Novas circunstâncias?

Estão criadas as condições políticas para travar o actual modelo de avaliação de desempenho e, eventualmente, outras políticas educativas deste governo, quem o diz é o Ramiro Marques, no Profavaliação e desta vez estou inclinado em dar-lhe razão.

Primeiramente, porque o discurso de tomada de posse de Cavaco Silva deu um sinal inequívoco ao PSD. Se já aquando do chumbo do Decreto-Lei 18/2011 o PSD dera mostras de manifesta reviravolta estratégica, agora é Cavaco que num discurso violento e arrasador para o Governo dá claras indicações de que não irá ‘segurar’ José Sócrates. A mensagem para o PSD foi cristalina: preparem-se para ser governo! (o que, de resto, dentro do rotativismo ao centro que caracteriza a actual política nacional, era fatal e esperável) Depois, as ideias que se foram percebendo a Passos Coelho em matéria de política educativa podem prescindir deste modelo de ADD, como a privatização de recursos e da gestão do sistema de ensino pode prescindir do estado.

O desagrado com que Sócrates sempre reagiu às grandes manifestações de rua –  desagrado que, numa altura de grande desgaste político como a que se avizinha, se prevê seja ainda maior –, não sendo novo, poderá ser mais um factor a reverter a nosso favor.

Como é que isto nos pode ser conveniente?

Simples. Como diz o Ramiro, quanto mais moções forem aprovadas nas escolas, quanto maior for o número de professores no Campo Pequeno, mais o PSD, apesar da actual surdez inoperante do sintomático Pedro Duarte, tomará consciência de quanto impopular o actual modelo de ADD é entre os professores e é natural que o PSD aproveite o assunto para desgastar ainda mais o Governo.

Sócrates, por sua vez, com base nos tais supostos 40% de pedidos de aulas assistidas, claramente, não acredita numa grande mobilização dos professores. Para Sócrates, a ADD é como a Toyota, veio para ficar (como disse recentemente o Secretário de Estado Alexandre Ventura).

Se os professore forem capazes de aumentar o tom e a dimensão dos protestos contra a Avaliação de Desempenho e demais políticas educativas do governo, se as moções continuarem a multiplicar-se, se a presença em Lisboa for massiva e transbordarmos o Campo Pequeno, se, mesmo desgastados, continuarmos a luta sem esmorecimento, estamos em condições de retirar proveito da actual situação política, mais do que em qualquer outro momento.

Por um lado, teremos o até agora reticente PSD empenhado em usar os problemas que vierem a emergir na comunidade educativa, e a ADD pode e deve ser um deles, para desgastar o governo. Por outro, teremos um governo agastado e forçado a encarar a rua.

É sabido que o PSD no governo não augura nada de bom em termos de política educativa. Trata-se apenas de pôr uma batalha de cada vez, de obrigar os nossos supostos representantes a definirem-se em termos de política para a escola pública e de precaver futuros confrontos.

Só que para que isto aconteça tem que haver da nossa parte uma clara demonstração de força. Razão porque considero imprescindível, com ou sem os sindicatos, ou apesar dos sindicatos, estarmos massivamente representados no Campo Pequeno.

Mais, sem essa massiva presença, sabendo nós que cada vez mais a visibilidade volta a estar na rua, arriscamos perder definitivamente, e quem perde é a escola pública. Falta saber se os professores o vão perceber a tempo.

Carlos Marinho Rocha