Às escolas mas não só. A um nível equivalente ao período-Charrua. Só que agora de forma mais nebulosa, pois os rostos evidentes da animosidade desapareceram e ficaram o sorriso e os cinzentos.

Neste momento, quer ao nível de alguns departamentos do ME e nas DRE, quer nas escolas, os zecos nunca se sentiram tão desprotegidos e vulneráveis.

  • Uns amordaçados por ordens intimidatórias expressas de reserva de informação, caso contrário o culpado será procurado e expelido. O controle da informação está com os alarmes ligados no máximo. Só sai o que pode ser spinado e seja conveniente. As fugas são analisadas ao milímetro e as que existem são com pedido expresso de não publicitação, sendo apenas para conhecimento pessoal.
  • Outros, perante o que vão ouvindo e sentindo, cada vez mais automanietados no exercício dos seus direitos. A apreciação intercalar, legislada em 2009 (pré-acordo ME/sindicatos) é negada com base na necessidade de explicações do ME, as quais são atrasadas de forma voluntária, de maneira a cobrirem as direcções que assim tentam que 2010 passe sem procederem às transições devidas. A transição de colegas ao abrigo das condições extraordinárias da última versão do ECD, apesar de escassas, sofrem do mesmo bloqueio. Com receio, muitos colegas calam-se, não requerem por escrito que as coisas sejam feitas ou explicadas. O medo da fabricação de horários zero ou da vingança em forma de péssimos horários no ano seguinte são factores de dissuasão. E que tal se em vez de seres DT e dares a tua disciplina passares a dar quatro ou cinco disciplinas diferentes, novas, sem manual, sem um programa coerente, nos cursos CEF e EFA que dão pontos na avaliação da Direcção?

E o pessoal encolhe-se.
E encolhe-se tanto mais porque sabe que quando se mobilizou, foi abandonado a meio do caminho por duas vezes.

Porque tem a noção que querem usar os professores, de novo, como guarda avançada de um assalto a um castelo que não querem tomar, apenas querem ter acesso ao salão de bailes.

A mobilização existiu. Depois foi o que sabemos. Entendimentos, acordos, tudo como se fosse verdade que Alçada & Ventura tivessem margem para garantir fosse o que fosse.

Podia estar a mobilização em refluxo, eu sei. Podíamos estar cansados, eu sei. Mas desde Janeiro a paz nas escolas foi conseguida por um acordo entre cúpulas profissionalizadas de sindicalistas que fazem modo de vida disto. Não por curiosos, que dão aulas e escrevem em blogues ou amadores de momento. Tinham em seu poder, esses representantes, informações e elementos que poucos tinham. Foram-lhes apresentados elementos que não partilharam com os representados. Acreditaram que, em alegre relação preferencial com os seus interlocutores, conseguiriam saltar o rio com as pernas atadas por José Sócrates e Teixeira dos Santos.

E mandaram acalmar os zecos e atacaram quem se mostrou crítico do acordo. Acredito que, como fizeram dossiês do que se escreveu a seguir ao acordo, tenham compilado o que escreveram sobre as maravilhas do que tinham assinado.

Será que não viram que a estrutura operacional do ME era a mesma e que só tinham sido substituídos os rostos de topo, com a nova equipa a ser apenas testa-de-ferro de quem mantém presos os cordelinhos? Não viram Valter Lemos numa secretaria de Estado que pode provocar tantos danos às condições de trabalho dos docentes quanto a da Educação? Não viram o que se passava nas DRE? Não viram que quando o acordo foi assinado, Sócrates fez questão de divulgar a recompensa de Maria de Lurdes Rodrigues com a FLAD?

Ou fizeram por não ver?

E é aqui que chegamos, entalados entre quem quer manter as escolas no medo e no silêncio e quem quer, depois de levar meses a dizer que estava tudo bem, levar de novo os professores para a rua, servindo como primeira vaga de uma investida coreográfica contra um governo que não querem derrubar.

Os zecos – agora já somos todos zecos, embora uns menos do que outros – são meros peões num confronto que os sacrifica a cada oportunidade.

E, como já vezes de mais repeti, só podemos evitar isto se nos informarmos, se soubermos desenvolver uma análise crítica do que se passa e se agirmos de forma consciente, esclarecida e livre.

E é isso que não querem.

Querem que o medo se instale e paralise.

Dos dois lados. Embora do lado do ME com mecanismos de intimidação muito mais insidiosos e potentes. Do outro apostam mais no sentimento de culpa se não aderirmos a fazer o que quem não partilha o nosso quotidiano acha bem que façamos.

Era bom que se entendessem todos e nos deixassem em paz. Que trabalhassem e deixassem trabalhar. Que, de uma vez por todos, libertassem a Educação de actores.