Domingo, 30 de Maio, 2010


The Strokes, Heart in a Cage

No debate promovido no âmbito do Fórum Educação foi possível ouvir a repetição de alguns argumentos bastante equívocos sobre o passado, presente e possível futuro da situação dos professores e da política em Portugal.

  • Francisco Almeida da Fenprof apresentou como 1º grande resultado da luta dos professores a retirada da maioria absoluta ao PS. Ora bem, se é verdade que, a partir de dado momento, esse foi um objectivo instrumental e de recurso, até ao Verão de 2009 nunca foi isso que mobilizou os professores. Sim, foi um ganho, porque se a maioria absoluta se tivesse renovado a investida sobre a classe docente não seria facilmente parada. Mas também é verdade que foi nos tempos da maioria absoluta que no Parlamento se deram as votações mais renhidas entre maioria e oposição nas questões relativas aos docentes. Nos tempos da maioria relativa, em virtude do serpentear do PSD pela mão do seu inicial líder parlamentar Aguiar Branco, nunca mais foi possível conseguir votações tão renhidas. O que demonstra que nem sempre acontece o que parece mais óbvio. E que as maiorias são muito relativas, mais do que apenas relativas. Dependem dos contextos, dos jogos de interesses e de muitos cálculos que estão para além da simples aritmética.
  • Em algumas intervenções, também do lado sindical, surgiu a acusação (pouco) velada dos movimentos de professores e alguns blogues terem, em dados momentos, assumido uma postura anti-sindical e de enfraquecimento do movimento sindical, ao fragmentarem a posição dos professores. Quanto a isso, para além do meu já antigo argumento (demonstrado pelos factos) de que se tal aconteceu nunca se notou na prática ao nível da mobilização final nos momentos-fortes e críticos, eu diria que os próprios sindicatos, na sua pulverização organizacional, nunca precisaram dos movimentos independentes (nunca mais de uma meia dúzia) para se dividirem.
  • Por último, a velha questão, ligada com a anterior, do paradoxo de existirem recorrentes apelos à mobilização da sociedade civil para lá dos canais organizacionais tradicionais mas depois, perante essa mobilização de uma forma diferente da habitual, se repetirem os gritos de alarme e as críticas a essas mesmas formas de mobilização out of the box quando isso acontece num sentido que perturba os interesses instalados. Gostamos dessa mobilização quando é instrumentalizada no sentido certo. Quando disputa o nosso território, então já não gostamos.

A bola era quase maior do que ele…

listas

Publicado por iniciativa de um grupo de professores da Esc. Secundária D. João II de Setúbal.

Publicação original aqui.

 

– Juro, por minha honra, que cumprirei com lealdade as funções que me são confiadas. Ou não.

Foi um sucesso para os organizadores e satisfez os participantes. Pelo governo, a ministra do Trabalho, mais uma ex-sindicalista, declarou o respeito governamental pelo direito ao protesto e manifestação, enquanto Sócrates decidia passear pela América Latina de forma algo atabalhoada pelo que relata a imprensa de hoje.

Os discursos do dia foram os que se esperavam e nada de novo se fez sentir, para além da sensação do dever cumprido.

Entre as análises de hoje há de tudo um pouco, satisfazendo todas as correntes de opinião.

A verdade é que, realizado aquilo que era suposto ser realizado, hoje é domingo e tudo está na mesma.

Queiramos ou não, não há qualquer choque ou comoção vagamente semelhante ao que se passou em outros momentos que, de forma corporativa, posso simbolizar no dia 8 de Março de 2008 para comodidade de enquadramento.

Todos sabemos que o jogo está lançado e que os movimentos das peças, torres, cavalos, reis e rainhas são os habituais, assim como se pretende que os peões sigam os planos conhecidos.

O Governo apresenta no PEC um conjunto de soluções de austeridade que significam a opção por não tocar nos grandes interesses, preferindo sacrificar as massas às ma$$as.

À direita, que pouco de diferente tem a apresentar, criticam-se os investimentos públicos que à esquerda são criticados por serem menos do que o esperado.

À esquerda, criticam-se as poupanças nas despesas sociais, nas carreiras e salários da Função Pública (que, por tabela, arrastam os privados), apontando que os grandes interesses financeiros ficam quase intocados nos seus reais privilégios.

  • Em termos políticos, à esquerda do PS pretende-se demonstrar que existe uma capacidade de mobilização nas ruas que traduz uma efectiva insatisfação de amplas camadas da população. Mas essa esquerda não está interessada na queda do Governo, porque sabe que o PSD, sozinho ou com o CDS, as ganharia sem grande esforço se acontecessem por perto. Apenas lhe interessa pressionar para inflectir políticas. Até ao momento ganhou um hipotético avanço do TGV. Apresentará moções de censura enquanto souber que as mesmas serão chumbadas e fará protestos de rua que não ultrapassem os quadros “legais”. Não pretende que o poder caia na rua. É uma esquerda vagamente radical e os articulistas que acusam o PCP e o BE de radicalismo só podem estar a falar em relação aos interesses que defendem, nunca aos métodos que são do mais convencional (mais radicais são os republicanos americanos do Tea Party Movement). Em Portugal, não há verdadeiramente uma esquerda radical. Não estou a dizer se isso é bom ou mau, apenas a assinalar o facto. A sublevação popular é apenas um chavão, não um desejo. Basta ver como a esquerda que temos tem efectivo horror ao vazio e à mobilização inorgânica da sociedade civil, prescrevendo a adesão dos indivíduos às organizações representativas existentes, se possível as suas. Restam algumas franjas, nas próprias franjas do Bloco e pouco mais. O radicalismo da nossa esquerda é retórico e em termos práticos concentra-se em causas tidas como fracturantes em matéria de costumes, mas mesmo aí com limites. Falemos em legalização, por exemplo, da prostituição enquanto actividade profissional voluntária, e teremos logo o conservadorismo todo de volta.  É, desde a morte do espírito original do PSR, uma Esquerda chata, conservadora, repetitiva e que insiste numa superioridade ética sobre a concorrência que roça a arrogância.
  • À direita vive-se um dilema: o poder pode estar ao virar da esquina, mas o contexto económico é péssimo. Governar agora é difícil e mais difícil à direita do que à esquerda, porque a contestação social nas ruas recrudesce logo que o PS fica também do outro lado. O PSD sabe o poder pode cair-lhe no colo quase sem nada ter feito para isso, mas teme exercer esse mesmo poder, sem ter qualquer tipo de álibi para o fazer. Não tem soluções especialmente distintas do PS, mas não quer dar essa sensação. Também o PSD não quer que o Governo caia agora e apoia-lo-á, nem que seja por omissão, em situações mais dramáticas. Nunca quereria ser apresentado como um factor de instabilidade. Pelo que, se lhe fizerem algumas cedências de modo formal ou informal, estão disponíveis para uma governação em Bloco Central de facto. À direita sabe-se que a fórmula do Estado mínimo, poupando despesa através da redução dos serviços actuais do Estado é algo que o PS consegue fazer com mais facilidade do que o próprio PSD. A nossa direita – excepto o CDS pelo facto de poder dizer muita coisa sabendo que a não praticará, pois será sempre uma força minoritária num eventual governo de coligação – oscila entre as formulações teóricas de um liberalismo impossível no Portugal que temos e os complexos por ser “Direita“. Há umas quantas personalidades que se orgulham de ser de Direita na constelação que constitui o PSD mas são melhores nos jornais do que alguma vez seriam num Governo. Enquanto o PS no Governo tende a espraiar-se para a direita em muitas matérias, o PSD tem complexos com isso e tende sempre a matizar o facto de ser “direita” com uns tiques socializantes que o próprio Cavaco teve enquanto primeiro-ministro. Tudo em nome da matriz social-democrata que poucos sabem o que significa. A nossa Direita é complexada, excepto aquelas franjas ultramontanas que se arrepiam com o casamento entre homossexuais.

Perante isto, o pântano alastra. Tirando um núcleo restrito, já quase de facção, ao PS já não apetece ser Governo mas não pode admiti-lo. Ao PSD não apetece ser Governo a breve prazo, mas também não pode admiti-lo. À esquerda do PS não apetece que o Governo caia, mas não pode admiti-lo com clareza.

E todos fingem querer algo que efectivamente não querem, com a possível excepção do CDS que não oculta o desejo de ser Governo em coligação, talvez por ser o que menos tem a perder, pois é o partido que, fora do Governo, menos âncoras tem no país, nomeadamente ao nível autárquico.

E vivemos deste modo, num contexto dificílimo para todos, uma coreografia do confronto político em que quase nada do que é explícito e apregoado corresponde ao que efectivamente eles querem.

Mas em que exigem de nós que acreditemos ou que, pelo menos, finjamos que estamos a acreditar.

É essa a parte que eu não consigo entranhar

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