Sexta-feira, 28 de Janeiro, 2011


The Cure, In Between Days

Conta-me o Paulo Prudêncio que o ambiente é agradável, apesar do frio, com cerca de uma centena ou mais de pessoas, por volta das 22.30. A foto chegou em formato mini, mas mais tarde ou amanhã haverá mais material.

At the very time that I was packing up my books and belongings, I was going through an intellectual crisis. I was aware that I had undergone a wrenching transformation in my perspective on school reform. Where once I had been hopeful, even enthusiastic, about the potential benefits of testing, accountability, choice, and markets, I now found myself experiencing profound doubts about these same ideas. I was trying to sort through the evidence about what was working and was not. I was trying to undestand why I was increasinglu skeptical about these reforms, reforms that I had supported enthusiastically, I was trying to see my way through the blinding assumptions of politics and ideology, including my own.

I kept asking myself why I was losing confidence in these reforms. My answer: I have a right to change my mind. Fair enough. But why, I kept wondering, why had I changed my mind? What was the compelling evidence that prompted me to reevaluate the policies I had endorsed many times over the previous decade? Why did I now doubt ideas I once had advocated? (pp 1-2)

O registo, guardado para a posteridade, da única negativa que tive ao longo da minha história escolar. Negativa essa fruto de uma relação rocambolesca com a minha professora de História do 7º ao 9º ano. Relação essa que teve dois pontos altos (ou baixos…), um dos quais foi esta ficha que me foi anulada na maior parte porque – alegadamente – teria havido fraude na sua realização. A “fraude” foi o facto da turma ter estudado em conjunto numa aula de Electrotecnia e termos preparado respostas em conjunto. O prémio pelo trabalho cooperativo foi o simpático número de 20 negativas em 20 alunos (a posteriori interrogo-me se alguns de nós seriam NEE, pois nunca tive uma turma tão curtinha) e a repetição do teste e, no meu caso, o castigo adicional de fazer um trabalho-extra por ter sido – ao que parece – considerado o padrinho da dita “fraude”, ao ter fornecido as respostas aos meus colegas.

Como acabei em professor de História é um mistério. Não sei se esta colega ainda lecciona. Há uns anos atrás ainda leccionava e não muito longe de mim.

 

O QUE PODEMOS FAZER? UMA SUGESTÃO APOCALÍPTICA.

Desde o inicio manifestei pública e ‘militantemente’ a minha absoluta discordância relativamente ao modelo de ADD que nos foi imposto.

Pesem as ínfimas alterações nele realizadas, não posso, em consciência e coerentemente, abster-me de reiterar a minha oposição à ideologia que subjaz a este modelo e aos processos que o enformam, bem como a todos os procedimentos laterais de ‘racionalização de recursos’ (em bom gestorês) que, infelizmente, são bem conhecidos de todos nós, educadores (pessoalmente, recuso quer a palavra docente, quer o termo, actualíssimo, de ‘recurso humano’ em ‘unidade orgânica’ ou, quem sabe, beta ou…), mas não só.

Aqui, partirei de dois pressupostos que tentarei expor de uma forma muito breve. O primeiro, o de que o gestorês é um dispositivo, ou seja que o seu despontar por motivos políticos, económicos, filosóficos e sociais, tem uma função estratégica dominante e insere-se numa ideologia muito mais abrangente, aquela precisamente que levou à actual crise. O segundo, o de que a resposta à actual crise que, transversalmente, determina todas as políticas educativas, mesmo aquelas que começaram antes da sua eclosão, e portanto também esta avaliação de desempenho, é apenas um ruinoso ‘mais do mesmo’, com a agravante de ter optado por hipotecar os filhos para salvar a casa.

Finalmente, proporei uma atitude, a única que

1. O gestorés como ideologia

Quando falo de ‘ideologia’ falo de um mainstream intelectual e económico neo-liberal de vocação universalista (e totalitária!) e não de opções políticas individuais. Em suma, falo do ‘tudo é economia’ e da subordinação do político, lugar das opções e da palavra da Polis, ao espartilho fetichista da gestão.

. Falo da perfídia com que hoje se invoca um suposto fatalismo económico para justificar e amplificar artifícios de desregulação financeira e impor políticas desumanizadoras ao serviço dos Senhores transnacionais de uma super classe mundial (vd, Maurice Allais, prémio Nobel da economia, La crise mondiale aujourd’hui).

Falo da subordinação das políticas, sejam quais forem os governos ou as opções políticas individuais, à gestão do político e do público segundo as determinações económicas emanadas unilateralmente do eixo Bruxelas-Maastricht-Berlim e da ideologia económica, passe o oximoro, a elas subjacente.

. Falo do que ontem foi o sonho comunista, rapidamente transformado em pesadelo, e hoje, como se de novo, veiculado pelo lado contrário.

( caricatural, mas não menos seriamente, poder-se-ia dizer, sem muito sarcasmo, que a ideologia internacionalista da revolução comunista que, supostamente, depositaria o político, por baixo, nas mãos de ‘operários e camponeses’, deu lugar, após a queda do muro, a uma nova vocação universal/internacionalista em versão capital-especulativa, ou seja, à tentativa de impor a nova ordem mundial do ‘tudo económico’ e a huxleyzação do mundo (vd. Admirável mundo novo), em que, à falta (ainda) da tecnologia apropriada para nos classificar geneticamente, se trata de se o fazer burocraticamente e por exaustão )

. Falo, no que nos é específico como educadores, da neo-taylorização e desumanização da escola, da redução do educador a funcionário e mero executante (à partida, suspeito!), e dos alunos a produtos calibrados por objectivos, elidindo o papel inerentemente humano e (felizmente!) incerto da profissão de professor.

2. Salvar a casa hipotecando os filhos?

Quando expresso a minha total discordância com este modelo de avaliação, incluindo-o entre a utensilagem da investida economicista neoliberal, de modo algum me conto entre os que são contra qualquer forma de avaliação. Pelo contrário, como professor e como pai, acho-a urgente, entre pares ou não (sinceramente, não considero que seja aí que reside a dificuldade da questão).

Assim ela seja, não burocrática, mas didáctica e pedagógica, formativa e não exclusiva, assente em práticas, exemplos e contextos e não em objectivos descabidos de produção, compenetrada de que educar é uma arte humana de relacionar o conhecimento e de ajudar a pensar, irredutível a fichagens ad hoc e outros procedimentos puramente burocráticos, assim não vise tão só economizar recursos humanos e materiais e, pelo mesmo caminho, qualquer sentido crítico ou formação humanista – o sonho neoliberal! –, mas criar as melhores condições para o exercício digno da função educativa.

Finalmente, uma avaliação exigente, mas fiel ao que é a profissão de professor e executável sem sobrecarga de uma das partes, o professor, e sem comprometer em termos de ensino/aprendizagem a outra parte, o aluno. Na prática, como já todos percebemos, não só nenhuma melhoria para as aprendizagens dos alunos resulta das actuais rotinas (pseudo)avaliativas, como estas aventuram, com invulgar leviandade, trabalhar em seu prejuízo.

3. O que podemos fazer?

Reafirmada a minha absoluta discordância relativamente ao modelo de ADD que nos é imposto e explicitada a minha postura neste contexto, não posso, chegados a este ponto, simplesmente cruzar os braços e alhear-me do aniquilamento do propriamente pedagógico e humano na nossa profissão, da nossa transformação em mangas-de-alpaca, fiéis executores acéfalos de políticas e cartilhas ruinosas, ou consentir, impávido, na pauperização das escolas e na desconsideração a que temos vindo a ser sujeitos pela tutela e, em consequência, a autêntica deflação do valor do professor, como convém à actual estratégia de huxleyzação do mundo.

Acontece, que não podendo deixar de assumir a minha discordância, e uma certa incapacidade pessoal para a anuência a partir de certo ponto, também não posso, ou não posso com ganho, deixar de cumprir o papel que a obrigação profissional me incumbe neste processo.

O pedido de escusa de relator, mesmo quando deferido, serve de pouco. De imediato, outro relator é nomeado e, no limite, ou seja, mesmo que todos os professores de uma escola se escusassem, haveria sempre gente para tal disponível nas escolas mais próximas ou nas seguintes. Do mesmo modo, nas circunstâncias actuais, é pouco realista pretender uma avassaladora escusa dos avaliados, sem a qual, apenas assistiríamos ao prejuízo inglório de meia dúzia de intemeratos.

Posso sim, podemos sim, cumpri-la escrupulosa e massivamente. Sem querer legitimar aquilo que contesto, é exactamente isto o que eu sugiro. Não na base do ‘se não podes vencê-la junta-te a ela’, mas, opostamente, como estratégia ludista: sobrecarregar a máquina e obrigar a implosão.

Se considero hoje difícil uma recusa como aquela que ocorreu aquando dos objectivos, considero ainda possível a entrega massiva de pedidos de aulas assistidas, mesmo fora do prazo. Se algumas escolas o fizessem, isto, localmente, implodia; se muitas escolas o fizessem o sistema pura e simplesmente explodia.

Não sei se é a única coisa que podemos fazer, mas é, certamente, uma coisa que ainda podemos fazer.

Carlos Marinho Rocha

(Re)começar a mexer

Não há jornal, rádio, televisão, blogue, café e esquina onde não se fale de educação. Das escolas privadas com contrato de associação. Das ameaças da ministra aventureira. Dos projectos educativos. Dos números que não há ou que são falsos.

E tudo isto sem sindicatos.

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