FUNCIONÁRIOS-TIPO DE  EMPRESAS ESTATAIS

I – OS ACÁCIOS

Os Acácios não gostam de dar graxa, nem serem escovados. Não elogiam, nem esperam ser elogiados; não roubam as ideias dos outros. Se alguém precisa de ajuda, lá vem um Acácio, sorridente, ajudar. Os Acácios parecem surgir do nada, logo que é necessário. Os Acácios ajudam e não cobram depois. E gostam de ser anónimos; têm um trabalho pouco  interessante, mas não se importam, pois não estão à espera de  um cargo ou função de destaque.

Nos dias em que a empresa faz uma festa para o pessoal, lá está o Acácio à volta do grelhador a fazer o churrasco. Se quer alguém para ajudar, chame um Acácio. Ele vai ajudá-lo e estará consigo o tempo que for necessário. Há quem ache os Acácios uns tipos insignificantes que deixam que os outros se aproveitem do seu trabalho e esforço. Há mesmo quem os aconselhe a serem menos totós. Mas os Acácios não ligam. Continuam firmes, no seu local de trabalho, sem se deixarem distrair com coisas, para eles, de “lana caprina”.

Os Acácios quase nunca faltam ao trabalho. Pensa-se que é porque em casa, não sabem o que hão-de fazer. Cá fora aborrecem-se. Não gostam de ler, nem jogar. Só gostam de trabalhar. E o seu serviço está sempre em dia.

Os  Acácios são  tímidos. Se a sua mulher trabalhar com um Acácio, pode estar descansado que não haverá qualquer assédio da parte dele. É que os Acácios reprimem os desejos mais íntimos , concentrando-se, apenas e só, no  trabalho.

Há, infelizmente, muito poucos Acácios em Portugal, por isso é que o país está como está.

Mas os “não Acácios” até têm razão: se fossem todos Acácios, talvez eles também o fossem, sem problema nenhum.

Se um Acácio for professor pode estar certo que raramente faltará à escola; ajuda os colegas até à exaustão; corrige os testes a tempo e horas; e se lhe perguntam se ganha bem, para o trabalho que faz, ele responde que sim. Porque não se compara com mais ninguém.

II. OS ARMANDOJOSÉS

Os ArmandoJosés são como as varas de marmeleiro: vergam pra todos os lados, especialmente para aquele que lhes dá mais jeito; e  nunca partem!

São muito hábeis na arte da escova. Mas também adoram ser engraxados, mesmo não tendo nada digno de lustro; e se ninguém os elogiar, eles auto-elogiam-se à farta. Ou então, compram quem lhes venda algum elogio.

Os ArmandoJosés estão sempre a roubar as ideias dos outros, jurando a pés juntos que são deles próprios. Se alguém precisa de ajuda, um ArmandoJosé está-se nas tintas; ou então diz-lhe que sim, mas só para a semana que vem… Só que, passa toda a semana, e não aparece. Depois, esquiva-se da pessoa a quem devia ajudar, ou diz que esteve doente…

Quando é necessário para alguma coisa, um ArmandoJosé nunca aparece; quando não faz falta nenhuma, é uma grande carraça.

Para um ArmandoJosé nenhum trabalho é interessante, se não combinar três características fundamentais: muita retribuição, pouco suor, e bastante destaque.

Quando a empresa, onde trabalha, faz uma festa, Armando José chega tarde, traz uma dúzia de amigos , e está sempre a esticar o prato e o copo.

Há quem lhe mande piadas por ser assim, parasita, mas ele não se incomoda, e faz de conta que não é nada com ele.

Um ArmandoJosé não tem horário pra trabalhar. E às vezes fica até às tantas da noite no seu gabinete, com a luz acesa; mas em geral está a dormir, ou a namorar.  Nunca tem o serviço em dia, porque está sempre à espera que algum “Acácio” lho faça.

Os ArmandoJosés são uns fala-barato cheios de lata. Se a sua esposa, ou namorada,  tiver o azar de ser funcionária na empresa de um ArmandoJosé, abra bem esses olhos! Os safados gostam de assediar. E não descansam enquanto  não levam nega da presa. Em termos de sexo os tipos são uns labregos.

Infelizmente, há cada vez mais ArmandoJosés, em Portugal. Por isso o país está como está.

Os ArmandoJosés adoravam que houvesse muitos Acácios. Nisso são como certos heterossexuais quando dizem: “ Ainda bem que há muitos homossexuais, porque as mulheres que seriam pra eles,  sobram  para nós”.

Não há ArmandoJosés na classe dos professores. São quase todos Acácios. E os que não são, coitados, ainda sofrem mais que os Acácios, porque não são uma coisa nem outra. Ou seja, não contam  na sociedade pra coisa nenhuma.

Cunha Ribeiro