Mas depois começou um pouco a perder-se, metendo-se pela História como se ela fosse ciência exacta e ela não o é, nem em relação ao que se passou, quanto mais em relação ao que por aí vem.

Se o regime monárquico, como disse o seu último chefe de governo, suscitava a indiferença do povo, porque durou tão pouco tempo a Primeira República? Se tinham ideais tão elevados, porque se deixaram os políticos republicanos enredar em conflitos e divisões que acabaram por conduzir o país para uma ditadura?

A resposta terá de ser dada pelos historiadores. Mas é sabido que a instabilidade da Primeira República se ficou a dever, entre outros factores, à ausência de um elemento fundamental: a cultura da responsabilidade.

É pacífica a conclusão de que a República foi um regime atravessado por querelas e lutas que pouco diziam ao comum dos Portugueses. Lutas que eram perfeitamente secundárias face aos problemas que o País tinha de enfrentar: o analfabetismo e a pobreza, o atraso económico, as desigualdades, a dependência do exterior, a entrada na Grande Guerra, o desequilíbrio das contas públicas.

O essencial não é a discussão e a luta dos políticos. Há cem anos, como hoje, o essencial é a vida concreta das pessoas.

Em primeiro lugar, a resposta dada pelos historiadores varia muito, segundo as suas circunstâncias particulares, conforme se seja Rollo/Rosas (uma improvável dupla de especialistas na I República) ou Ramos (incensado por quem de História não percebe e ali entrevê um Sebastião possível, se e quando o actual falhar). Cada um vê os factos objectivos pelas suas lentes e serve um cardápio de interpretações enviesadas para o seu lado.

Claro que é tentador fazer paralelismos entre o final da I República e o período actual, mas isso é ignorar que a primeira das Repúblicas caiu tal como caíra a Monarquia, sem que quase ninguém a defendesse e por acção de um núcleo de militares que de forma insistente a vinham atacado desde os tempos do sidonismo.

Ora, neste momento, em Portugal, o regime não está em perigo porque, embora a maioria esteja indiferente, ainda há muita gente que vive do regime e dos seus privilégios, pelo que o defenderá com unhas e dentes, mesmo se defunto. Pelo menos até 2013 para sorver o que ainda há e depois uns anos para cobrir as pegadas e apagar as impressões digitais.

Por outro lado, nem em Portugal nos últimos 150 anos vivemos qualquer mudança de regime com base em movimentações de massas, nem temos neste momento qualquer massa crítica de militares para encenar um novo 1820, 1910, 1926 ou 1974. Nem sequer um 1817 ou 1891 ou…

Somos um país que não está em situação de se repetir porque, pelo menos por enquanto, os retóricos apaixonados são isso mesmo e tão só (quanto muito escrevemos em blogues e por vezes em jornais…) e as forças armadas se civilizaram no duplo sentido do termo.

Há que ter calma e apre(e)nder o país. Isso mesmo, falta apre(e)nder o país. Como em muitas outras coisas há também aqui uma enorme falta de cheiro de balneário que a conversa de esplanada não substitui.

Não há perigo/esperança de mudança de regime, porque a força e o ânimo ainda estão mais do lado dos agarrados aos cadeirões. E por agarrados aos cadeirões refiro-me aos dois lados do par dançante…

Só se vierem de fora arrancá-los de lá…