Segunda-feira, 8 de Novembro, 2010


Lloyd and the Commotions, From the Hip

… deu-me imenso trabalho não fazer o teste que tenho marcado para amanhã.

ainda não entendeu qual delas andam a divulgar.

Escola Patrício Prazeres foi encerrada pelos pais. Falta de funcionários, agressões a alunos, alunos do ensino especial sem apoio e relatos de existência de droga na escola.

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Dívidas do estado às autarquias, transportes, refeições e ADSE dos funcionários das escolas, 76 milhões referentes à educação.

Não sei porquê, mas o Fernando Ruas, só por aparecer, é tipo Woody Allen, dá-me vontade de rir… Porque será?

… um tipo não merece mesmo ser assim tão mal tratado pelo seu clube do coração. Não encerro posts, mas hoje só mesmo a música pré-programada. Estava para escrever um texto bastante crítico do início de um livro que comprei este fim de semana, mas ainda podiam pensar que o mau feitio tinha origem no futebol.

Ana Benavente no Público de hoje (sem link):

A área de projecto visa preparar os jovens para uma articulação profissional, social e cívica dos saberes. A compreensão de uma questão ambiental, que pode ir desde a reciclagem do lixo até à leitura de catástrofes ecológicas, exige, entre outros, conhecimentos de História, de Geografia, de Matemática, de Biologia, de Física, de Química, e utiliza suportes linguísticos, suportes visuais e por aí fora. Visa a formação de pessoas responsáveis e atentas local e globalmente à acção humana sobre o planeta. Poderia ilustrar a importância desta área com muitas outras situações e problemas, individuais e colectivos, da saúde à economia.

Uso com alguma regularidade uma espécie de corpo textual pessoal em Língua Portuguesa. Os textos vão variando, vão-se incorporando novos, há outros que são trabalhados em equipa como decisão comum do grupo disciplinar, mas há alguns a que regresso sempre, tratando-os de forma diferenciada conforme sejam turmas regulares ou de PCA.

De qualquer modo, habituei-me a que, mesmo sendo turmas PCA, com diversas dificuldades de aprendizagem sinalizadas, entendam esses textos, salvo um ou outro detalhe.

O que permite comparações ao longo do tempo.

Nos últimos anos vou reparando a gradual perda de vocabulário dos alunos ou o seu distanciamento em relação a alguns textos tidos por mim (e não só) como padrão para o trabalho com os alunos.

Este ano, em especial com uma turma PCA, estou a deparar com a situação mais grave de incompreensão de um grupo de alunos em relação aos textos escritos, seja no manual da disciplina, seja nos materiais auxiliares que utilizo.

A experiência mais recente é com o texto O Macaco de Rabo Cortado de António Torrado e é brutalmente desanimadora. Vou na segunda aula e – se me abstrair que metade da turma se esqueceu de o trazer depois da primeira – e não consegui passar de metade do texto porque quase nenhum aluno entende o que está escrito, sejam as palavras, seja o seu encadeamento em frases, seja a progressão da história.

Boa parte de 45 minutos foram gastos a tentar que fosse completamente entendida seguinte passagem inicial:

Era uma vez um macaco mariola, que andava de bata e sacola, como se fosse para a escola. Mas não ia. Era tudo a fingir.
Os rapazes, quando o viam passar, troçavam dele e gritavam:
– Macaco escondido com o rabo de fora… Macaco escondido com o rabo de fora…
Pois era. Realmente o rabo sobrava de bata e, muito comprido e retorcido, corria atrás do macaco para onde quer que e fosse.
Então o macaco entrou numa barbearia e pediu ao barbeiro que lhe cortasse o rabo. O barbeiro afio a navalha e zut! – rabo para um lado, macaco para o outro.
A operação deve ter doído, mas o macaco, que tinha tanto de vaidoso como de corajoso, não se importou. E de sacola e bata, muito empertigado, veio para a rua mostrar-se nos seus novos preparados.

Estavam uns homens à conversa, numa esquina. Quando o viram passar, um deles comentou:
– Macaco sem rabo é como um burro sem orelhas. Fica mais feio e fica mais minguado. Coitado!
O macaco ouviu-o, sentiu-se e correu ao barbeiro para lhe desenvolvesse o rabo. Talvez ainda pudesse ser cosido ou colado…
– Olha o macaco toleirão à procura do rabo. Que queria que eu lhe fizesse? Deitei-o fora e a camioneta do lixo levou-o – disse-lhe o barbeiro.
Aí o macaco zangou-se. E quando uma pessoa ou um macaco se zanga e perde a cabeça, faz disparates. Sem mais nem menos, agarrou numa das navalhas do barbeiro e disse:
– Nesse caso, levo-lhe a navalha com que me cortou o rabo.
E abalou.

Quando apresentei as questões: Qual o problema que o macaco tinha no início da história? e Como o resolveu? fiquei com a perfeita consciência de que a leitura em voz alta fora um exercício quase completamente desperdiçado. Quem lera, não percebera. Quem não lera, mal ligara, perdendo-se a cada mudança de linha.

Entre olhares pela janela, cabeças baixas e diversos pequenos tiques tive uma ou duas respostas semicertas.

A razão: uma aparente afasia primordial ou então um quase total isolamento em relação a um verbo mais elaborado do que o usado para a comunicação humana mais básica e concreta.

Tudo se transformou em coisas. Tudo são coisas e aquilo, tudo está aí ou ali quando se pergunta o que está escrito no quadro ou projectado no ecrã. Atrás, à frente, acima, por baixo, antes, depois, são significantes sem um significado específico, tudo é intermutável, tudo serve para significar tudo. Uma espécie de pós-modernismo linguístico radical onde as regras não existem e nada é o que é ou deveria ser, antes sendo o que interessa, num dado momento, a quem enuncia o som ou escreve a palavra.

Nestas condições, a comunicação reduz-se a um fio demasiado frágil, com um grau de incerteza elevadíssimo e o risco de incompreensão no máximo.

Mais do Língua Portuguesa é essencial desenvolver a linguagem quase desde as raízes mais profundas.

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