• Sócrates (=PS?) quer continuar como está, a fazer o que entende, decidindo quando lhe apetece, desenrascando-se sempre entre chantagens, bluffs e acordos. Até agora tem funcionado. Tem do seu lado o timorato Cavaco que, embora muito palavroso, só em caso de maldição maia demitirá o Governo e dissolverá o Parlamento, convocando eleições antecipadas. Mesmo que isso aconteça, ou que o Governo caia no Parlamento, Sócrates já avisou que se recandidatará. Portanto, qualquer cenário alternativo, de um PS sem Sócrates a curto/médio prazo é apostar na pileca anémica, pois o que há mais é costas seguras na reserva.
  • O PSD de Passos Coelho quer chegar ao poder, mas tem receio de ser penalizado caso seja responsabilizado por estar na origem da crise política. Dos lados de Belém e de um PSD na sombra, surgem animosidades diversas, avisos à navegação e um sopro geral destinado a impelir tudo para um Bloco Central, com ou sem sidecar (leia-se, CDS). Por outro lado, há a tentação de deixar o PS de Sócrates fazer a maior parte dos estragos e enterrar-se tanto, que o trabalho posterior seja mais simples, assim como uma vitória nas eleições. A indefinição tem tanto de táctico, como de temor reverencial pelas chispas de Belém, embora isso possa ser visto como falta de audácia e coragem em assumir responsabilidades.
  • À direita do PSD, resta ao CDS manter-se ali em redor dos 8%, para se tornar um interessante aliado de governação e conseguir uma janela de acesso ao Orçamento, apesar da evidente animosidade de Belém. Nunca Portas terá tido tantos anticorpos na Presidência, nem quando andava atrás dos negócios de Macau no Independente.
  • À canhota do PS temos uma dupla que, para além do campeonato da 2ª circular da esquerda, tem alguns dilemas complicados para ultrapassar. Afirma não querer estas políticas, mas receia que o Governo caia e o papão da Direita vença. Mas sabe que Sócrates não cederá à esquerda e fará, em matéria económica e financeira, os acordos todos à direita. Portanto, é uma ilusão pensarem que alguma coisa se mexerá desse modo. Também já sabem que apostar num PS sem Sócrates para uma aliança alargada de esquerda não é possível, porque ele não desgruda. Logo, com o Governo que está nada feito. Mas eleições antecipadas dificilmente significarão um cenário favorável pois, mesmo crescendo eleitoralmente (o que é de esperar, atendendo à conjuntura), a esquerda pode perder no seu conjunto ou, mesmo ganhando, não existir a hipótese de um acordo com o PS.  O PCP por causa do seu programa mais ortodoxo, o Bloco porque haveria demasiados egos para os poleiros disponíveis. Pelo que, nem querem que caia, nem querem que coiso.
  • Perante isto, temos um Presidente a enviar recados ao PS para mudar de rumo (sem quaisquer efeitos), ao PSD para não se precipitar (e eles vão obedecendo), na tentativa de conseguir uma pasteloso Bloco Central que abafe os protestos mais radicais da esquerda e, se possível, da própria direita. No fundo, Cavaco quer que PS e PSD recriem aquele espaço que ele próprio ocupou há 20 anos, mas não quer que exista alguém a, individualmente, o conseguir. O que implica que, por meio dos remoques mais ou menos explícitos, trabalhe implicitamente para que o Governo não caia e se faça uma aliança mais ou menos formal ao centro.

Resumindo: isto é um país político três degraus abaixo do pântano e muitos, muitos mais, abaixo do rabo do bobby.