que nada tem a ganhar directamente com isso. Por isso, aprecio elogios bem póstumos de alunos que em nada já dependem de mim ou recordações de colegas que nada me ficaram a dever ou podem esperar agora. Esses são os elogios que estimamos e guardamos. Escassos, preciosos, deveríamos poder cristalizá-los e emoldurá-los, nem que seja na mente.

Os outros, aqueles que decorrem da lisonja circunstancial, com intuitos mais ou menos instrumentais ou que, mesmo benignos, decorrem de uma fraca avaliação da dimensão das coisas, são embaraçadores.

Se às críticas injustas se pode responder com os cotovelos, aos elogios e à lisonja é mais complicado, em especial quando não é assumidamente maligna. Mas por vezes é.

Na nossa vida social, política e cultural, a lisonja tornou-se omnipresente. Assim como a demonização. A hiperbolização dos qualificativos é um excesso lastimoso e muito mais lastimoso quando promovido pelos próprios de forma activa ou passiva, como forma e alimento.

E vivemos um tempo em que o lambe-botismo se confunde, nos dias bons, com a chamada graxa, e nos maus, com cultos de personalidade perigosos.

Até porque, em muitos casos, a crítica fornece alimento bem mais proveitoso. Seja a justa (porque nos melhora), seja a injusta (porque nos legitima em parte a descarga de bílis).