Já sei que há quem vai aproveitar logo para dizer que é a síndrome do sabichão ou o do rato de biblioteca mas é outro que o JPP tem muitas síndromes.

Com o devido respeito, pois ele também tem o poder de lançar raios e coriscos, para além de que é o pai da blogosfera nacional, assim como Al Gore é o pai da Internet.

Adiante.

Esta síndrome é a síndrome da alma de esquerda aliada a um intelecto algo reaccionário. Uma espécie de esquizofrenia identitária, em que um corpo rotundo de direita alberga um espírito frugal de esquerdista radical.

A coisa é simples: intelectual e mesmo afectivamente sinto-me canhoto. O problema é que não gosto da maioria dos ambientes típicos da esquerda e dos protagonistas que neles se movem.

Digamos que sou um cripto-esquerdista que, qual judeu converso com banho de água benta no Terreiro do Paço, faz alheiras a fingir de chouriços.

Ou algo assim.

Não sei se me percebem.

É que eu tive a má sorte de crescer tão cercado pelos hábitos de esquerda, em particular estéticos e literários, que fiquei com um monte de anticorpos.

Até gosto bastante de José Mário Branco e Sérgio Godinho, mas não gosto de quem o ouve perdigotando os refrões, tamanha a emoção.

Gosto de José Afonso mas sou incapaz de o tratar por Zeca, como se o conhecesse desde os cueiros.

Consigo ouvir Brel, mas gosto também de Duran Duran, Human League e Pet Shop Boys.

Gosto de discutir literatura, mas sem que o altar esteja ocupado, logo à partida, cá dentro por Saramago e lá fora por Garcia Marquez.

Tenho limitações na poesia, mas não é enfiando-me Neruda pelas goelas que eu chego lá. O mesmo para o teatro e Brecht.

E depois não gosto daquela mistura moral híbrida, meio fascinada pela promiscuidade como transgressão à ordem, mas conservadora sempre que a transgressão desafia a ordem transgressora.

Como é possível ser pela liberdade sexual e de género e depois ser-se homossexual envergonhado ou envergonhar os outros que o são?

Ser-se pela liberalização das drogas e fumar os charritos às escondidas?

Ser-se contra a religião e depois defender fés políticas inabaláveis com zelo de prosélito?

Ser-se pelo poder das massas, mas praticar o culto da personalidade?

E depois aquela atitude de autoridade moral absoluta, como se só os canhotos quisessem salvar o mundo, da forma certa, nem que seja trucidando os que estão errados?

Isto não é uma justificação, é um dilema existencial.

Como é que um tipo como eu pode ser ou sentir-se de esquerda, se não se aguenta dez minutos a falar com um esquerdista ou um camarada ortodoxo sem parecer um eleitor natural do PP-CDS?