Terça-feira, 29 de Março, 2011


Bruce Springsteen, Brilliant Disguise

Esta ausência de efeitos só é válida para os professores do quadro. Aos docentes que são contratados anualmente está vedada a progressão na carreira, mas os seus contratos só podem ser renovados se tiverem sido avaliados. Os resultados da avaliação contam para efeitos de gradação nos concursos. Um “Excelente”, por exemplo, poderá levar a um salto de 500 lugares, como sucedeu no concurso do ano passado. Muitos dos docentes que pediram aulas assistidas são contratados. Mas se a suspensão do actual modelo for promulgada, a avaliação que contará para efeitos de concurso já não será esta, mas sim a que vier a vigorar transitoriamente. Ou seja, o relatório de auto-avaliação.

Um relatório de auto-avaliação é avaliado pela competência de quem?

The Hollow Men
 
Mistah Kurtz — he dead.

A penny for the Old Guy

I

We are the hollow men
We are the stuffed men
Leaning together
Headpiece filled with straw. Alas!
Our dried voices, when
We whisper together
Are quiet and meaningless
As wind in dry grass
Or rats’ feet over broken glass
In our dry cellar

Shape without form, shade without colour,
Paralysed force, gesture without motion;

Those who have crossed
With direct eyes, to death’s other Kingdom
Remember us — if at all — not as lost
Violent souls, but only
As the hollow men
The stuffed men.

II

Eyes I dare not meet in dreams
In death’s dream kingdom
These do not appear:
There, the eyes are
Sunlight on a broken column
There, is a tree swinging
And voices are
In the wind’s singing
More distant and more solemn
Than a fading star.

Let me be no nearer
In death’s dream kingdom
Let me also wear
Such deliberate disguises
Rat’s coat, crowskin, crossed staves
In a field
Behaving as the wind behaves
No nearer —

Not that final meeting
In the twilight kingdom

III

This is the dead land
This is cactus land
Here the stone images
Are raised, here they receive
The supplication of a dead man’s hand
Under the twinkle of a fading star.

Is it like this
In death’s other kingdom
Waking alone
At the hour when we are
Trembling with tenderness
Lips that would kiss
Form prayers to broken stone.

IV

The eyes are not here
There are no eyes here
In this valley of dying stars
In this hollow valley
This broken jaw of our lost kingdoms

In this last of meeting places
We grope together
And avoid speech
Gathered on this beach of the tumid river

Sightless, unless
The eyes reappear
As the perpetual star
Multifoliate rose
Of death’s twilight kingdom
The hope only
Of empty men.

V

Here we go round the prickly pear
Prickly pear prickly pear
Here we go round the prickly pear
At five o’clock in the morning.

Between the idea
And the reality
Between the motion
And the act
Falls the Shadow

For Thine is the Kingdom

Between the conception
And the creation
Between the emotion
And the response
Falls the Shadow

Life is very long

Between the desire
And the spasm
Between the potency
And the existence
Between the essence
And the descent
Falls the Shadow

For Thine is the Kingdom

For Thine is
Life is
For Thine is the

This is the way the world ends
This is the way the world ends
This is the way the world ends
Not with a bang but a whimper.

[Thomas Stearns Eliot]

Os titulares caíram e agora o modelo rodriguista-socrático de ADD também. O copo não está cheio, até pode não estar meio. Mas também não está vazio.

E se o que vier for parecido, recomeça-se. Mas há que ter alguma esperança e não estar sempre a rezingar…

Vá lá…

Sugestão da Ana Sousa:

Bit of friendly advice, Portugal

Dear Portugal, this is Ireland here. I know we don’t know each other very well, though I hear some of our developers are down with you riding out the recession.

They could be there for a while. Anyway, I don’t mean to intrude but I’ve been reading about you in the papers and it strikes me that I might be able to offer you a bit of advice on where you are at and what lies ahead. As the joke now goes, what’s the difference between Portugal and Ireland? Five letters and six months.

(continua…)

Para a mentira ser segura
E atingir profundidade
Tem que trazer à mistura
Qualquer coisa de verdade

António Aleixo

“É só preencher uns papéis”

A ignorância e a má fé costumam andar de mãos dadas, até porque uma se alimenta da outra, e nesta” never ending story” da chamada avaliação de professores tem sido, em demasia, o caso.

Os argumentos são recorrentes por parte de um poder político que fez deste chavão simultaneamente uma “bandeira” governativa e uma manobra de diversão – explorando o “lado negro” da política, que é a demagogia, com danos já vistos para o Partido Socialista, por isso é também difícil compreender a extensão da estupidez mascarada de “coragem”, de “determinação” e de outras putativas virtudes que não existem face a alvos mais poderosos, mais também recompensadores em destinos futuros.

De certo modo o ardil é habilidoso pois explora um lastro de ressentimento explicável à luz de uma “psicanálise” de massas. É preciso “dar sangue à populaça”, então que se arranje um bode expiatório que compense o encargo e “encaixe” no perfil – “corporação, lóbi, funcionários públicos, bem pagos, com muitas férias, que só trabalham de manhã, que chegam todos a generais” e o resto do “argumentário” conhecido.

É claro que nada disto é verdade em absoluto, mas num país em que “a galinha da vizinha é sempre mais gorda do que a minha”, “cola” e dá jeito a todos, menos aos visados, que “cole”, pois fragiliza e abre margem de manobra para o ataque em várias frentes – a baixa efectiva de remunerações, a precarização contratual e o controlo burocrático acrescido por intimidação constante. Tudo isto segue uma agenda e obedece a um plano que visa destruir o que se afirma estar a defender, como a “Escola Pública” e o “Estado Social”, através da sua degradação funcional por minagem da autonomia e criação constante de factores de perturbação.

Na questão da chamada avaliação de desempenho de professores é mais do que evidente que não se pretende avaliar efectivamente nada, pretende-se pôr em prática um conjunto de medidas entre o burocrático e o puramente vexatório que “domestiquem” todo um grupo profissional tirando partido das suas fragilidades corporativas, da sua heterogeneidade, da sua grande dependência económica, da sua falta de alternativas profissionais, do seu grande número e média etária elevada – a que a acresce um enorme “exército de reserva” disponível por qualquer preço e mais “moldável”. Não é por acaso que quem pode foge, basta repara nos milhares de professores (e também médicos, magistrados e outros quadros de serviço público) que correm para a aposentação antecipada, mesmo com elevadas penalizações monetárias.

Para que não se diga que se quer apenas “destruir”, aqui ficam algumas propostas sérias, se o real intuito fosse avaliar práticas profissionais para melhorar desempenhos:

– Não se poderia, em caso algum, deixar de ter aulas observadas. No modelo agora suspenso essa observação é, na esmagadora maioria dos casos, facultativa.

– As aulas a observar seriam sequências longas de unidades didácticas completas e não apenas duas, passíveis de encenações e ensaios prévios.

– O período em avaliação, deveria ser longo, coincidindo com cada escalão profissional e não serviria apenas para afogar os docentes em papelada e tarefas inúteis e contraproducentes, ano sim, ano não.

– A distância funcional entre avaliadores e avaliados deveria ser séria e não uma espécie de “vira” ou “baile mandado” onde hoje “avalio-te eu”, para a próxima “avalias‑me tu” e ficamos quites.

– Se observassem actos e não ficções bem embrulhadas como a maior parte da “palha” dos portefólios a metro cheios de “evidências” nada evidentes.

– A realidade sobrelevasse sobre o “folclore”, que é apenas a que se reduz uma grande parte das iniciativas de papelinhos, papelotes e bonecada pelas escolas afora e adentro, sem qualquer efeito educativo real.

– Fosse uma avaliação séria e transparente, com critérios justos e universais, com resultados públicos, imune a compadrios e amiguismos e não possibilitasse a actual “previsibilidade”- pois conhecendo cada escola, é possível determinar a priori, no início de cada biénio, quem no fim do processo vai ser classificado com as menções de topo (Muito Bom e Excelente) independentemente do que faça ou não faça, com um grau de acerto igual ou superior a 90% (assim aproximado à do “score” do actual Primeiro‑ministro nas eleições internas do PS).

Quanto aos triviais argumentos que exploram a santa aliança entre a ignorância a má fé, convirá esclarecer que mais vale suspender um processo iníquo a meio do que deixá-lo chegar ao fim e produzir iníquos resultados.

Para quem como a senhora ministra, aliás como já a senhora ministra anterior, afirma que o processo nada tem de burocrático e: “Afinal, é só preencher uns papéis”, pergunta-se quem quererá fazer passar por trouxa e se não estará nada a montante do preenchimento dos tais “papéis”: horas e horas de produção de outros papéis e inutilidades várias – reuniões, grelhas, relatórios, actas, instrumentos de registo, pareceres, recomendações (e, já agora, que outro processo da avaliação de desempenho conhecem que contenha 72 descritores?). É que como a coisa é contada, dá a ideia que é preencher o boletim do “Euromilhões” – o que de certo modo e quanto aos resultados, é verdade, pena é que neste caso o “prémio” saia sempre aos mesmos.

Outro argumento falacioso é o de que “tudo estava acordado com os Sindicato”, pense‑se o que se pensar dos Sindicatos, a verdade é que estes assinaram com o governo, através do Ministério da Educação, um “Acordo sobre Carreiras” em que estava incluído um processo de Avaliação de Desempenho como condição de progressão. Ora, quem o quebrou, mesmo que tenha sido por forçado a fazê-lo por imperativos orçamentais inelutáveis, foi o governo, ao congelar as carreiras e até ao cortar salários. Como se justificará manter apenas uma parte do acordo se as suas eventuais consequências positivas para os profissionais estão bloqueadas sem que se saiba até quando?

Era bom que o poder político em Portugal começasse a devolver aos cidadãos mais do que a triste e mentirosa imagem do seu próprio espelho.

 

António José Carvalho Ferreira

Professor do Ensino Secundário Público

 

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