Quinta-feira, 10 de Março, 2011


Nos primeiros 30 segundos, a gravata não está muito bem enquadrada.

Eu sei que deveria discutir as ideias, mas isto parecem-me generalidades demasiado generalistas…

Já tinha ouvisto de passagem na TVI24 e confirmo a primeira impressão: não gosto.

O PSD não quer ser Governo já. Há quem queira deitar a mão ao que ainda resta do bolo, mas há que deixar o PS levar isto mesmo até ao fundo. Há ainda uma certa esquizofrenia entre os que querem chegar lá depressa e os que querem chegar para ficar lá bastante tempo.

Vai ganhando esta última facção.

No Parlamento, Miguel Macedo é a imagem de um PSD sereno, todo bem educado, capaz de umas picadelas aqui e ali, mas nada de feridas graves. A moção não era deles. Foram desconvidados da festa pelos promotores, pelo que ficaram também na posição confortável de dizerem que censuram, mas não com estes maus modos da Esquerda Puritana. Logo, abstêm-se.

Na segunda rodada de intervenções, um mais precipitado Pedro Duarte introduziu a questão dos professores e do seu desemprego daquela forma oportunista que se lhe reconhece há uns anos, ao parecer que assado, mas depois frito.

Foi esquisito porque, tendo o Parlamento suspendido a reforma curricular, Pedro Duarte falou como se ela fosse avançar na mesma, mais mês, menos mês.. O que saberá ele? Que o PSD se absterá num projecto que seja apoiado pelo PS e CDS, que confluirão como no Estatuto do Aluno? É verdade que Sócrates se encrespou muito com o par pedagógico em EVT, mas é sempre possível uma daquelas soluções insonssas de compromisso em que o Armani e o Rosa & Teixeira descobrem (in)esperadas afinidades.

Bem… o PS tomou a decisão acertada de não fazer avançar o pomposo Ricardo (Mãos Leves) Rodrigues para porta-voz neste debate. À partida, uma boa notícia.

Mas só à partida…

Porque o substituto é um daqueles cromos para lamentar que cresceram na nossa vida política e parlamentar desde jovenzinho jota irritante, fracturante e carreirista, passando por estágio bem remunerado nas Europas como muleta do velho Soares, até chegar a esta figura chocarreira, mal educada, pretensamente giraço e engraçado, com um discurso e uma atitude profundamente lamentáveis. Nota-se que Sérgio Sousa Pinto está de bem com a sua vida e o seu ego.

O problema é quem tem de o ouvir  e ver.

Que o partido maioritário na Assembleia o designe para uma intervenção teoricamente de grande importância formal (mesmo sendo a moção o que se sabia) é um desrespeito para a inteligência dos portugueses, por muito escassa que seja.

Numa tarde sem grande rasgos, claramente a maior nódoa. Mas nada que não se esperasse, atendendo aos sinais anteriores de acelerada degenerescência.

Não diria que foi uma moção de ternura, conceito de Paulo Portas que faria um belo título para o Indy, porque o afecto entre Louçã e Sócrates é claramente disfuncional, e não falo no bom sentido da complementaridade das diferenças, atracção dos opostos ou de perfis semelhantes que fazem faísca. Aquilo é mesmo disfuncional no sentido patológico.

Mas é evidente que quando um PM vai para o Parlamento enfrentar uma moção de censura que sabe destinada ao fracasso, pode dar-se ao luxo de fazer brilharetes, distribuindo mimos em todas as direcções. Neste sistema político meio esquisito, em  que o Governo censurado exige, com semanas de antecedência, que os partidos da oposição digam como vão votar, José Sócrates até poderia ofender a honra de todas as senhoras de várias gerações dos líderes da oposição, que estava certo de continuar PM.

Por isso, o seu desempenho, descontraído quase sempre, esteve à altura da grande maioria das críticas que lhe foram feitas, raramente vacilando no estilo, mesmo quando em digressão estratosférica por sobre a realidade.

A verdade é que Sócrates se consegue proclamar o arauto da Esquerda perante o perigo de uma vitória eleitoral da Direita (papão nº 1) e, ao mesmo tempo, afirmar-se o garante da responsabilidade perante o radicalismo da Extrema-Esquerda (papão nº 2).

Tudo graças, não a especial mérito, mas à debilidade da oposição, cada qual enredada nos seus medos.

Dei-me ao trabalho de ouvir boa parte do debate sobre a moção de censura do Bloco. Aquela que era de censura, mas que não se percebia se era para cair o Governo, pois a Direita foi avisada para não votar a favor.

Confesso que não ouvi toda a intervenção inicial de Francisco Louçã, mas no resumo da TSF pareceu-me que ele disse que seriam necessárias eleições antecipadas.

Não percebo como, quando, à partida, se avisa o PSD que nem pense votar a favor de uma moção da Esquerda Pura.

(c) Quino

« Página anteriorPágina seguinte »