Desculpem o trocadilho do título, mas não consegui resistir.

Concentremo-nos.

Maria de Lurdes Rodrigues, na sua digressão de ontem pelas páginas do Expresso repetiu o estribilho de os professores quererem ser todos iguais e que qualquer avaliação diferenciadora será sempre mal recebida.

Sobre isso já escrevi, mas gostava de retomar o tema da indiferenciação, por ser algo que para mim se tem vindo a tornar evidente como um ponto axial das políticas do ME deste o anterior mandato.

Significa isto que, tal como eu vejo as coisas – claro que a miopia me pode estar a fazer ver as coisas desfocadas – a maior parte das medidas que o ME e o Governo apresentam como reestruturadoras do sistema educativo mais não são do que medidas destinadas à indiferenciação de todos os agentes e processos envolvidos.

  • Antes de mais os alunos. O culto do sucesso estatístico a todo o preço tem feito com que se torne, em especial até ao 9º ano, pouco motivador um maior esforço por parte dos alunos que percebem que, fazendo um mínimo, conseguem transitar de ano, por ser essa a regra que se pretende impor. E, claro, mesmo com adesão residual, medidas como as de facilitar um exame final do 9º ano a quem nem o 8º conseguiu cumprir, envia uma mensagem muito dúbia a todos aqueles que consideram que deve haver regras claras e mérito num percurso escolar regular. E incentiva a que a maioria se conforme a adoptar um comportamento pouco diferenciado, pois o mesmo não obtém recompensa visível.
  • Em seguida os professores. Se a criação da divisão da carreira entre titulares e zecos pareceu uma medida claramente diferenciadora, a verdade é que a prática revelou que isso tinha apenas objectivos económicos e que o modelo de avaliação que se pretendia impor – alegadamente para recompensar o mérito – mais não era do que uma ferramenta para forçar a uniformização e indiferenciação das práticas pedagógicas. Ao tornar indispensável 100% de aulas dadas para se ser excelente e não um critério de tipo pedagógico, a mensagem foi também desanimadora. Podem ser excelentes, mas se estiverem doentes ou tiverem um qualquer imprevisto acidental, sem forma de o remediar, a excelência já não está acessível. para além disso, a parametrização das classificações levou a uma mistufra estranha entre formatação e arbítrio que levou a maioria dos professores a práticas defensivas no seu quotidiano, o que conduz naturalmente a uma indiferenciação pedagógica em quem adere a um modelo de avaliação com as características do proposto pelo ME.
  • Por fim, a própria organização da gestão escolar com a imposição de um modelo único, de direcção unipessoal. Numa primeira fase foi a imposição do modelo indiferenciador do director e agora o duplo movimento de concentração da rede escolar que, na base  (ao eliminar centenas de escolas e encaixotando centenas de alunos do 1º CE) em centros escolares, e no topo (ao tentar amalgamar em mega-agrupamentos, escolas e agrupamentos com culturas próprias e distintas), fez mais por eliminar qualquer diferenciação pedagógica do que as teorias valterianas do sucesso ou a ameaça de um infantilizador primeiro ciclo de estudos de seis anos.

Porque a relação entre o fecho de escolas do 1º CEB e a amálgama dos mega-agrupamentos, para além dos aspectos económicos, é evidente quando encaramos estes processos sob a luz da indiferenciação e eliminação da variedade na base e no topo das organizações escolares.

O objectivo é reduzir radicalmente as unidades de gestão, mas também os projectos educativos em presença. Aliás, esta é a medida mais obviamente contrária a uma concorrência entre escolas e projectos que foi tomada nas últimas décadas.

O projecto de Escola Pública Modernaça que está subjacente a estas medidas é óbvio: é concentrar ao máximo os decisores intermédios para que o poder central melhor exerça o seu comando, ao mesmo tempo que aumenta a distância entre essas chefias e os agentes que agem quotidianamente no terreno (alunos e professores, assim como pessoal não docente e famílias).

As consequências de mega-agrupar são claras em termos organizacionais: a tutela fica com muito menos interlocutores (directores) com quem lidar, ao mesmo tempo que a relação destes com os seus subordinados n(professores) se torna mais distante, despersonalizada e indiferenciada.

E neste quadro, a eliminação da divisão na carreira – mantendo patamares de estrangulamento na progressão, permitindo manter as poupanças do regime dos titulares – nem sequer é um revés para o ME, o MFinanças e o Governo.

O triunfo da ideologia da amálgama, da indiferenciação, da redução dos agentes educativos a números, médias, rácios, gráficos e fluxogramas começa a ser avassalador.

E é por isso que, contra alguns que pensam qu a minha atitude é excesivamente individualista, eu defendo que a diferença deve começar em cada um de nós, na sua atitude quotidiana e na sua marca como(a) professor(a) e educador(a).

Se a pressão de cima é no sentido de nos tornar – de acordo com uma distorção da ideologia democrática liberal – cada vez mais iguais, para melhor nos governar, a melhor maneira de lhes resistirmos é afirmando a nossa especificidade pessoal e profissional.

Porque – repito-o há alguns anos – a resistência colectiva mais eficaz aos poderes abusivos é a que se consegue através da confluência consciente das atitudes individuais e não da adesão acrítica a um qualquer credo.