Há quem evoque como inspirações literárias para as suas prosas nomes pesados da literatura universal, de preferências os romancistas russos e franceses do século XIX ou, em alternativa, os renovadores do género das primeiras décadas do século XX.

Tolstoi, Dostoievski, Proust, Joyce, Tchekov, Flaubert, Stendhal, the full monty.

Eu continuo – tardo-adolescência a isso obriga – fascinado por outras prosas. Goscinny, claro, na banda desenhada. Aurélio Mário, Homero Serpa, Alfredo Farinha, é evidente, na imprensa que, nos meus primeiros tempos, só existia enquanto desportiva.

Claro que ainda há o MEC das crónicas-pop.

Mas uns desapareceram em corpo (Goscinny logo em 1977, deixando-me e aos gauleses como órfãos) e outros em espírito (o MEC já não existe, agora existe alguém que escreve com o seu nome).

Mas há os que perduram.

E nunca nos deixam ficar mal em forma e conteúdo.

Um deles, que leio sempre com prazer plural é José Quitério, o inultrapassável e quase único crítico gastronómico nacional (Saramago, o Alfredo não era bem cronista).

Esta semana, como em outras:

“Polvo à galega” canónico, mais um ligeiro picante acompanhado pelo que se virá a constituir ser o acompanhamento omnipresente: batatas bravas (aqui assadas com pele, esborrachadas e envolvidas num molho creio que de maionese, orégãos e malagueta) e salada de laranja, cebola, oregãos e azeite. (…) Esplêndido o “bacalhau al pill-pill” – substituído posteriormente na lista por “bacalhau 78º” -, posta assente em fatia grande pão torrado com azeite e alho. A desprender-se do osso e saborosíssimo, o “rabo de boi”, estufado no forno, com o acompanhamento já referido e a laranja a funcionar na perfeição. Exemplo dum cozinhado magistral, sem fantasias nem máscaras, o “joelho de proco assado no forno, com a assessoria habitual. Que também foi caudatária do “cabrito assado no forno”, uma pá que ficou aquém do brilho sápido, talvez porque, como explicou Nuno Santos, a carne é primeiro confitada em gordura de pato antes de ir ao forno.

Parece simples, pode parecer efémero.

Não é.

Nem se confunde com outras prosas, de afrancesamento presunçoso, que nos deixam sem a dose certa de saliva.

Mesmo se o fulgor e a novidade esmorecem um bocadinho com as décadas (leio as suas crónicas desde meados de 80), a sensação de prazer na degustação (dupla) permanece.