E nem sequer é o mais recente. É mesmo o pré-pré-quase tudo. A propósito daquela questão de a organização do espaço ser uma via para alterar as pedagogias tivemos direito a uma revoada daquele discurso fofinho que cresceu que nem fungos em madrugada húmida nos anos 90.

Um dos epígonos – não estou a dizer que foi com maléfica intenção – dessa forma de ver a Escola como se estivessemos ainda nos Liceus dos anos 50 ou 60 e ser necessário transformá-la em modernaça foi, de há 20 anos a esta parte, Daniel Sampaio.

Se houve alguém que fez a ponte de forma pacífica entre o modelo eduicacional cavaquista para o guterrista, conseguindo ainda espaço durante a deriva socrática, foi ele. Isto não é um ataque ad hominem como agora é habitual dizer-se, quando uma paessoa tem a frontalidade de apontar directamente quem acha responsável por alguma coisa (antes queixavam-se que as queixas e remoques eram vagos…).

É uma constatação de facto.

Durante o mandato áspero de Maria de Lurdes Rodrigues, Daniel Sampaio pareceu pender um pouco menos para as teorias desresponsabilizadoras e desculpabilizantes dos alunos em tudo e mais alguma coisa. Percebeu que os professores estavam a ficar deprimidos, sobrecarregados, pressionados, nos limites da sanidade. Fez umas crónicas diferentes, não tanto de inversão do seu discurso, mas de crítica à aspereza dominante.

Mas no fundo, foi só regressar uma forma mais fofinha de tratar discursivamente a Educação com Isabel Alçada e eis que ele está de volta, de novo na plenitude da retórica que deu patine científico-intelectual ao chamado eduquês, que é o tal discurso fofinho em matéria de Educação-

Na Pública de hoje podemos ler, com o pretexto da propaganda da Parque Escolar à nova arquitectura das escolas:

O problema do ambiente não é tudo. De nada servirá um bom espaço, nem será possível colocar as mesas em U, se a turma tiver alunos a mais, como ainda acontece em muitas escolas. Nems e conseguirá aproveitar a nova arquitectura, se o professor mantiver o método expositivo durante 90 minutos, porque ainda ninguém o ajudou a perceber que essa maneira de ensinar não é eficaz: os jovens de hoje concentram-se menos, mas podem fazer várias tarefas ao mesmo tempo.

Poderia transcrever mais uns pedaços, mas a coisa vai no mesmos sentido: o professor não pode ter medo de usar o computador e deve mesmo acompanhar os alunos nos espaços de learning street, «com o aluno a ler ou a comer em esplanadas», deixando de estar «agarrado à sala de aula tradicional e ao velho retroprojector» [sic].

Ora bem, eu acho que Daniel Sampaio deve andar a visitar umas escolas muito anacrónicas. A minha está longe de ser a última moda em tecnologia mas já não há retroprojectores a funcionar.

Aliás, eu próprio não uso um retroprojector há anos. Só falta mesmo DS falar em projectores de slides…

Vamos lá a um reality alert, caro doutor Daniel Sampaio.

Arrisco dizer que não há, nos tempos que correm, nenhum professor que consiga – mesmo que queira – dar uma aula expositiva de 90 minutos. Para além desse método só existir na cabeça e/ou nas práticas de alguns professores da geração do próprio DS, enquistados em certos nichos de Secundárias ditas de elite, a verdade é que a realidade de uma sala de aula actual não permite fazer qualquer exposição que ultrapasse os 5-10 minutos, quiçá 15, em qualquer nível de ensino, sem que se passem muito mais coisas, de forma voluntária ou não.

Ao contrário do que Daniel Sampaio afirma, muitos de nós gostariam de, mesmo com base numa sala de aula tradicional, praticar essa pedagogia liberal em matéria de organização do espaço e do tempo, criar uma sala aberta onde os alunos pudesssem entrar e sair, trabalhando de forma significativa, de acordo com os seus ritmos.

Só que… nem vou pelo caminho de, em termos de comportamentos e atitudes, muitos alunos não estarem prepararados para isso. Vou pelo caminho inverso: ou seja, de com as regras institucionais e organizacionais que temos (criadas pelos burocratas que, em termos teóricos, sempre beberam em DS mas na prática aplicam outra coisa) ser quase impossível fazermos isso sem nos cair o carmo, a trindade, o youtube, o pai albino, os daniésoliveiras e miguéis sousatavares todos em cima.

Exemplifiquemos:

  • Se eu quiser gerir o tempo da minha aula conforme acho pedagogicamente mais rentável – e já me fartei de dizer que os 90 minutos não são vantajosos para muitas disciplinas – sou capaz de levar falta de presença se não extiver dentro da sala entre as 10.00 e as 11.30 ou entre as 15.00 e as 16.30. Porque assim determina a legislação em vigor sobre a duração das aulas e sobre as faltas dos professores. Porque assim determinam os Regulamentos Internos. Porque assim determina o aparato  burocrático-institucional criado por muitos daqueles que, no ME, muito acarinharam certas ideias de Daniel Sampaio, mas não as suas implicações práticas.
  • Se eu quiser gerir o espaço da minha sala de forma aberta, deixando os alunos entrar e sair de acordo com uma gestão mais afectiva da aprendizagem, deixando-os ir buscar um sumo para tornar mais confortável o ambiente ou ir com o computador para o corredor, estou habilitado na maior parte das escolas em meter-me em trabalhos com o órgão de gestão pois não tardariam as queixas sobre a minha insubordinação formal. E em caso de gravação e publicitação dessas práticas inovadoras – já que os alunos podem fazer várias coisas ao mesmo tempo o que os impede enviar os seus filmes para o youtube e tuítarem com os telemóveis? – o que aconteceria a tal docente? Seria publicamente apedrejado como incapaz de gerir uma sala de aula por muitos daqueles que defendem práticas liberais, não-directivas e anti-autoritárias dos professores. Com jeitinho teríamos um Prós & Contras ou um debate na SICN com imensa gente a opinar que aquele(a) professor(a) era o culpado por desacreditar o espaço escolar.

Deixemo-nos de hipocrisias.

Por acaso, por trabalhar com turmas não-regulares, por leccionar num ambiente que compreende as diferenças, até pratico muitas coisas que Daniel Sampaio preconiza. Mas de forma moderada e muitas vezes por minha conta e risco. E não preciso de salas em U, moda ultrapassada, preferindo usar ilhas com grupos de trabalho dedicados cada um à tarefa seleccionada por mim ou escolhida por eles.

Mas, como digo, isto não é possível na maior parte dos casos, para a maior parte dos docentes, sem correrem riscos complicados.

O que Daniel Sampaio parece descompreender, de forma sistemática, é que a escola não está organizada de forma aos docentes serem livres de gerir a sua própria prática pedagógica, excepto se ficarem dentro da sua sala de aula, 90 minutos. Mas nunca com aulas expositivas como DS imagina.

E a responsabilidade não é dos professores.

É dos políticos e burocratas do ME com quem Daniel Sampaio tanto tem colaborado.

O mundo não é o mesmo de outrora.

Não por causa dos computadores ou da arquitectura.

È por causa das pessoas que decidem, do ambiente geral, das práticas quotidianas que DS parece ter abdicado de ver na sua actualidade, sem ser em visitas VIP a uma realidade encenada para certos momentos.

Daniel Sampaio, sem reparar, continua a viver no passado. No seu passado. Não no nosso presente.