Jantei ontem, tal como há um par de semanas, com um pequeno grupo de pessoas em que, por uma vez, não existia mais nenhum(a) professor(a). Parecendo que não, é uma experiência que não tinha há algum tempo e é muito importante para quebrar um certo ciclo claustrofóbico, e em parte autofágico, em que os docentes se foram encerrando.

Porque é importante não apenas ouvir as mágoas e frustrações alheias, quanto percepcionar a incompreensão objectiva de pessoas que, sendo da minha faixa etária, tendo filho(a)s na escola (pública) e tendo formação e emprego com qualificação acima da média, não entendem bem o que se passa na geografia interior de uma escola, para além do átrio e corredores seguros da visita ocasional para reunião de encarregados de educação, resolução de problemas burocráticos ou mesmo busca de informações no horário de atendimento das direcções de turma.

  • A principal incompreensão passa por não se entender o estado de depressão e desânimo que atinge a generalidade dos docentes, pois consideram que isso se pode passar em qualquer profissão. Esquecem-se que a visibilidade dos professores foi intensa e que desde 2005 a guerra aberta pelo ME aos professores, que agora já se assume visar principalmente a quebra do poder dos sindicatos que viviam em regime de quase cooptação com a 5 de Outubro, provocou danos imensos em que não tinha responsabilidade nenhuma em muita coisa. Os professores, enquanto profissionais individuais tornaram-se as vítimas colaterais de um conflito que azedou logo a meio de 2005 com uma falhada greve aos exames que deu armas mediáticas ao ME para desferir a mais intensa e longa campanha lançada em Portugal sobre uma classe profissional qualificada nos últimos 36 anos.É difícil para quem está fora perceber o quanto foi errada a forma como a tutela decidiu massacrar os civis, quando o que estava em causa era uma disputa entre milícias desavindas. É complicado transmitir o que sentiu a maior parte dos professores comuns ou professorzecos, na terminologia inicialmente  acintosa que se tornou corrente, perante o que se passou, o que foi necessário para unir quase toda a gente contra algo e, pelo caminho, dar de novo poder negocial aos mesmos sindicatos que, ao perceberem há um ano que o status quo pré-2005 podia estar de regresso, se apressaram a deixar as vítimas e os feridos abandonados no terreno, até virem de novo solicitar que se levantassem e fossem à luta, na qual tinham sido defraudados. É difícil explicar e só se consegue, mais do que com a exposição de casos individuais de quebra a meio da idade útil das pessoas, apostando muito nos argumentos de raíz emocional aliados à demonstração da irracionalidade prática das medidas colocadas em prática.
  • Quanto ao desconhecimento mais gritante, em especial por parte de quem tem filhos em escolas menos problemáticas ou que conseguem manter uma aparência de acalmia, reside no facto de se ignorar a violência verbal e muitas vezes física que polvilha a geografia interior das escolas. Que sempre existiu, eu sei, não preciso que nenhum danielsampaio mo recorde, mas que não é argumento para que se mantenha e se tenha multiplicado em manifestações arbitrárias. O nível de linguagem colorida que é de uso comum pelos corredores, à entrada e saída de muitas aulas só a custo não faz corar que fez a escolaridade secundária na segunda metade dos anos 70, outro período particularmente animado a esse nível. O descuido absoluto no uso do vernáculo mais cru por parte de raparigas e rapazes, a facilidade com que qualquer epíteto é lançado na cara de qualquer colega ou nas costas de funcionárias e docentes, a incompreensão perante os reparos e a arrogância com que tentam reagir, a utilização arbitrária de violência física sobre os mais fracos, apenas porque se pode, é algo que faz parte do quotidiano de muitas escolas e do desconhecimento de muita gente, pois os próprios participantes e observadores o parecem ter incorporado no que consideram normalidade, não o revelando em casa por considerarem irrelevante ou, acredito que numa proporção variável de casos, por vergonha ou receio. Não é meu intuito apresentar a vida nas escolas como uma babel assustadora e aumentar qualquer eventual descrédito. Apenas gostaria que quem está de foram se aperceba que os níveis de desvario na sociedade, de perda de referências e modelos éticos de conduta, estão a reflectir-se de forma muito problemática nas novas gerações e que se a actual geração de job«vens qualificados já só aspira a sair de Portugal, boa parte daquela(s) que lhe segurá(ão) não irão trazer consigo nada que nos permita acreditar numa regeneração, a menos que se inverta radicalmente a forma como tosdos (ou quase) funcionamos.

Não adianta discursos mistificadores em torno da qualificação e certificação da população. Mais do que úteis, há idiotas inúteis que reproduzem um discurso desse tipo, apenas porque se resumiram a ler livros, recordar a escola do seu passado, olhar para a do presente apenas de fora e, misturando isso com preconceitos ideológicos de juventude (por vezes mascarados com modernices aprendidas no momento de organizarem a vidinha), elaborar teorias totalmente desfasadas da realidade que os outros vivem.

Felizmente ainda há gente que consegue não ser assim, percebendo – quando encaminhado o seu olhar para alguns detalhes – um pouco da ebulição cada vez menos dormente que se vive em muitas escolas, sendo que a camada que tem a responsabilidade de conter a erupção – funcionários e professores – é cada vez mais fina.