DEIXEI DE ACREDITAR

Raramente escrevo na primeira pessoa do singular, a não ser que me pareça que o conteúdo possa ter um especial interesse para partilhar com outros. Ora, julgo que é o caso.

Sou professor de artes visuais no 3.º Ciclo do Básico e no Secundário há mais de vinte anos. Por norma, crio um bom relacionamento com os alunos e entendo-me bem com os colegas. De qualquer modo, de há uns anos a esta parte, sentia uma grande necessidade de me afastar do Ensino e do ambiente meio esquizofrénico que se vive nas escolas. Estava saturado e desmotivado, sobretudo devido ao desrespeito a que o actual primeiro-ministro e seu séquito votaram os professores. Deixei de acreditar no Ensino.

Pensei recorrer a atestados médicos mas não o fiz. Apesar de tudo, não me sentia incapaz de dar aulas. Para ficar de consciência tranquila comigo mesmo, recorri a uma licença sem vencimento, que decorre no presente ano lectivo. Estou a dedicá-la essencialmente a duas das minhas paixões, que são escrever e pintar, e descobri que a licença está a ser sobretudo um investimento no meu bem-estar e na minha saúde. Por esse prisma, não lamento o dinheiro que não ganhei, nem o tempo perdido para efeitos de aposentação. Olho sobretudo os ganhos.

Tenho estado afastado do Ensino e das notícias a ele relativas. De um modo geral, não me interessei por debates nem reuniões, nem pelo que a ministra disse mas já não diz, nem pela saída de um decreto que vai substituir o anterior que provavelmente será ainda substituído por outro, nem pelo que dizem os movimentos de professores, nem pelo que não fazem os sindicatos, nem por greves e seus motivos, etc. Limitei-me a apanhar uma notícia aqui, outra acolá, e a ouvir uma ou outra informação dada por algum colega.

Este ano de paragem não me fez voltar a acreditar no Ensino. Pelo contrário, reforçou a minha descrença; até porque também não creio que as coisas venham a mudar para melhor. Como posso voltar a acreditar num ensino, onde:

– Os professores são desconsiderados pelos governantes;

– As opiniões dos pais são mais consideradas do que as dos professores;

– Se responsabilizam os professores pelo insucesso dum sistema;

– Se despreza a qualidade em detrimento de falsas estatísticas;

– Se fazem reuniões por tudo e por nada, que duram horas de exaustão;

– As burocracias consomem tanto e tão precioso tempo;

– Os alunos, sobreprotegidos, podem desrespeitar hierarquias;

– Os alunos estão todo o dia na escola, longas horas nas salas de aula;

– Reina o facilitismo e o abandalho;

– Etc., etc., etc.?

Devo regressar à escola em Setembro, não sei se para ficar se para voltar costas definitivamente, caso a minha consciência não me permita aceitar, de todo, aquilo que se passa neste Ensino. Contudo, continuo a querer e a gostar de ensinar, de tal modo que dediquei também parte do tempo desta licença a criar material didáctico.

Entre esse material está um “Manual de Geometria Descritiva”, que pode ser encontrado no meu blogue, em http://antoniogalrinho.wordpress.com/, na página GEOMETRIA. Está em formato PDF, podendo ser copiado, impresso e utilizado de forma gratuita, por professores e por alunos. Para já, estão apenas disponíveis três capítulos, mais cinco estarão antes do arranque do ano lectivo, e os últimos dois até ao final do presente ano civil. Espero que seja útil.

Não quero com esta reflexão desmotivar os colegas que, de forma estóica em muitos casos, continuam a dedicar-se à nobre profissão de ensinar, apesar de tantos serem os ventos e as marés adversas. Por isso, para eles, as últimas palavras são: incentivo, coragem e força.

Abraços

António Galrinho