Quarta-feira, 4 de Agosto, 2010


Linkin Park, Leave Out All the Rest

When my time comes
Forget the wrong that I’ve done
Help me leave behind some
Reasons to be missed

And don’t resent me
And when you’re feeling empty
Keep me in your memory

Leave out all the rest
Leave out all the rest

E quem é que há cerca de 20 anos já aparecia a atacar o sistema de avaliação existente de uma escola que ele designava como «precocemente selectiva e rejeitante»?

Valter Lemos, é bom de ver, então professor coordenador da ESE de Castelo Branco.

O naco que se segue fez parte de uma conferência feita em Março de 1992, com o patrocínio do Instituto de Inovação Educacional, e publicado na obra que atrás já citei. Serve para demonstrar que, no fundo, andamos à volta do mesmo há demasiado tempo e que seria de esperar que, quase 20 anos depois, as pessoas fossem capazes de admitir que têm trilhado o caminho errado. Porque são sempre os mesmos a mandar e a legislar. E são eles os conservadores, não quem quer mudar a forma como as coisas têm sido feitas:

O ciclo de escolaridade passa a ser a unidade definidora da progressão ou retenção dos alunos. A retenção (para repetência) nos anos intermédios do ciclo é medida excepcional, a utilizar somente quando os professores tiverem dados seguros de que as aquisições do aluno são tão insuficientes que não são passíveis de recuperação até ao final do respectivo ciclo, através de medidas de compensação.

Tal permite, finalmente, a valorização da avaliação formativa como central na regulação do progresso do aluno, colocando também a avaliação sumativa na devida forma e momento. Assim, a avaliação formativa deixa de ser uma sucessiva ultrapassagem de testes de natureza sumativa designados por formativos e a avaliação sumativa passa a ser o prolongamento natural da formativa através da utilização por esta recolhida e da valorização real dos percursos do aluno ao longo de um ciclo.

(…) O novo sistema cria condições de desenvolvimento de uma filosofia educativa e uma mentalidade geral mais orientada para a necessidade do sucesso educativo para todos (pp. 178-179).

Isto foi há 18 anos!!! Foi há 18 anos que isto começou a ser inculcado no sistema de ensino e na formação de professores. E, no entanto, 18 anos depois continuamos a discutir a necessidade de colocar isto em prática?

Mas andamos a brincar?

Não era altura de algumas pessoas passarem a si mesmo um diploma das Novas Oportunidades em incompetência evidente? O que será necessário para perceberem que estavam errados então e continuam errados agora na forma como tentaram implementar estas políticas sem a devida contextualização à nossa realidade?

Porque, ao contrário do que afirmou Isabel Alçada, não são os críticos destas medidas que não querem mudar, que estão agarrados a ideias feitas. Ao fim de 20 anos, os conservadores e inertes são os que pararam no tempo e há décadas repetem o mesmo, legislam o mesmo e ainda têm o desplante de dizer que é preciso fazer aquilo que já é feito há tempos e tempos.

Porque acham que não resultou? Porque estava profundamente certo? Porque era possível recuperar de um atraso imenso com medidas de final de trajecto?

Esta obra, que sumariava e contextualizava a reforma curricular em decurso no início dos anos 90, é um repositório excelente de tudo aquilo que tem marcado os últimos 20 anos na nossa Educação no que se refere à Pedagogia do Sucesso e a todas as experimentações pedagógicas desenvolvidas desde então, a primeira das quais foi a Área-Escola, mãe de todas as ACND.

A cargo de Bartolomeu Valente, esteve o texto de apresentação da Área-Escola como «projecto pedagógico a partir da escola e da sala de aula» (p. 25).

Vamos ler?

Vamos, pois, mas sempre imbuídos de afectos!

A Área-Escola pretende implementar a animação cultural como campo privilegiado para a formação pessoal e social de cada educando, tudo assente nas motivações de cada um, geradoras de valores, a implementar mormente através de projectos. Escolhemos três aspectos em que tal fito se pode ir optimizando, de acordo com as nossas melhores práticas docentes:

  1. – o sentido antropológico do projecto e a motivação;
  2. – o primeiro nível dos projectos em cada fase etária
  3. – o desenvolvimento de projectos, a interdisciplinaridade e a animação cultural – a Escola-Projecto.

1. O sentido antropológico do projecto e a motivação

Toda a pessoa é, no fundo, um grande sonho-motivação, para cuja consecução dispõe de potencialidades, com as quais busca a sua realização, rumo a uma plenitude inatingível mas indefinidamente aproximável. Ora, este desvelamento do Eu só pode fazer-se através do Tu e ocorre sempre rumos a um Nós em que todos seríamos um ideal de infinitude para onde sempre vamos caminhando, sem jamais o consumarmos. Tudo aponta para que, em frase-limite, tenhamos que afirmar, ser é amar.

Até se me correm as lágrimas, ainda hoje…

Se sobrevivemos a isto – os que sobreviveram sem um ataque fatal de hiperglicémia afectiva – aguentamos tudo. Aliás, só esta capacidade de endurance à lamechice explica que tenhamos conseguido sobreviver à aridez oposta do discurso rodriguista, mesmo se com os mesmos objectivos.

Demasiado adulto. Por vezes falta a pura fruição infantil. É a minha opinião e olhem que eu sou fanático destes filmes… Agora tenho de ir ver o Shrek

Há estudos sobre a evolução da literacia na Europa. Este nem é muito novo, pois já o comprei há coisa de uma década. Mas tem diversos quadros muito interessantes. O que se segue é um deles (p. 20 do livrinho cuja capa inclui no fim do post, só para quem quiser confirmar). Como se sabe, em Portugal por esta altura, a alfabetização era inferior a 25%. Tomem lá atenção aos valores da literacia (que não corresponde bem ao mesmo de alfabetização, mas antes correspondesse, pois para Portugal nem há números fiáveis) e vejam lá se entendem a ligeiríssima diferença sobre o estado de desenvolvimento educacional de alguns países há 120 anos:

Da esquerda para a direita, estão destacados a Grã-Bretanha, a Dinamarca, a Suécia e Portugal (com a seta inferior). Dá para encaixar que em 1890 aqueles países já tinham ultrapassado os 90% de literacia, quando nós mal descolávamos dos 20%?

Acham que esses países atingiram esses níveis dizendo aos alunos ide à escola que todos passam e daqui a 100 anos fazemos um brilharete nos testes PISA?

Haja paciência.

Espero que quem escreveu o naco que se segue em Fevereiro de 2002 tenha mudado, convictamente, de ideias:

O problema não está na existência de maus professores. Está na inexistência de motivos para que sejam bons. O modelo de gestão seguido é burocrático e apenas conseguiu aumentar taxas de escolarização: 70% no pré-escolar, 90% no básico e 60% no secundário. É pouco para 28 anos de regime e foi conseguido a custos reconhecidamente exagerados. É inadequado para o contexto global em que entrámos.

O chamado modelo de mercado não me aquece a alma, não está isento de muitos inconvenientes nem é panaceia para todos os males. Mas é o mais adequado ao contexto em que vivemos. O ensino é hoje um bem económico a gerir segundo as mesmas regras de análise custo-benefício que se aplicam para avaliar a prestação de qualquer outro serviço que o cidadão pague. Não é possível continuar a aumentar o esforço civil de financiamento do ensino sem um retorno evidenciado por resultados. É imperioso criar condições para que cresça o financiamento privado, assente no primado da interacção entre os utentes e os prestadores do serviço.
E que pensam, um e outro, sobre a gestão das escolas? Continua a farsa eleitoral?
Vão manter o arremedo de descentralização, responsável por um incomportável disparo de custos e aparecimento de múltiplos corporativismos, cujos interesses se sobrepõem aos dos utentes?

Como pensam resolver os milhares de “horários zero” que sorvem, improdutivamente, os dinheiros dos meus impostos?

… a divulgação que faz, na sua crónica de hoje no Público, dos dados aqui divulgados nos últimos dias sobre os sistemas de ensino do norte da Europa.

Mas só porque cita directamente quadros e dados de tabelas aqui usados é que eu sei que são os que levei 2-3 dias a pesquisar, pois esqueceu-se de uma gentil referência à origem da informação recolhida, preferindo remeter para os documentos de origem.

Claro que poderá ter sido ele a encontrar as mesmas coisas, nas mesmas páginas, dos mesmos documentos, porque quem sabe pesquisar certamente lá chega. Possível, é. Provável, nem por isso. Credível, não.

Em especial porque no último parágrafo remete para dados da OCDE, quando o quadro que eu usei (tendo como fonte a OCDE) é de um documento do ME dinamarquês, o que revela que a preguiça imperou.

Lamento que isto tenha acontecido. Por uma questão de mera civilidade. E, claro, pode sempre usar o argumento da outra, da distracção… de ter sido necessário cortar umas dezenas ou centenas de caracteres…

Está calor… o que me tira a paciência para certas e determinadas habilidades… de aves que se aproveitam dos ninhos alheios.

Adenda:

O caso dos CEF – Cursos de Educação e Formação – é sintomático da forma como este Governo (porque o mais recente despacho vem do Ministério do Trabalho, pela mão do sempre desejado Valter Lemos, e não apenas do da Educação) tem lidado com as questões da Formação e Educação.

Relembremos que o funcionamento destes cursos foi fomentado como uma via profissionalizantes, destinada a integrar principalmente – não vale a pena negá-lo – jovens com percursos escolares problemáticos. Para isso foram permitidas diversas liberdades curriculares a estes cursos, embora sempre com um apertado controle no seu funcionamento. Sabendo-se que as turmas resultantes são complicadas e que manter em funcionamento um CEF – com a consequente busca de estágios, tratamento de imensos problemas de índole disciplinar, etc – é algo diferente de um turma regular, permitiu-se que as turmas funcionassem a partir dos 10 alunos e os Coordenadores dos Cursos e Directores de Turma passaram a ter um crédito horário específico.

Para encorajar – ou forçar – a difusão dos CEF, não se esqueceram de incluir na avaliação dos órgãos de gestão, um parâmetro em que a existência e variedade de CEF beneficiava muito essa mesma avaliação.

A seguir, para a opinião pública, exibiram-se números variados do sucesso nas turmas CEF, de adesão a esta via e mais uma série de coisas apresentadas para serem tidas como muito boas.

Eis quando, no alegado  Paraíso, cai a patorra do senhor de sempre e, por despacho (que o homem só conhece este tipo de documento), alteram-se a um mês do arranque do novo ano lectivo as regras de funcionamento dos cursos, quando já tudo estava preparado e encaminhado: menos horas para os directores de turma, fim da redução para as reuniões periódicas dos conselhos de turma, aumento em 50% do limite mínimo de alunos para funcionar cada curso e, pior, indicação para agrupar turmas em disciplinas com conteúdos similares (o que pode levar a turmas com mais de 30 alunos com perfil problemático na sala de aula).

A partir de Setembro, as escolas do ensino básico e secundário só poderão ter em funcionamento turmas de Cursos de Educação e Formação (CEF) para Jovens se estas tiverem no mínimo 15 alunos. Até agora, o limiar mínimo para o funcionamento destas turmas era de 10, mas várias estavam abaixo deste patamar.

Esta mudança foi decretada por um despacho datado do final de Julho e assinado pelo agora secretário de Estado do Emprego e da Formação Profissional, Valter Lemos, e pela ministra da Educação, Isabel Alçada. O diploma, que está agora a chegar às escolas por e-mail, justifica a alteração com a necessidade de “melhorar os factores de integração e acompanhamento” dos alunos que frequentam aqueles cursos. Turmas ou cursos com menos de 15 alunos só poderão funcionar se forem autorizados, “excepcionalmente”, pelas direcções regionais de Educação.

Ou seja, na prática, isto seria um convite ás escolas para reduzirem ou anularem a oferta de CEF, caso a avaliação das direcções não passasse por aí. O resultado: pressão para busca de mais alunos para os CEF (ou então rdução das turmas em funcionamento) e os convites para coordenar e leccionar estes cursos a tornarem-se mais ordens do que outra coisa.

Para além de que todo o trabalho de preparação das turmas feito necessariamente em Maio (selecção de alunos, autorização dos pais, definição de Conselhos de Turma, etc) cai por terra já à entrada de Agosto.

Os comentários que esta situação exigiria para ser devidamente expresso o estado de espírito e muitos colegas meus, conteriam necessariamente muito vernáculo. Mas acho que o destinatário mereceria isso e muito mais, para além de que não será coisa que lhe seja estranha.