Domingo, 16 de Janeiro, 2011


Prefab Sprout, Appetite

“Estamos no Qatar para ficar”

O primeiro-ministro José Sócrates prometeu hoje em Doha, na abertura do Fórum Empresarial entre Portugal e Qatar que está no país “para ficar”.

(…)

Esta é uma visita em que o primeiro-ministro está acompanhado por vários ministros, entre os quais Teixeira dos Santos (Finanças), Vieira da Silva (Economia), Luís Amado (Negócios Estrangeiros) e António Mendonça (Obras Públicas e Transportes), em que está previsto encontros bilaterais com os respectivos homólogos nos dois países. Fonte governamental afirmou que esta visita pretende reforçar a presença de empresas portuguesas naquela área do globo de forma a posicionarem-se para o “enorme investimento” que ambos países estão a programar para a próxima década e que culminará com a realização do campeonato do mundo de futebol no Qatar em 2022.

Há quem evoque como inspirações literárias para as suas prosas nomes pesados da literatura universal, de preferências os romancistas russos e franceses do século XIX ou, em alternativa, os renovadores do género das primeiras décadas do século XX.

Tolstoi, Dostoievski, Proust, Joyce, Tchekov, Flaubert, Stendhal, the full monty.

Eu continuo – tardo-adolescência a isso obriga – fascinado por outras prosas. Goscinny, claro, na banda desenhada. Aurélio Mário, Homero Serpa, Alfredo Farinha, é evidente, na imprensa que, nos meus primeiros tempos, só existia enquanto desportiva.

Claro que ainda há o MEC das crónicas-pop.

Mas uns desapareceram em corpo (Goscinny logo em 1977, deixando-me e aos gauleses como órfãos) e outros em espírito (o MEC já não existe, agora existe alguém que escreve com o seu nome).

Mas há os que perduram.

E nunca nos deixam ficar mal em forma e conteúdo.

Um deles, que leio sempre com prazer plural é José Quitério, o inultrapassável e quase único crítico gastronómico nacional (Saramago, o Alfredo não era bem cronista).

Esta semana, como em outras:

“Polvo à galega” canónico, mais um ligeiro picante acompanhado pelo que se virá a constituir ser o acompanhamento omnipresente: batatas bravas (aqui assadas com pele, esborrachadas e envolvidas num molho creio que de maionese, orégãos e malagueta) e salada de laranja, cebola, oregãos e azeite. (…) Esplêndido o “bacalhau al pill-pill” – substituído posteriormente na lista por “bacalhau 78º” -, posta assente em fatia grande pão torrado com azeite e alho. A desprender-se do osso e saborosíssimo, o “rabo de boi”, estufado no forno, com o acompanhamento já referido e a laranja a funcionar na perfeição. Exemplo dum cozinhado magistral, sem fantasias nem máscaras, o “joelho de proco assado no forno, com a assessoria habitual. Que também foi caudatária do “cabrito assado no forno”, uma pá que ficou aquém do brilho sápido, talvez porque, como explicou Nuno Santos, a carne é primeiro confitada em gordura de pato antes de ir ao forno.

Parece simples, pode parecer efémero.

Não é.

Nem se confunde com outras prosas, de afrancesamento presunçoso, que nos deixam sem a dose certa de saliva.

Mesmo se o fulgor e a novidade esmorecem um bocadinho com as décadas (leio as suas crónicas desde meados de 80), a sensação de prazer na degustação (dupla) permanece.

 

 

 

Já sei que há quem vai aproveitar logo para dizer que é a síndrome do sabichão ou o do rato de biblioteca mas é outro que o JPP tem muitas síndromes.

Com o devido respeito, pois ele também tem o poder de lançar raios e coriscos, para além de que é o pai da blogosfera nacional, assim como Al Gore é o pai da Internet.

Adiante.

Esta síndrome é a síndrome da alma de esquerda aliada a um intelecto algo reaccionário. Uma espécie de esquizofrenia identitária, em que um corpo rotundo de direita alberga um espírito frugal de esquerdista radical.

A coisa é simples: intelectual e mesmo afectivamente sinto-me canhoto. O problema é que não gosto da maioria dos ambientes típicos da esquerda e dos protagonistas que neles se movem.

Digamos que sou um cripto-esquerdista que, qual judeu converso com banho de água benta no Terreiro do Paço, faz alheiras a fingir de chouriços.

Ou algo assim.

Não sei se me percebem.

É que eu tive a má sorte de crescer tão cercado pelos hábitos de esquerda, em particular estéticos e literários, que fiquei com um monte de anticorpos.

Até gosto bastante de José Mário Branco e Sérgio Godinho, mas não gosto de quem o ouve perdigotando os refrões, tamanha a emoção.

Gosto de José Afonso mas sou incapaz de o tratar por Zeca, como se o conhecesse desde os cueiros.

Consigo ouvir Brel, mas gosto também de Duran Duran, Human League e Pet Shop Boys.

Gosto de discutir literatura, mas sem que o altar esteja ocupado, logo à partida, cá dentro por Saramago e lá fora por Garcia Marquez.

Tenho limitações na poesia, mas não é enfiando-me Neruda pelas goelas que eu chego lá. O mesmo para o teatro e Brecht.

E depois não gosto daquela mistura moral híbrida, meio fascinada pela promiscuidade como transgressão à ordem, mas conservadora sempre que a transgressão desafia a ordem transgressora.

Como é possível ser pela liberdade sexual e de género e depois ser-se homossexual envergonhado ou envergonhar os outros que o são?

Ser-se pela liberalização das drogas e fumar os charritos às escondidas?

Ser-se contra a religião e depois defender fés políticas inabaláveis com zelo de prosélito?

Ser-se pelo poder das massas, mas praticar o culto da personalidade?

E depois aquela atitude de autoridade moral absoluta, como se só os canhotos quisessem salvar o mundo, da forma certa, nem que seja trucidando os que estão errados?

Isto não é uma justificação, é um dilema existencial.

Como é que um tipo como eu pode ser ou sentir-se de esquerda, se não se aguenta dez minutos a falar com um esquerdista ou um camarada ortodoxo sem parecer um eleitor natural do PP-CDS?

Donde Sopra?

O “mísero” professor lançou um apelo…

Ou já entrámos na fase do deixa-andar? Em alguns sítios passa-se melhor, porque ainda andam a fazer provas de recuperação…

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