É lançado hoje o livro em que Maria de Lurdes Rodrigues assume em nome pessoal o legado do seu mandato à frente do Ministério da Educação. Que me lembre é a primeira titular do cargo que o faz nestes moldes (Marçal Grilo usou uma forma diferente), o que demonstra orgulho na obra feita e uma vontade de se auto-justificar menos de um ano depois e deixar o cargo.

Contra imensas opiniões eu vou comprar o livro o mais depressa que seja possível (embora o preço seja um pouco abusador…) porque gosto de ficção histórica, em especial quando aloujada em números, gráficos e outros materiais que tornam ainda mais credível a parte ficcionada. 331 páginas com 26 capítulos, sendo o último dedicado ao programa Novas Oportunidades é algo claramente imperdível.

Se me deixar(ss)em, gostaria até de ir ao lançamento, pois não é raro almoçar ali pelo Atrium Saldanha. Só espero que a presença de imensas notabilidades não tornem impossível aceder ao espaço.

À laia de prolegómeno à leitura, eu gostaria de, brevemente, deixar aqui uma visão simples do mandato de Maria de Lurdes Rodrigues, que não consigo dividir bem em prós & contras, mas quase…

Digamos que, em termos holísticos, de 2005 a 2009 a Educação em Portugal caminhou, à semelhança do país, para uma situação de dissociação entre a realidade e a sua representação. Ou seja, foram sendo construídos indicadores aparentemente muito interessantes que, contudo, não correspondem a diferenças (no sentido de melhorias) fundamentais no funcionamento do sistema.

Mas não me incomoda apresentar a coisa em termos de conquistas:

  • Uma  grande conquista, numa lógica de terceiro-mundismo, foi a da Escola a Tempo Inteiro que tornou o sistema público de ensino um imenso jardim de infância e adolescência para crianças e jovens com famílias obrigadas a trabalhar em condições cada vez mais precárias e com horários desregulados. Na prática, professores e educadores tornaram-se uma das últimas cascas de uma cebola, em que ficam a tomar conta dos filhos alheios enquanto os pais trabalham, sendo que os seus próprios filhos ficam à sua espera, entregues a serviços de ATL em funcionamento até aos limites do razoável.
  • Uma outra conquista foi a arrumação dos alunos que antes apresentavam maiores níveis de insucesso em vias alternativas de progressão, com requisitos cada vez mais baixos para os próprios alunos e maiores entraves à verificação efectiva das suas aprendizagens. As vias CEF e EFA – como as Novas Oportunidades – são uma mistificação estatística porque, no terreno, muitos destes cursos de carácter profissionalizante não levam os alunos a uma transição mais eficaz para o mundo do trabalho, apenas servem para os certificar

oficialmente, sem que isso seja levado a sério pelos potenciais empregadores.

  • A maior conquista terá sido, talvez, o esforço por quebrar a solidariedade interna da classe docente, vista desde cedo com um dos entraves à política de produção estatística do sucesso, introduzindo diversos mecanismos geradores de conflitualidade e atrito, desde a divisão da carreira até a um novo modelo de gestão que – como agora se nota – fracturou de modo quase irremediável os laços de companheirismo e as práticas de cooperação e democracia nas escolas. Este esforço, aliado às medidas de redução dos custos salariais com o pessoal docente, terá sido mesmo o que mais ocupou pessoalmente Maria de Lurdes Rodrigues, desde a encomenda do estudo para a reconfiguaração da profissão docente ao seu anterior mentor João Freire até ao final (penoso) do mandato, em que foi sacrificada ao vivo na televisão por José Sócrates em período pré-eleitoral (embora posteriormente recompensada com generosidade com a presidência da FLAD), passando por aquela memorável tirada de ter ganho a opinião pública (que ela confundiu com o seu parceiro preferencial de negociações Albino Almeida e uma mão-cheia de articulistas de serviço na imprensa).
  • Ainda instrumental foi a conquista de ganhos fantásticos em termos de sucesso em alguns exames – caso de Matemática – até ao ano de 2008, quando a construção estatística do sucesso foi esticada ao máximo da razoabilidade, algo que nos anos seguintes se veio a perceber ser incomportável manter. Tudo isto beneficiando da ausência de resultados internacionais do PISA, o que impediu confrontar os ganhos de tipo interno com o desempenho comparativo externo.

Eu sei que houve muitos mais conquistas, que chegaram a ser apresentadas 50 num único ano. No livro devem ser, num cálculo por baixo, mais de 100. A maior parte delas, a médio prazo, se revelarão tão erróneas como as de muitos dos seus antecessores. Mas isso, infelizmente, só a História o demonstrará.

Sejamos justos: Maria de Lurdes Rodrigues ficará, nem que seja pela longevidade e polémica, na história da Educação portuguesa, assim como ficaram muitos outros políticos do passado que encetaram grandes reformas e revoluções, anunciadas com parangonas e apoiadas no seu tempo (e na sua escala) por grande parafernália mediática, sem que – décadas depois e em perspectiva – o balanço tenha sido mais do que um mero tremor.

Que Maria de Lurdes Rodrigues deixe um livro como testemunho da sua obra é bom, excelente mesmo. Porque se tornará muito mais fácil analisar o período que ainda estamos a viver e ter alguém que assume o que (des)fez.