… querem aparecer como os salvadores de hoje.

Os protagonistas da história das negociações à volta orçamento não são novos. Muito pelo contrário são, em diversos casos, os papás amnésicos do monstro deficitário que agora dizem ser urgente domesticar.

Cavaco Silva, o autoproclamado salvador do problema (basta ler a imprensa de hoje) foi o responsável pela introdução em Portugal das PPP, na altura um prodígio de engenharia financeira destinado a construir a ponte Vasco da Gama que ficou conhecido pela rábula de Mário Soares, então presidente, com Peres Metello, o analista financeiro que ganhou aura de guru ao explicar uma coisa bastante simples ao receptivo e pouco dado a coisas financeiras presidente.

Mais de 15 anos passados reencontramo-los TODOS na defesa da aprovação de um Orçamento estrangulado de forma oculta por encargos astronómicos com as ditas PPP, mas aberto à continuação do festival gastador.

Cavaco Silva é o presidente que aparece como o patrono que manda fazer o acordo.

Mário Soares aparece com o senador que dá a sua anuência a um mau, mas necessário nas suas palavras, orçamento.

Peres Metello continua um dos analistas do regime, agora menos vigoroso, mas também rendido às necessidades da real politik financeira.

Num outro plano encontramos o actual PM, José Sócrates, outrora fogoso defensor dos direitos ambientais, que assistiu às obras da ponte Vasco da Gama, à sua inauguração com feijoada abundante e esteve ligado ao aparecimento do Freeport, um empreendimento que muito beneficiou o ambiente do estuário do Tejo e que tem – é mais do que evidente – um imenso impacto na economia real do país.

José Sócrates, esse, não o esqueçamos, foi com Gilberto Madaíl e Carlos Cruz o obreiro do Euro 2004 para Portugal, ess’outro evento com forte impacto na economia nacional, alimentado por mais uma bateria de PPP que deixaram diversas autarquias endividadas até ao pôr do sol cósmico, legando diversos estádios a um futuro-presente semelhante ao da Estátua da Liberdade na praia do filme Planeta dos Macacos (o piroso… com o Charlton Heston, não o gótico pós-moderno do Tim Burton).

Eduardo Catroga foi ministro das Finanças no período final do cavaquismo, aquele em que se deu o célebre Buzinão e bloqueio da ponte 25 de Abril quando os indígenas perceberam que a maravilhosa engenharia financeira de Cavaco, explicada por Perez Metello a Soares, mais não era do que uma forma de entalar duplamente os contribuintes.

Ainda à data surgiram Dias Loureiro, enquanto MAI, a enfrentar a revolta, ganhando notoriedade e currículo para passar pouco tempo depois para o grupo Roquette e ter o destino que sabemos ligado à SLN e ao BPN que o levou a deixar de ser conselheiro de Estado nomeado pela confiança política de Cavaco Silva.

Do outro lado da barricada, entre outros, um jovem e esguio Armando Vara apelava a uma indignação activa a que o presidente Mário Soares tinha dado cobertura teórica. Pelas mesmas fileiras andavam Jorge Coelho e José Sócrates, esteios do guterrismo que aí vinha, regenerador dos vícios da Nação. Que como sabemos terminou num pântano de que ainda não saímos, embora ninguém assuma responsabilidade pelo que fez e apesar de sabermos parte do sucesso que todas estas figuras tiveram na sua vida profissional e política.

Mais se poderia continuar a evocar, desde logo que Cavaco Silva chegaria ao poder beneficiando da intervenção do FMI e dos custos políticos que isso acarretou para o PS de Mário Soares e para a direcção do PSD de então (Mota Pinto).

Mas apenas se perceberia que os actores de hoje são os mesmos de ontem, incluindo os especialistas financeiros que agora sabem todos os segredos mas que foram então coveiros activos ou passivos da situação financeira do país (de Vítor Constâncio a João Salgueiro, passando por tantos outros que souberam governar em vacas gordas, gastando por conta e quem viesse atrás que fechasse a porta – Braga de Macedo, Pina Moura, transformados em ocasionais analistas televisivos, etc, etc), por acção e/ou omissão.

Só o facto de os ver unidos numa mesma causa, coloca-me logo do lado contrário.