Olá Paulo:

Começo por felicitá-lo pelo trabalho que continua a fazer, na desmontagem  de toda a (des) informação que continuam a querer passar para a opinião pública.
(..)
E, nesta saga de querer “enganar o povinho” (e olhe que penso que conseguem!), esta informação destes dias sobre os resultados do PISA tem-me provocado algumas náuseas, sobretudo pelas causas que apontam para este sucesso “estrondoso”.
Nós estamos na escola, nós sabemos o que os nossos alunos sabem ou deveriam saber e não é qualquer estudo que nos vem provar o contrário (sabe que eu chego a pôr em causa a maneira como foi feita a selecção dos alunos que participaram).
É neste contexto que tomo a liberdade de lhe enviar um excerto de um teste de um aluno meu que frequenta o 10ºano, repito o 10ºano de um curso profissional. Não é um desses documentos que recebemos anónimos por mail, é um aluno meu.
É verdade que não são todos assim, mas são alguns e a situação é muito grave e preocupante. Pergunto: Como foi posssível que um aluno que se exprime assim, chegue ao 10º ano, sem nunca ter reprovado?
Pergunto aos pedagogos, à ministra actual e anterior, quais as estratégias para se lidar com situações destas, quando nos chegam ao 10º ano neste estado?
Algumas informações mais concretas, para que se perceba melhor o contexto:
A turma tem 25 alunos. (10º ano de um Curso profissional). No módulo 1 (textos de carácter autobiográfico e textos de domínio transaccional), 10 alunos não tiveram sucesso no módulo.
Novo teste de recuperação, para “recuperar” os alunos que não obtiveram sucesso. É aí que surge este teste “difícil” . Posso dizer-lhe que dos dez alunos, apenas um conseguiu “recuperar“. Os restantes 9 irão fazendo recuperações e exames até que se cansem ou que cansem o professor.
As respostas do aluno em questão que lhe envio são apenas uma parte do teste – o resto é idêntico ou pior (não envio, para não ser exaustivo). O enunciado segue para se perceber o que é pedido. Repare-se que a questão 4 – a declaração – está praticamente resolvida na questão 1. Era só copiar e alterar alguns dados. Leia-se com atenção o último exercício – a carta ao Presidente da Câmara. Não são apenas os erros ortográficos que estão em causa. É todo o discurso que nem num aluno “normal” do 4º ano,seria justificável.
Acrescento que foram treinados, em sala de aula,  todos os exercícios que constam do teste.
A nível do desempenho na sala de aula, a maioria dos alunos não sabe ler (literalmente), não consegue resolver os exercícios propostos, enfim, fácil de imaginar para quem tem turmas semelhantes.
Esta é a realidade da escola que temos, Paulo. O sucesso dos nossos alunos que já têm o 9º ano (repito, alguns) é este.
Peço desculpa pela extensão do mail e por este desabafo, mas eu que não tenho o hábito de divulgar as falhas dos meus alunos, senti essa necessidade nestes dias em que só ouço falar em sucesso.
Continuação de bom trabalho e, mais uma vez, obrigada por tudo.
Uma leitora diária do Umbigo, mas muito pouco participativa nos comentários.
Abraço
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F.
Ficam em seguida o cabeçalho da prova, a questão colocada e a resposta: