A Educação do meu Umbigo

Por Favor, Meus Caros Deolinda, Não Aceiteis A Comenda…

… que em breve vos deve estar para ser oferecida.

Porque este país é muito generoso, a cada 10 de Junho, na distribuição de reconhecimentos do Estado a todos e mais alguns, desde que isso sirva como uma espécie de cooptação simbólica por parte do regime.

Por outro lado, fazer uma belíssima canção que capta o espírito de uma época (e esta é belíssima, não apenas pelo conteúdo, mas igualmente pela forma, distinguindo-se de abrunhices como uma pérola do pechisbeque) é diferente numa democracia, por imperfeita que seja, de uma ditadura, por dissimulada que seja.

Numa ditadura, identifica-se o prevaricador, vai-se lá a casa, malha-se nele, proíbe-se a cantoria e sorte terá o coitado se não for parar a uma bastilha qualquer local.

Mas a obra pode vir a servir de música e fundo a uma revolução, se tudo correr bem. Numa democracia não é assim. A cantoria da rebeldia acaba quantas vezes no panteão da fancaria.

Numa democracia, convida-se o rebelde para eventos, recomenda-se, caso ainda não tenha comenda, buscam-se afinidades e convívios, sorri-se e estende-se a falsa mão, esvaziando-se o significado de um hipotético hino que muitos (por acaso, sempre me levantou muitas reservas, enquanto o despejavam aqui nas caixas de comentários) adoptaram como verdadeiro grito de contestação. No final, temos o rebelde a elogiar o putativo objecto da insatisfação.

Portanto, e porque muito estimo e gosto dos Deolinda, espero que não cedam à tentação quando os convidarem para actuar aqui ou ali com cachet generoso ou quando as honrarias oficiais começarem a espreitar à esquina. Quando isso acontecer, tudo aquilo que poderia(m) ter significado, torna-se um balão vazio, tocado pela mancha do lamaçal que tão bem denunciaram.

Há sereias com muitas formas e doces são os seus apelos. Não as deixem roubar-vos o canto em troca de remuneração. Porque este canto é vosso, não deixem que se apropriem dele.