Não vi com extrema atenção as análises feitas nas televisões sobre a manifestação à rasca de ontem. Parei alguns minutos em várias delas, fiquei uns 15-20 minutos nas da SICN (com António José Teixeira a moderar) e TVI24 (com Constança Cunha e Sá). Tirando uma frase de CCS – algo como afinal, com o PEC4, passámos todos a ser precários – só Adelino Maltez parecia estar no mesmo país que eu habito (em termos físicos e mentais) e com que os manifestantes protestavam.

O resto foi um quase completo desenrolar de análises pré-formatadas pelas crenças políticas dos autores. Ou pela ausência de algo que dizer de substantivo. Pela negativa, um Ricardo Araújo Pereira na TVI24 claramente a cumprir calendário, sem nada para dizer, tirando um ou outro àparte engraçado e Rui Ramos, na SICN, a demonstrar o quanto o círculo que quer cercar (ou já cerca) Pedro Passos Coelho tem horror a tudo isto, uma coisa que não se pode, sei lá… Ao lado dele, Costa Pinto ainda deixava entrever 10% do que efectivamente deve pensar sobre o que se passou, mas Rui Ramos limitou-se a debitar um discurso perfeitamente anacrónico e quase ofendido porque na manifestação se notava uma maior inclinação para slogans de Esquerda.

Tão mau quanto um ortodoxo marxista das massas é um ortodoxo anti-marxista das massas.

Quando a análise de um fenómeno social abandona critérios de compreensão, para apenas se limitar a rejeições por preconceitos ideológicos, estamos mal, muito mal, se é isto que se está a preparar no horizonte. Os jovens à rasca podem ter diversas lacunas no seu protesto (e eu acho que sim…), mas desprezar o seu protesto porque faz lembrar manifestações antigas associadas ao 25 de Abril e 1º de Maio não é miopia, é cegueira mesmo.