Nas últimas semanas parece ter havido um certo tremor entre os utilizadores do Facebook relativamente à política dita de privacidade do site/rede social.

Sinceramente, a atitude de indignação faz-me lembrar a indignação de uma congregação de religiosos por se falar de Deus em público, quando eles andam de porta em porta a espalhar o seu Verbo.

Vamos lá tentar explicar isto devagarinho: o Facebook é uma rede social, online, destinada a fomentar a perda de privacidade ou, em alternativa, em saber apresentá-la de forma controlada. Mas não sejamos ingénuos, os próprios utilizadores é que devem saber que, mesmo com uma política de privacidade draconiana, carregar fotos e pensamentos íntimos para um espaço online é, quase por definição, abdicar de uma boa parte da v(n)ossa reserva de privacidade.

Já lá vão uns anos, um amigo meu reagiu de forma muito violenta e acho que cortou relações comigo (pelo menos nunca mais me falou virtualmente ou in the flesh) quando o critiquei por colocar num site pessoal (ainda não tinham sido inventadas as redes sociais) fotos da ecografia e do seu filho recém-nascido. Entre outros mimos bem menos caridosos, qualificou-me de velho do restelo, anacrónico e bicho do mato. Que ele tinha todo o direito em colocar aquelas fotos online para maior comodidade da sua consulta pelos familiares e que só lá ia dar alguém estranho por acaso (pois…).

Eu respondi-lhe que não era uma questão dos direitos dele, mas de gosto e feitio. Que ele as enviasse por mail ou pelo correio. Não as colocasse de forma desprotegida na net.

Nos tempos que correm, é capaz de ser curioso ler aquilo que me foi escrito. Mas tem a sua razão de ser. Continuo bicho do mato. Quer no hi5, quer no Facebook tenho apenas os dados mais inócuos sobre mim ou aquilo que assumo publicamente sem qualquer reserva. Tenho as opções de chat desactivadas e quanto muito uso o sistema de mensagens pessoais para alguma troca mais privada. Fotos, no Facebook, carreguei quase 300, sendo que apenas numa dezena aparecem pessoas e em eventos públicos e bem públicos. Não apresento fotos de interiores de casas, excepto pilhas de livros.

Pelo que tenho online coisas que assumo como públicas e publicáveis. Outra coisa seria um disparate.

Que exista gente que acha normal colocar fotos de tipo privado ou que não gostem que sejam vistas por milhares de pessoas sem reservas, é lá com elas. Mas acho ridículo que se queixem da administração de um site que fez o seu sucesso exactamente da exposição do que cada um para lá carrega.

Eu vou adicionando “amigos” nem sempre com muita atenção, embora raramente por sugestão de alguém que já tenha sido sugerido por outro alguém. Amigos em 3ª mão são coisa esquisita. Mesmo assim vou a caminho dos 700. Através dessa rede, tivesse eu tempo e paciência, poderia aceder a milhares de galerias de fotos dos amigos desses amigos. Não sei quantos gostariam que eu andasse por lá a espreitar. Mas a verdade é que se expuseram a isso. Também por regra não adiciono como amigos alunos ou ex-alunos (excepto quem já é bem adulto…). Mas no hi5 isso aconteceu num caso e a certo momento percebi que poderia navegar por dezenas de páginas pessoais de jovens em rede que colocam online as coisas mais impensáveis para a sua própria segurança. Aos que conheço já avisei que colocarem fotos dos seus quartos, das suas poses pretensamente provocatórias e outras coisas, é um disparate de que podem vir a arrepender-se.

Nunca me passou pela cabeça que fosse necessário explicar isso a adultos, muito menos gente com habilitações acima da média. Que fazem petições e colocam notícias nos jornais.

Querem reservar a vossa privacidade? Usem o telefone, visitem-se, mandem mails.

Adenda: Apesar do que escrevi, tenho dois minifúndios no Facebook, um aquário e um café muito mal amanhado. Em tempos foi por graça da petiza, mas agora sou eu que dou amanho àquilo tudo e fico fascinado com a forma como algumas pessoas que entraram ao mesmo tempo que eu, ou mesmo depois, e que já estão cinco, dez ou quinze níveis adiante de mim. afinal aquilo é para relaxar ou para stressar?