Segunda-feira, 28 de Março, 2011


Boa tarde, Paulo!

Deixe-me felicitá-lo pelo seu blog, que sigo diariamente.
Sou professora há 32 anos e vou resistindo, diariamente, na minha escola, a este ataque continuado à nossa classe.
Fui a todas as manifestações, fiz todas as greves e sofri a maior desilusão aquando da assinatura do acordo ME/sindicatos e do que se lhe seguiu.
É na escola que continuo a lutar. Sou relatora mas não marquei aulas assistidas com os meus colegas, levantando sempre novos problemas junto da CCAD e fazendo, com os outros relatores, emperrar o processo.
Claro que ando empolgada com os últimos acontecimentos!
Quando vi no seu mail que havia um inquérito sobre a suspensão da ADD, divulguei logo junto dos meus contactos.
Votei e acompanhei a votação e, hoje, para espanto meu, verifico que o excel do JN funciona muito mal! Com uma simples calculadora comprovei isso.
Envio, em anexo, para que veja.
C.E.

Se é esse o argumento usado para denegrir algo que todos os partidos, menos o PS, concordaram fazer, há que sublinhar que os professores são mais de um punhado e que as questões da Educação interessam a, sei lá…, um pouco mais do que uma meia dúzia de punhados de eleitores.

Para além de que fazer algo de acordo com a vontade dos ditos eleitores, não prejudicando ninguém (e suspender esta farsa de ADD só prejudica, isso sim, um punhado de opinadores e dois punhados de relatores convictos), não me parece uma política errada.

Podem dizer que esta forma de autocomplacência é recorrente e desnecessária. Talvez, mas combate a teoria do punhado e, para além disso, irrita pessoas que eu gosto que se irritem.

Dan Auerbach, Heartbroken, In Disrepair

Dream of the Evil Servant

               1.
We kept war in the kitchen.
A set of ten bone china plates, now eight.
As if a perfumed guest stole her riches . . .

The next day she wanted to leave at noon.
I said, be back by four, I’m paying you.
She sat by the door,  
she put out her hand, 
her knuckles knocked against mine,
hard deliberate knuckles. I gave her cash.
Off to watch movies, off to smoke ganja.

                2.
She came back late and high as if my fear asked for it.
I called her junglee.
Everything went off late —
dinner, the children getting into bed;
but the guests understood:
they had servants too.

She stuck diaper pins in my children.
I cursed her openly.  Who shouted?
Or I cursed her silently and went my way.
She stole bangles my husband’s mother bought,
bangles a hundred years old.  But she wore frayed jewelry
hawked on the street.  She was like a rock that nicked
furniture in corners you’d think only a rat could go.

                3.
Why didn’t I dismiss her?
I don’t know. 
She got old as I got old.
I could see her sharp shoulder bones
tighten, her knuckled skull.
I had to look at her.  It had to wound me.
Listen, said my mother. Yes mother, I listened, crouched in my head.

Looking over the flowered verandah she said:
Who are you to think you are beautiful?
What have you got to show? 
Go sit on your rag.
All my life I tended to looks,
they betrayed me. I bore you.
I am wretched.  Be my mother.  Be my maid.

[Reetika Vazirani]

O mundo interior dos professores

Os professores portugueses não vivem momentos facilitadores do desabrochar da ilusão, da fantasia criadora e da utopia que leva à vontade de fazer e de vencer.
O clima percepcionado na maioria das escolas é de desilusão, de desencanto, de anomia profissional.
Os mais jovens interrogam-se sobre as escolhas que fizeram no momento em que decidiram vir a ser professores. Os que acumularam mais experiência no desenrolar do seu percurso profissional questionam-se sobre o sentido da dádiva desinteressada com que se envolveram numa carreira que, pela sua nobreza e relevância social, deveria ter sido indiscutivelmente gratificante.
As políticas de reconstrução do tecido curricular, organizacional e de vida activa dos docentes e das escolas correram mal. Correram mal a todos e pelos piores motivos. Correram mal aos governantes, por precipitação, autismo e muita soberba. Correram mal aos professores pelo desrespeito com que foram mimados, pelo desgaste da sua imagem social, e pela total desestruturação do seu mundo conceptual sobre a escola e sobre o seu futuro.
Há muito que os especialistas tentam compreender estes estádios de carreira, ou ciclos de vida dos professores.
Porque são previsíveis e, logo, facilmente controláveis, em termos de expectativas e de procedimentos, a literatura aconselha a manter os docentes em um dos três estádios clássicos do seu percurso profissional: 1-O estádio da sobrevivência, ou da fantasia, que geralmente coincide com o início da carreira, e que se singulariza pela necessidade de afirmação do professor, no contacto que mantém com os seus alunos, com os colegas e com comunidade educativa; 2-O estádio da mestria, em que o professor foca o seu esforço no desempenho profissional, na preocupação de ser um “bom” professor, dominando competências inerentes a essa intencionalidade, pelo que procura respostas adequadas para determinadas situações que o acto de ensinar lhe coloca: o número de alunos por turma, a ausência de regras bem definidas de acção, a falta de materiais e condições para o exercício do seu trabalho na classe, a falta de tempo para a consecução dos objectivos, ou para a abordagem dos conteúdos; e 3-O estádio da estabilidade, em que o docente tenta individualizar o ensino, preocupando-se quer com os seus alunos, quer com as suas necessidades e anseios, sejam elas tanto de ordem curricular, como de natureza social e, até, familiar.
A pressão permanente sobre o sistema e sobre os professores; a sua menorização pessoal, intelectual e profissional, invariavelmente conduz a situações de prolongado e persistente mal-estar, retirando os docentes de um desses três estádios clássicos e
colocando-os no que Francis Füller tão engenhosamente chamou de “curva ou estádio do desencanto”.
Infelizmente, vivemos em Portugal um desses momentos raros e que presumimos indesejáveis para todos os intervenientes: professores, pais e governantes. Momento em que se rompeu com um período em que os professores se encontravam em ciclos da carreira de desinteressada dádiva ao sistema, à escola e aos alunos, e que os tinham levado a optimizar o seu investimento pessoal.
O ataque à sua profissionalidade surgiu uma vez e outra, até que esta inesperada e evitável curva do desencanto os atingiu fatalmente.
O acumular de situações provocadas por esta já longa e insuportável conjuntura, por todos conhecida, o retomar insistente de promessas incumpridas de verdadeira descentralização do sistema educativo português, e a negação de se atribuir mais poder de decisão aos professores e às escolas, também contribuíram para que a desilusão e o desencanto se enquistassem no sistema, transformando as sinergias naturais em processos de entropia irrefreáveis.
O trabalho do professor é socialmente incontornável. Não depende apenas das políticas e dos políticos. É uma exigência social, reconhecida e validada, que implica com a construção do futuro e com o bem-estar da novas e das mais seniores gerações.
A escola é um bem não negociável. Não pode ser objecto de argumentos de facção, de olhares recriminatórios e de invectivas de tirania psicológica. Não pode, porque o que se faz à escola tem um efeito multiplicador e de imprevisível bumerangue. O desrespeito desleal pela escola marca e vitima os acusadores. A cicatriz social que daí resulta leva tempo a sarar.
O mal-estar que se instalou por demasiado tempo tem custos que ainda estão por calcular. E pagamos todos. Mesmo aqueles que, como nós, continuam a pensar que para com os professores temos uma dívida impagável que releva os momentos menos felizes do exercício da profissão. Porque lhes devemos uma boa parte do que somos e do que ainda queremos vir a ser.

João Ruivo
jruivo@almada.ipiaget.org

Estabelece as regras para a organização das escolas e elaboração dos horários para o ano lectivo de 2011-2012.

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«Cedilha Perdida: Cão [Ainda] Rilha» B.A.R. 2011

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