Quinta-feira, 27 de Janeiro, 2011


Heaven 17/La Roux, Temptation
Gary Numan/Little Boots, Are Friends Electric?

Escolas e escolas

O processo de avaliação do desempenho avança sobre rolamentos, perante as indignações locais, mas a indiferença global. A agenda foi dominada pela questão dos cortes salariais e, enquanto isso, as coisas desenvolvem-se com contornos perfeitamente patéticos em muitos casos.

Vou apenas apontar algumas situações de que tive conhecimento nos últimos dias, por testemunho directo de envolvidos na situação e quase tudo na área da DRELVT:

  • Há Direcções que, lendo de forma extensiva e abusiva a legislação em vigor, estão a pedir a TODOS os docentes em avaliação, portafolhas desenvolvidos, com planificações anuais, por vezes discriminadas aula a aula como no tempo dos estágios desse(a)s senhore(a)s, e toda uma parafernália de evidências em anexo ao relatório de autoavaliação.
  • Em outras escolas e agrupamentos, são recebidas instruções da DRE respectiva para carregar um pouco na avaliação dos não-meritórios, exigindo um número mínimo de evidências por parâmetro de avaliação. As instruções são quase sempre sem qualquer suporte documental.
  • Há ainda a indicação, com beneplácito superior ou não, por parte de algumas CCAD, para que os próprios relatores tenham aulas assistidas, mesmo quando não têm necessidade legal disso para progredirem. Existem ainda Pedagógicos e CCAD que redefiniram o modelo de ADD a seu bel-prazer e o impõem perante o acomodamento ou puro receio da maioria dos visados que sabem que, no actual contexto, não dispõem de mecanismos para escapar a represálias em termos de horário (o falta dele) no próximo ano lectivo
  • Ainda na onda dos abusos do poder, há algumas direcções a fazerem a exigência (há pouco foi comunicada a de um TEIP aqui do deserto) da entrega de uma ficha de autodiagnóstico, forma velada de tornar obrigatória a definição de objectivos individuais, que depois servirá para aferição dos progressos realizados.
  • Por fim, há ainda maneirismos diversos, para obstar a que as horas de componente não lectiva devidas a cada relator a partir do 1º, 4º e 7º relatados sejam objecto de acordos diversos.

E nem sequer vale a pena falar do quem avalia quem, porque aí já vale tudo e mais alguma coisa. Que não se fale disto, que as situações fiquem no olvido, que muitas denúncias sejam só para eu saber e não divulgar quem e onde, é triste. Triste, porque revela que o adormecimento feito em 2010 está a conseguir os seus efeitos, pela via do medo incutido com as consequências dos reajustamentos curriculares.

A este respeito, as denúncias por parte dos representantes, mesmo os que estão no terreno, são quase nulas. Porquê?

Este é um blogue que divulga posições pessoais dos dois colaboradores e de todos aqueles que enviam materiais para publicação. É um blogue plural(ista), mas tem um ponto de vista, algo desenquadrado. Quem quer as posições oficiais das instituições, organizações e corporações quem que mais se revê, dirija-se, quando necessário, aos respectivos sites ou aos blogues-papagaio.

Vou falar por mim – mas julgo que o Fafe também iria nisso – e dizer que não sinto qualquer obrigação moral, política ou ideológica de satisfazer a agenda de nenhuma organização, nem sinto qualquer dever de fidelidade para com colectivos que têm a  sua estrutura interna, as suas hierarquias e as suas disciplinas. Muito menos aceito que a classe profissional a que pertenço seja amalgamada atrás de qualquer sigla.

Portanto, sou perfeitamente livre de afirmar a minha discordância em relação a estratégias ziguezagueantes de algumas organizações sindicais ou o desaparecimento quase completo de outras, embora reconheça que são elas que têm o papel legal de se sentarem à mesa das negociações com a tutela acerca de questões laborais. Lamento, ainda, que no contexto actual, estejam – de novo – a colocar os interesses específicos da classe docente (e que a uniriam na medida do possível) atrás de interesses alheios, nomeadamente de um modelo de contestação coreográfica, burocrática e domesticada, pré-2005.

Já todos percebemos que não querem fazer cair o governo ou que o FMI venha aí, pelo que se percebe que, no fundo, a luta é para picar o ponto, pois desta forma, nem o governo cede num milímetro (sabe que os contestatários militantes apenas ameaçam, mas não querem morder), nem nós almoçamos em paz.

Sou ainda livre de afirmar isso quando bem entendo, sendo os comentadores livres de me zurzir quando e como bem entendem, mesmo quando alguns (pouquíssimos) mentem voluntariamente para tentar atingir objectivos que serão os das tais organizações ou outras instituições. Ou despeitos pessoais, que os há. Os restantes críticos que me zurzem de forma aberta e declarada são extremamente bem-vindos, sempre na certeza que, na escassez de cristandade, se habilitam a não sair sem resposta.

Prontos!!!

Saiu hoje com o Público e merece ser lido, porque é um ensaio no verdadeiro sentido do termo:

Voltei a fazer comunicações com títulos algo gongóricos e meios trocadilhos (e neste caso de inspiração um pouco macónica).

Ordo ab/ad Chao”: As relações entre criatividade, ordem e (auto)disciplina na sala de aula e no processo educativo

Eu compreendo a tentação orgásmica do frentismo nas ruas, mas também me parece que, como há um ano, ir atrás de agendas delineadas em gabinetes, não serve os interesses da classe docente. Servirá a de alguéns, não a dos representados.

Em relação à contestação nas ruas, Nogueira disse que esta “terá de ser articulada” com as diversas acções em curso em diferentes sectores profissionais, mas considerou provável que estas venham a acontecer logo “nos primeiros dias de Fevereiro” .

Para quem já está esquecido, há não muito tempo, tinha sido anunciada uma jornada de luta para finais de Março, o que daria tempo para uma (até demorada) preparação no terreno. Agora já é no início do Fevereiro. Tudo sem consultar as bases, mas apenas as cúpulas.

Depois queixem-se de algum abstencionismo ou queixem-se, como Jerónimo de Sousa, que «este é o povo que temos». Não confundam minutas entregues com outras coisas.

Pois, é pena, podemos sempre tentar exterminá-lo…

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