Terça-feira, 10 de Agosto, 2010


Há um par de semanas, Helen Mirren explicava ao Jon Stewart no Daily Show como tinha sido sondada para receber o título honorífico de Dame, honraria inesperada em alguém com percurso muito liberal no cinema e televisão.

Explicou ela que uma certa manhã lhe telefonaram e, com voz muito delicada e selecta, lhe perguntaram: Se lhe quisessem atribuir o título de Dame aceitaria?

Ou seja, não a estavam a convidar, mas meramente a sondar para, em caso de dúvidas ou recusa, nunca poder ser confirmado o convite. Mas, claro, o(a) sondado(a), mesmo não aceitando logo, ficará sempre com aquela sensação de…

Para que conste – e caso alguém não saiba – ela aceitou.

Não será já tempo – e esta nem é uma crítica nova – para que quem está sempre contra tudo, seja quando chove, seja quando faz sol, dizer claramente ao que vem e o que propõe?

Com as minhas muitas limitações e sem grande preocupação até com a popularidade de algumas, fui fazendo ao longo do tempo propostas sobre a estrutura da carreira, modelo de avaliação, organização do currículo, etc. Podem ser lacunares, conterem equívocos e não servirem para nada, mas ainda as fiz.

Só que isso não acontece com muita gente que sabemos apenas estar, todos os dias ou todas as semanas, contra o que há, o que houve e o que haverá. Mas não sabemos uma linha sobre aquilo em que acreditam verdadeiramente, se é que acreditam em algo que possa ser escrutinado e debatido, sem ser em termos muito vagos. Ou então – se fizermos um pouco de arqueologia bibliográfica, quando isso não é quase impossível – percebemos que antes de estarem contra já estiveram a favor de boa parte daquilo que estão contra. Nestes últimos anos, num esforço interessante, alguns sindicatos (Fenprof, FNE, SINDEP, SPLIU, ANP) e alguns movimentos (em particular a APEDE e o MEP), assim como um ou outro analista da situação (o Nuno Crato, por exemplo) apresentarem propostas próprias, mais ou menos amplas, para alguns aspectos das políticas de que discordam. Podemos não concordar com as soluções, mas temos algo para analisar e discutir.

Mas há organizações e personalidades, uns mais próximos e outros mais distantes da insatifação global dos docentes, que se limitaram a cavalgar a onda e, apesar de imensa sabedoria e ainda mais informação, nada disseram sobre aquilo que defendem ou então fizeram proposições com tal amplitude qu tudo cabe dentro do cesto, menos aquilo que dizem estar mal. Ou então têm propostas do tempo de não-sei-quando, quando os horizontes eram outros.

E eu acho que, em altura de algum remanso estival, dedicarem-se um pouco a pensar, coisa ligeira que não canse muito, para depois, a partir de Setembro falarem ou escreverem (diaria ou semanalmente) sobre aquilo em que acreditam serem as soluções e não apenas dizerem mal porque isso é muito popular, ou então mudarem de opinião conforme a amizade pessoal que liga essas pessoas a outras pessoas.

Para que seja possível percebermos que modelos defende quem e não apenas contra o que estão.

No Diário Económico:

A diferença entre o processo disciplinar e uma cultura de disciplina
Quando uma aluna que ameaça a professora por esta lhe ter tirado o telemóvel durante uma aula se transforma numa estrela na internet ou quando, noutro vídeo amplificado pela rede, um aluno aponta uma arma de plástico à cabeça de outra professora, o que devemos esperar? Que a escola actue e puna os infractores. Segundo o DN, 17 mil alunos foram alvo de processos disciplinares no último ano lectivo, mais 15% do que no ano anterior. Há duas maneiras de olhar para estes números. Como o Ministério da Educação que desvaloriza as ocorrências e diz que as escolas estão mais atentas à indisciplina dos alunos; ou como os sindicatos de professores que os atribuem à perda de autoridade dos docentes e à sua incapacidade para restabelecer a autoridade na sala de aulas. Interpor processos disciplinares, com sanções quase sempre irrelevantes, é fácil. O que são, afinal, três ou quatro dias de suspensão, comparados com a fama que os vídeos na internet e a sua amplificação pelos media proporcionam? Mais exigente é criar uma cultura de disciplina que começa em casa e se replica na escola.

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