Não se trata propriamente de memória selectiva, aquela que apaga e acende os acontecimentos conforme. Trata-se de uma forma algo diferente, de obliterar a memória por motivo de conforto e deixar que quem parece que aguenta se aguente. É uma forma cobarde de viver, mas que se percebe, num tempo de medos vários e receios, muitos, de solidão.

É complicado quando se depende deste tipo de memória para reconstituir uma verdade, restituir os factos à sua realidade, recuperar uma parcela de dignidade ao que se perdeu.

É complicado ter de ignorar que o nosso carácter pode ser vítima desse súbito nevoeiro que acomete quem teria o poder de fazer justiça onde ela desapareceu.

E tanto mais custa quanto se sabe que não foi esquecimento, confusão, o que aconteceu. Falta de coragem, apenas. Medo de. Opção por agarrar o que há, não arriscando ser.

Custa ver isso. Saber que há quem viva assim.

Aos poucos desiste-se. De quem assim é. Porque se sabe que apenas temos ali um simulacro. De vida. De pessoa.