Estive a ler a entrevista de Eric Hanushek no Expresso de hoje. A primeira reacção de alguns professores poderá ser defensiva perante o que lá vem escrito e a citação que lhe serve de título:

É preciso afastar os maus professores da sala de aula

Mas o que ele diz é verdade. Como são verdade outras afirmações suas que passo a resumir nas ideias principais e que, no seu extremo, fundamentam a ideia de que é impossível criar um sistema objectivo de avaliação da qualidade dos professores:

  • Ainda não foi possível identificar as características que fazem sempre um bom professor.
  • Apenas foi possível perceber que em algumas classes/turmas, se verificam progressos nas aprendizagens e em outras não.
  • A quantidade de formação não é relevante para a qualidade, sendo mais críticos os 2-3 primeiros anos na carreira do que acréscimos de formação.
  • Em certas escolas os resultados são melhores, porque as famílias dos alunos investem mais na sua educação.
  • Os sistemas de ensino que mais progrediram foram os que afastaram os maus professores, pois eles são o elemento-chave para o sucesso de uma escola.
  • É muito difícil construir um sistema objectivo de avaliação dos professores e afastar os piores, em parte por resistência dos sindicatos.
  • Nas escolas, quase toda a gente sabe perfeitamente quem são os bons e maus professores.

Tudo isto é verdade, a começar pela última evidência.

O que Hanushek diz não é nada que não conheçamos, apenas sendo necessário colocar um pouco de cimento entre os tijolos, adaptando as constatações ao caso português:

  • É evidente que se sabe nas escolas, com uma margem de erro muito pequena, quem são os bons, médios e fracos professores. É mais difícil ir além disso, mas já é muito. A razão porque não é possível afastar aqueles que são menos aptos para outras actividades deve-se tanto a algum espírito (certo ou errado, não é isso que está em causa) de entreajuda e ao facto de, nuns casos mais notórios, esses mesmos profissionais menos aptos deterem posições estratégicas nas escolas, seja formalmente, seja nas redes informais dos poderes estabelecidos, o que lhes permite sobreviver, quiçá mesmo com a classificação oficial de muito bons no papel.
  • É verdade que os primeiros anos na docência são muito importantes – mesmo mais do que uma formação académica de base muito rendilhada – e que nesse período os novos professores deveriam ser enquadrados e apoiados no seu trabalho pelos colegas mais antigos, esclarecidos nas suas dúvidas, encorajados nas suas experiências. Ora a realidade que vivemos não é essa e tende a piorar com os novos professores a serem, cada vez mais, deixados a si mesmos, quando não ignorados e tão mais ignorados quanto mais inibidos. Porquê? Porque os que estão na carreira passaram a estar, em grande medida, obcecados por tudo o que lhes caiu em cima e com muito pouca disponibilidade para partilhar experiências e encaminhar quem precisa.

Se quiserem perceber porque entre nós as coisas tenderão a não correr melhor, podem olhar para estes dois aspectos. e se quiserem melhorar alguma coisa, tentem agir de forma cirúrgica nestes aspectos (entre outros).