Para a minha petiza, a noite de ontem foi particularmente ilustrativa do estado de degradação social que atravessamos, que não é apenas de agora, mas que não houve biliões europeus que resolvessem, deixando grande parte da nossa população sempre no limiar do descalabro.

Não é que ela já não tivesse visto, mas talvez tivessem sido as cores da noite a acrescentar um pouco de dramatismo.

Talvez o facto de ser em zonas centrais da capital.

Talvez a concentração no espaço de um par de horas.

A mendicidade sempre a deixou cheia de perguntas e lágrimas nos olhos. Mas ontem aquilo a que muitas vezes assistiu (o pedido de dinheiro por parte dos arrumadores, os mendigos em cruzamentos) concentrou-se num trajecto curto, desde o idoso que pedia dinheiro junto a um luminoso grande espaço comercial ao precocemente envelhecido homem que apareceu perante os nossos olhos, num cruzamento próximo do Marquês, sem palavras, apenas com um papelão a gritar-nos Tenho Fome, não esquecendo, já com a noite mais avançada, o grupo de homens que, de modo ordeiro, seleccionava o lixo de um supermercado, mostrando uma paradoxal alegria pela fruta imprópria para venda que encontravam e uma inesperada quantidade de sumos com as embalagens danificadas.

O catar do lixo, fenómeno conhecido de há muito junto às traseiras e dianteiras de supermercados urbanos, para busca de comida, juntou-se ao tradicional vasculhar de monos, papelões e outros materiais para uso ou revenda que sempre conheci por bandas mais suburbanas.

Só que nos últimos meses tem recrudescido este fenómeno de viver do que os outros abandonam ou recusam por pequenas imperfeições, revelando até que ponto esta República alargou um fosso imenso de desigualdades.

Explicar a uma criança pequena que aqueles homens, ainda em pleno vigor da idade, estão empurrados para procurar o lixo alheio, é algo que se torna chocante para nós mesmos e nos faz interrogar sobre a espiral de consumo supérfluo a que alguns se entregaram, enquanto nas suas sombras há quem seja obrigado a viver dessas sobras.

Não é gente que prefira viver assim, que opte por debruçar-se em contentores de lixo em busca de um saco de peras a começarem a apodrecer, a pescar pacotes de leite amassados, de uma forma tão ordeira e calma que demonstra como é já uma rotina. Quem conhece a zona, sabe que aqueles rostos não são os mesmos que, de dia, ali estão a arrumar carros, ou mais adiante, encostados a uma ombreira satisfazendo algum vício. Alguns daqueles homens não estão desmazelados, não são marginais, são gente que até pode ir a caminho de casa com os despojos da noite.

E talvez esse seja o maior choque.

Explicar a uma criança que eles não são ainda a base mais despojada da sociedade.

Alguns ainda são como caçadores em busca de comida para a sua família, que a vida transformou em necrófagos dos grandes e médios predadores. Que em casa há outras crianças à espera que ele regresse com a colheita possível. E isto não é neorealismo ou demagogia, porque não é literatura, nem política. É o real a entrar-nos pelos olhos dentro, ao mesmo tempo que ergue o rosto do contentor.

São uma face da república (assim, minúscula…) que não é hoje homenageada. Porque o artifício, o desperdício, o simulacro, a aparência venceram no culto de um regime que vai falhando cada vez mais.

Há quem critique a I República por ter sido um regime que se transformou na coutada de uma clique oligárquica, violenta, progressivamente desligada do Povo em nome do qual tinha afirmado fazer a Revolução.

Não estarão a falar desta III República, com a única diferença que a violência das bombas e assassinatos foi substituída por uma violência menos estrondosa, mas mais insidiosa?

E aqueles que exaltam essa mesma I República (ontem não consegui ver mais de uns minutos de um Prós & Prós, enviesado a um ponto extremo…), não conseguem perceber que aquilo de que se alimentaram nos últimos anos, em espírito de negócio comemorativo, é a herança do pior que o folclore republicano teve para nos dar?

Será que certos analistas que tão rapidamente ajuízam sobre o passado não estarão cegos perante o presente?

Será que perderam o olhar da criança que, na sua falta de filtros e teorias, se choca quando ?