Visão, 10 de Março de 2011

É uma coisa que, ao fim deste tempo de nova liderança, me parece muito pouco, muito vago e muito ideológico. Aliás, aprece-me um programa feito para o sector da Educação por especialistas em outra coisa, tipo Pedro Marques Lopes ou Pedro Reis aplicados ao Ensino Básico, Secundário e Superior.

O único fio orientador é a privatização dos recursos do OE para a Educação e da própria gestão do sistema de ensino, sendo que nada disto está provado que leve a melhorias de performance. Já por aqui distribui demasiados exemplos de estudos que, da Europa aos EUA, demonstram que as opções marcadamente ideológicas, em termos médios, não levam a especiais melhorias. Podem encontrar-se exemplos de melhoria, mas igualmente do inverso. A opção pelo voucher, por exemplo, é um equívoco recorrente neste sector que se pretende liberal e decorre de ideias erradas de quem apenas usa o sistema privado de ensino e não faz ideia de como a sua rede é distorcida e se afasta das zonas mais problemáticas.

Por outro lado, nota-se ao nível do Ensino Básico e Secundário, a ausência de quaisquer ideias fortes para além das alterações na gestão administrativa e financeira. As ideias sobre o currículo são anedóticas. Ao nível das Universidades, idem, idem,

Mas vamos lá por partes, numerando as opções, de acordo com a ordem como aparecem:

  • 1) Esta é uma opção marcadamente ideológica, com escassa fundamentação empírica em seu favor. No reino dos vouchers – os EUA – o balanço da iniciativa é pouco positivo, para ser caridoso nas palavras. Sobre isso, seguir a evolução de uma das suas defensoras, Diane Ravitch, até num livro recente que já destaquei neste blogue. Em Portugal, esta opção padece ainda da distorção da rede privada, que foge como maomé do toucinho das zonas mais problemáticas e economicamente desfavorecidas.
  • 2) Discordo desta opção por uma transversalidade até quase ao final da escolaridade obrigatória. Actualmente, os alunos já chegam bastante impreparados à Universidade e uma opção generalista deste tipo ainda agravará mais essa situação. Uma coisa é permitir a permeabilidade entre áreas, outra deixar uma pré-especialização para as calendas.
  • 3) Irrelevante.
  • 4) Se a ideia é criar uma espécie de conselhos de administração das universidades, sou favorável se isso estiver associado à entrada de investimentos privados por parte de patronos ou mecenas.
  • 5) Lugar-comum, sem especial novidade ou substância. Mais do que na quantidade -a aposta actual – interessa qualificar essa formação.
  • 6) Ler acima o nº 4. Nem percebo porque são duas medidas distintas, pois deveriam fazer parte de uma abordagem integrada da relação entre a Universidade e o mundo empresarial.
  • 7) O modelo inglês está, neste mesmo momento, sob enorme contestação, por levar a um exagerado endividamento dos alunos, que se torna ainda mais problemático quando os empregos disponíveis são escassos e mal pagos.
  • 8 ) Para isso é necessário que exista uma economia que sustente esses estágios e não pensar apenas em algumas áreas do Ensino Superior. Este é um modelo que, por exemplo, subalterniza fortemente as Ciências Sociais e Humanas e algumas das suas áreas mais tradicionais, consideradas desinteressantes pelo mercado empresarial (Filosofia, História, Antropologia, etc, etc…).
  • 9) Bahhhh…. Irrelevante. Isto é equivalente ao ensino da economia planificada na antiga URSS.
  • 10) Proposta de criar o que já existe. A disciplina de «método» é o Estudo Acompanhado no seu projecto original, quando não transformada em aulas suplementares de outras disciplinas. Quanto à cidadania e formação cívica já estão contempladas actualmente no currículo. Alguém informe os especialistas do PSD nesta matéria.
  • 11) Tese decorrente das teorias do capital humano que submete a oferta universitária às necessidades do mercado de trabalho. Tudo depende da forma como são feitas as prospectivas e como será gerida a tentação para eliminar as áreas académicas menos rentáveis. Mais do que limitar as opções, convém informar as pessoas do que cada curso permite. Depois, cada um deve ter aquilo que se chama— como é…? Ahhhh… Liberdade de escolha!!!
  • 12) Quem propôs isto que explique, por miúdos, o que significa, como funcionaria e com quem. Porque se é para criar uma Entidade Reguladora da Educação que funcione – mal – como outras entidades reguladoras que temos e só servem para distribuir jobs. Em boa verdade, existindo um ME, não percebo a necessidade de um regulador para medir performances.

Mas, mais do que estas propostas, nota-se bastante uma imensa ausência de ideias estratégicas sobre os aspectos mais polémicos da Educação nos tempos actuais, seja ao nível da organização dos ciclos de escolaridade e respectivo curículo, seja no plano da estrutura da carreira docente, passando pela forma de aferir e avaliar o desempenho de todos os actores em presença, de alunos a escolas, passando pelos docentes.

Em suma, é um projecto para a Educação que parece ter sido delineado por um grupo de trabalho formado por economistas de gabinete, com leituras muito parcelares e escasso conhecimento da realidade educacional no terreno.

No mau sentido, parece o resultado de um brainstorming de bloguistas blasfemos, com cruzamento de insurgentes e uns pózinhos de 31’s e cachimbos.

Fraco, lacunar e tão ideologizado como um projecto do PCP para a Educação em 1975.

Isto é Educação de salão.