Domingo, 19 de Setembro, 2010


Tle Black Keys, Same Old Thing

Na ilha do Corvo.

Recolha do Calimero Sousa.

As novas escolas só não têm terra para jogar ao berlinde

Foi o polémico fecho das escolas do 1.º ciclo que ditou a transferência de milhares de alunos para os novos centros. Um processo que sobressaltou pais, indignou autarcas e ateou críticas ao poder central, por despovoar as aldeias e levar as crianças para longe de casa, onde passam todo o dia. Mas que, salvo críticas pontuais, se foi pacificando assim que as rotinas se instalaram. O DN foi conhecer três centros, dois em Trás-os-Montes (Freixo de Espada à Cinta e Carrazeda de Ansiães) e um em Pombal

Ao menos os cómicos que levem algo a sério:

Comediante Jon Stewart promove “Marcha para restaurar o bom senso”

E joga o Roberto, o que pode querer dizer que hoje até o Postiga tem boas chances de marcar desde que remate na direcção da baliza.

… se é de quem tem (de)formação em História achar pouca novidade em algumas novidades do momento.

Não é de agora que esta conversa toda sobre o papel do Estado na economia e na sociedade, as suas funções e a necessidade de contratualizar parcerias com os privados em algumas áreas me causa alguma familiaridade com o fenómeno quinhentista da venalidade dos ofícios, que teve especial crescimento quando a crise financeira atingiu a Coroa portuguesa e depois a ibérica, quando do domínio filipino. No Estrolábio, Fernando Pereira Marques já aflorou o tema há uns tempos, mas remontando, acho eu que indevidamente, este processo à Idade Média. talvez por pensar mais no caso da Igreja Católica.

Vou resumir a coisa para leigos, pelo que espero que não me apareça por aí um erudito a clamar contra o meu amadorismo: perante o descalabro das Finanças Públicas da época, devido ao rendimento decrescente das receitas das especiarias vindas da índia, à necessidade de pagar os empréstimos externos contraídos para financiar as armadas da Carreira da índia (não sei se até aqui ainda não vos começaram a tocar uns sininhos…) e ao aumento das despesas devido ao envolvimento em conflitos externos, a Coroa portuguesa, como outras, recorreu a uma estratégia para antecipar receitas, vendendo por um determinado espaço de tempo o exercício de alguns ofícios a privados, por exemplo ao nível da recolha de impostos e diversos direitos régios.

Desta forma, a Coroa recebia adiantadamente um conjunto de receitas, transferindo teoricamente o risco para os privados que compravam os ofícios e que tanto podiam perder como ganhar com o negócio, conforme a sua capacidade de recolher os ditos impostos.

Como devem calcular – e longe de mim afirmar que a História se repete, pois apenas estou a anotar afinidades singulares – os privados faziam tudo por maximizar o investimento, provocando a ira e revolta de grande parte das populações, ao mesmo tempo que, gradualmente, a própria Coroa se desligava do chamado país real.

Felizmente as coisas acabaram mal naquele tempo porque, em certa medida e mesmo que indirectamente, esta prática esteve na origem de diversas revoltas populares que conduziram ao ambiente que desaguou na Restauração.

Lições para os dias de hoje ou moral da História ao vosso critério.

Anexos: Ler este artigo, ou este, só para melhor contextualizar. E já agora esta breve introdução ao debate histórico sobre o tema e a sua relação com a construção do Estado Moderno em França.

Ainda devida a Umberto Eco. Eu acho que tenho o livrinho A Biblioteca por aí, mas deve andar meio submerso, pelo que recolho aqui e aqui a deliciosa reflexão Como organizar uma Biblioteca Pública.

a) Os catálogos devem estar divididos ao máximo: deve proceder-se com muito cuidado à separação do catálogo dos livros do catálogo das revistas, e à deste em relação àquele por temas, assim como à separação dos livros de aquisição recente dos livros de aquisição mais antiga. Se possível, a ortografia nos dois catálogos (antigos e recentes) deve ser diferente; por exemplo, nas aquisições recentes, farmacologia deve vir com f, e nas antigas com ph; Tcheco-Eslováquia deve vir com T nas aquisições recentes, e nas antigas sem T: Checo-Eslováquia.

b) Os temas devem ser decididos pelo bibliotecário. Os livros não devem incluir no cólofon nenhuma indicação referente aos temas nos quais deve ser catalogados.

c) As cotas devem ser intranscritíveis, e se possível em grande quantidade, de modo a que o leitor que preencher a ficha nunca tenha espaço para escrever a última denominação e a considere irrelevante, para que em seguida o funcionário lhe possa devolver a ficha para a preencher novamente.

d) O espaço de tempo decorrido entre o pedido e a entrega do livro deve ser muito longo.

e) Não se deve dar mais de um livro de cada vez.

f) Os livros entregues pelo funcionário por terem sido previamente requisitados, não podem ser levados para a sala de consulta, isto é, há que dividir a própria vida em dois aspectos fundamentais, um para a leitura e outro para a consulta. A biblioteca deve desencorajar a leitura cruzada de vários livros porque provoca estrabismo.

g) Deve existir, de preferência, uma ausência total de máquinas fotocopiadoras; no entanto, se houver alguma, o acesso a ela deve ser muito demorado e cansativo, os preços superiores aos da livraria e os limites de cópias reduzidos a não mais de duas ou três páginas.

h) O bibliotecário deve considerar o leitor como um inimigo, um vadio (senão estaria a trabalhar), um ladrão potencial.

i) Quase todo o pessoal deve ser afectado por limitações de ordem física. Trata-se de uma questão muito delicada, em relação à qual não pretendo criar nenhuma ironia. É um dever da sociedade dar possibilidades e saídas profissionais a todos os cidadãos, mesmo àqueles que não estiverem na força da idade ou no auge das suas condições físicas. Há bibliotecas (…) onde a máxima atenção é dispensada aos utentes deficientes: planos inclinados, casas de banho especializadas, ao ponto de tornarem perigosa a vida aos outros, que escorregam nos planos inclinados. (…)

j) O departamento consultivo deve ser inatingível.

k) O empréstimo de livros deve ser desencorajado.

l) O empréstimo de livros entre bibliotecas deve ser impossível e, em todo o caso, levar meses. O melhor, no entanto, é garantir a impossibilidade de conhecer aquilo que há nas outras bibliotecas.

m) Em consequência de tudo isto, os furtos devem ser facílimos.

n) Os horários devem coincidir absolutamente com os horários de trabalho, devendo preventivamente ser discutidos com os sindicatos: encerramento total aos Sábados, aos Domingos, à noite e à hora das refeições. O maior inimigo da biblioteca é o estudante-trabalhador; o seu maior amigo é Don Ferrante, alguém que tem a sua biblioteca pessoal, que não precisa, portanto, de ir à biblioteca e que, quando morre, a deixa em herança.

o) Não deve ser possível restaurar as forças dentro da biblioteca, de maneira nenhuma e, seja como for, também não deve ser possível restaurá-las fora da biblioteca sem primeiro se terem depositado todos os livros requisitados, a fim de terem de ser novamente requisitados depois de se ter tomado um café.

p) Não deve ser possível encontrar o mesmo livro no dia seguinte.

q) Não deve ser possível saber quem levou emprestado o livro que falta.

r) De preferência, nada de sanitários.

s) E para terminar coloquei também um requisito: o ideal seria que o utente não pudesse entrar na biblioteca; admitindo que entre , no usufruto caprichoso e antipático de um direito que lhe foi concedido com base nos princípios de oitenta e nove (revolução francesa) mas que, todavia, não foi ainda assimilado pela sensibilidade colectiva, em todo o caso não deve, nem deverá nunca, à excepção das rápidas travessias da sala de leitura, ter acesso aos penetrais das estantes.

Porque estou cansado da mesma pergunta mesmo se tenho muito, mas mesmo muito, menos, livros. A citação vem na língua original (recolhida aqui), porque os dias não estão para transcrever páginas de livros inteiras quanto temos o Google. Já agora, quem apenas fez Inglês Técnico pode perder algum prazer na leitura. O meu, aquele que aprendi em escola pública de subúrbio há 30 anos, chega e sobra para me deliciar.

The writer Umberto Eco belongs to that small class of scholars who are encyclopedic, insightful, and nondull. He is the owner of a large personal library (containing thirty thousand books), and separates visitors into two categories: those who react with “Wow! Signore, professore dottore Eco, what a library you have ! How many of these books have you read?” and the others – a very small minority – who get the point that a private library is not an ego-boosting appendage but a research tool. Read books are far less valuable than unread ones. The library should contain as much of what you don’t know as your financial means, mortgage rates and the currently tight real-estate market allows you to put there. You will accumulate more knowledge and more books as you grow older, and the growing number of unread books on the shelves will look at you menancingly. Indeed, the more you know, the larger the rows of unread books. LEt us call this collection of unread books an antilibrary.

Enquanto o orçamento aguentar…

Porque a delírios oníricos feelgood (versão psicologizante do descolamento socrático da realidade) como a crónica de hoje em que, pelo que me conta a Reb que ainda o lê, apela à psicologia positiva e à alegria pela entrada de massas de novos alunos na Universidade, apelidando de infelizes aqueles que criticam o que temos, há que reagir com o realismo da ficção.

Da colectânea de textos breves The Tent (2006, pp. 17-19), destaquei a parte fundamental, mas o final é bem mais perverso e divertido ainda…

Encouraging the Young

I have decided to encourage the young. Once I wouldn’t have done this, but now I have nothing to lose. The young are not my rivals. Fish are not the rivals of stones.

So I will encourage them open-handedly, I will encourage them en masse. I’ll fling encouragement over them like rice at a wedding. They are the young, a collective noun, like the electorate. I’ll encourage them indiscriminately, whether they deserve it or not. Anyway, I can’t tell them apart.

So I will stand cheering generally, like a blind person at a football game: noise is what is required, waves of it, invigorating yelps to inspire them to greater efforts, and who cares on what side and to what ends?

I don’t mean the very young, those who can still display their midriffs without attracting derision. Boredom’s their armour: to them I’m a voice balloon with nothing in it.

No, it’s the newly conscious young I mean, the ones with ambition and fresh diffidence, those who’ve learned the hard way that reach exceeds grasp nine times out of ten. How disappointed they are! And if and when they succeed for the first time, how anxious it makes them! They develop insomnia, or claustrophobia, or bulemia, or fear of heights. Now they will have to live up to themselves. Bummer.

Here I am, happy to help! I’ll pass round the encouragement, a cookie’s worth for each. There you are, young! What is a big, stupid, clumsy mess like the one you just made — let me rephrase that — what is an understandable human error, but a learning experience? Try again! Follow your dream! You can do it!

What a fine and shining person I am, so much kinder than when I’d just finished being young myself. I was severe then; my standards were exacting. The young — I felt — were allowed to get away with far too much, as I had been. But now I’m generosity itself. Affably I smile and dole.

On second thought, my motives are less pure than they appear. They are murkier. They are lurkier. I catch sight of myself, in that inward eye that is not always the bliss of solitude, and I see that I am dubious. I scuttle from bush to bush, at the edge of the dark woods, peering out. Yoo hoo! Young! Over here! I call, beckoning with my increasingly knobbly forefinger. That’s it. Now here’s a lavish gingerbread house, decorated with your name in lights. Wouldn’t you like to walk into it, claim it as your own, stuff your face on sugary fame? Of course you would!

I won’t fatten them in cages, though. I won’t ply them with poisoned fruit items. I won’t change them into clockwork images or talking shadows. I won’t drain out their life’s blood. They can do all those things for themselves.

Embora as opiniões nesta peça sejam limitadas, como é natural.

O que define o Estado social?

E há uma questão complementar, quiçá anterior a esta: que papel queremos para o Estado? O mínimo dos primórdios modernos (defesa, segurança, justiça, fisco para financiar as funções anteriores), o modelo liberal oitocentista (em que o Estado estende a sua acção à promoçáo do desenvolvimento económico e começa a providenciar redes de serviços sociais como o ensino?) ou o do pós-guerra europeu (o tal Estado Social alargado aos serviços de Saúde, Segurança Social)?

Cartoon de Mike Keefe