É de elementar justiça reconhecer que a equipa que prepara certas estratégias políticas deste Governo é muito superior à generalidade da concorrência. Podemos ter um PM fraquíssimo em muitas coisas, mas está por certo rodeado de quem sabe dar a volta a quase todas as situações. Em contrapartida, nas oposições parlamentares ou informais, pode existir muito boa gente, mas com uma entourage a roçar o amadorismo.

Em especial na área da Educação.

É a minha opinião e tão só.

Vejamos o que se está a passar com os resultados dos testes PISA 2009. Os resultados foram bons para o que era habitual, deixando a maior parte dos opositores declarados do Governo nesta matéria entre algum embaraço e o desejo que tudo se desvaneça o mais rapidamente possível.

Alguns críticos brandiram insinuações de manipulação da amostra usada, mas nada de concreto adiantaram. No meu caso, acho que, havendo suspeições, se deveriam aclarar alguns detalhes técnicos da amostra de escolas que entrou nos testes de 2009 e compará-los com as amostras de 2003 e 2006. Se nada existe de suspeito, resolve-se a questão. Mas ao que parece, ninguém está muito interessado nisso. Eu percebo porquê.

Mas há uma coisa que não percebo.

Que é o facto e alguns não perceberem que a utilização maciça destes resultados em termos mediáticos – vejam-se as entrevistas de José Sócrates ao Público a meio da semana e agora ao Diário de Notícias, assim como a recuperação da figura de Maria de Lurdes Rodrigues como grande obreira destes resultados no Expresso de hoje, mas não só – serve uma estratégia política de legitimação das políticas do anterior mandato e, consequentemente, a bondade de as prolongar e aprofundar.

E é isso que está em causa.

A actual equipa do Ministério da Educação não manda em nada de relevante. Não definirá se existirão concursos ou não, quando terminará o congelamento, sequer como é que a reforma do ensino básico será feita. Pode funcionar como orelha ou almofada para os queixumes sindicais, mas tão só isso.

Basta ver que José Sócrates chamou a si todos os holofotes acerca deste assunto e fez questão de explicitar mais de uma vez que as políticas anteriores foram injustamente criticadas e até exagerou a oposição que tiveram para sublinhar a sua razão.

O passo seguinte é óbvio: o que está a ser feito é eficaz, está correcto e deve avançar. A legitimação está nos resultados obtidos. Gestão escolar, carreira docente, avaliação do desempenho, desenho curricular, tudo deve continuar a evoluir como o Governo pretende porque o governo apresentou resultados. A rationale que será martelada é esta e é clara no que transmite para a opinião pública. Esperem para ver a revoada de opinadores a saírem do sarcófago de novo e varapau em punho contra a malandragem dos professores que se opôs a tão frutuosas políticas.

A reforma do Ensino Básico tem estado guardada à espera deste momentum. É óbvio que os resultados do PISA 2009 já eram conhecidos há algum tempo pelo Governo. Daí a espera longa por algumas medidas.

Porque agora serão apresentadas como crédito acrescido. Por serem a continuidade das políticas que nos arrancaram às trevas das comparações educativas internacionais.

E o avanço será em tropel. Os sindicatos bem poderão obstar que as medidas cortam milhares de horários, levam muitos milhares de professores para o desemprego e prejudicam o modelo de Escola Pública desejável. O Governo terá do seu lado os resultados. E usará isso sem dó nem piedade. Porque argumentará que é possível fazer mais e melhor com as suas medidas. Como no passado.

Por isso, é indispensável saber se estes resultados são neutros e se em 2009 se seguiram os mesmos padrões de selecção de escolas que em 2006 e 2003.

Se nada existe de problemático, ficaremos como estamos. Se for perceptível algum tratamento, perceber-se-á que as coisas não são como estão a ser apresentadas.

Esta não é uma discussão irrelevante.

E se, com os critérios usados em 2009, estes resultados já tivessem sido possíveis em 2006?

Será que melhoraram os resultados ou a amostra é que era melhor?

É toda uma diferença enorme entre ter argumentos claros para criticar o nexo causal que Sócrates vai explorar até ao tutano e não os ter ou tê-los de forma difusa para a opinião pública e publicada (é difícil explicar para fora que as aulas de substituição, a escola a tempo inteiro, os magalhães e isso tudo nada têm a  ver com estes resultados…).

Eu prefiro saber as coisas como elas são. Se não tiverem fundamento quaisquer suspeições sobre a metodologia usada e ela for comparável às de 2006 e 2003, serei o primeiro a reconhecê-lo e a enfiar o teclado na sacola.