Parece que sim.

Eu confesso que o tom politicamente correcto do Daniel Oliveira (não o trato por nenhum ante-título porque não padeço de traumas socioacadémicos) e eticamente sempre muito exaltado me deixa a maior parte das vezes que o leio ou ouço um bocado enjoado.

Não consigo perceber se ele é mesmo assim por natureza se depois, como outros moralistas que por aí andam, em privado faz tudo às avessas do que proclama aos quatro ventos em todos os meios de comunicação social da burguesia que tanto admira, desculpem, detesta, desculpem, suporta.

Daniel Oliveira foi um dos que – relembremos – no episódio Carolina Michaelis se colocou imediatamente do lado contrário ao da professora, achando-a impreparada com base num vídeo de um par de minutos. Acho que foi dessa vez que postou o vídeo mas depois retirou-o porque não sei o quê, não deve ter pensado bem e coiso e tal. Se não foi dessa vez, foi de outra que vacilou entre a tentação sensacionalista tablóide e a pureza ética.

Confesso que o Daniel Oliveira me aborrece de tédio com o que escreve desde que se passou a levar muito a sério. É daquelas  pessoas que só deve rir-se de alguma coisa depois de passar pelo mais forte detector do tal politicamente correcto. Digamos que, no meu fraco entender, se ele pudesse criaria um filtro maior na linguagem das pessoas do que o governo chinês coloca no google.

A sério.

Acho mesmo que ele mandaria multar com evidente prazer qualquer pessoa que dissesse uma piada ou uma observação que fugisse aos seus parâmetros de bom gosto.

A forma ambígua como tratou o caso de Bruna Real é sintomático. Em vez de defender com clareza a rapariga, enredou-se em parágrafos de denúncia de numa moralidade serôdia da qual – afinal – ele só não faz parte porque enfim… Há-de lá chegar daqui por uns aninhos.

Quando me dizem que eu sou notoriamente bloquista, lembro-me do Daniel Oliveira (não em primeiro lugar, confesso, dedico os os primeiros lugares a outros vultos moralmente bem mais hipócritas da agremiação) para perceber que, realmente alguém andará muito distraído para me confundir com alguém ideologicamente tão conservador e retrógrado.

Porque o que estava em causa no meu post, mais do que uma reflexão ensaística sobre o caso, era mesmo a denúncia do descalabro e hipocrisia a que chegaram as coisas na nossa Educação e na forma como a sociedade reage epidermicamente a epifenómenos mediáticos, não percebendo como são correntes no dia a adia das escolas. Não digo que bem. Mas é a realidade corrente.

A verdade é que em nenhuma passagem defendi o direito a ofender seja quem for na sala de aula ou fora dela. Mas Daniel Oliveira, sempre desconfiado dos doutores e professores (excepto os da descendência, coitados, que devem andar aterrorizados com ele) gosta de disparar nas direcções erradas e afirma que o meu post revela «todo um programa». Só não diz qual.

O que Daniel Oliveira é incapaz de admitir é que sobre Educação percebe pouquíssimo e aquilo que dá a entender é apenas um emaranhado de traumas aparentemente herdados da sua vida escolar, envoltos com uma desconfiança imensa – nesse aspecto acho que estaria bem para secretário de Estado da Educação – para com a classe dos professores, a quem não reconhece o direito a ironizar seja com o que for. Julgo que para ele deveríamos voltar a ser missionários como para o ditoso António.

Fossemos passar o Arrastão a pente fino e veríamos como Daniel Oliveira se acha no direito de apodar quem bem lhe apetece do que bem entende.

Há é matérias em que ele é muito sensível (já estou mesmo a vê-lo a colocar a mãozinha direita com o polegar e o médio em círculo na direcção do interlocutor para sublinhar a pureza das suas posições): uma delas é o sexo, sobre o qual tem imensa dificuldade em expressar-se de forma coerente, a outra é o racismo e a xenofobia, em que ele confunde boas intenções com boas práticas. Em que ele acha que as palavras – embora sendo actos – são «todo um programa», não se interrogando se eu que lido todos os dias com turmas maioritariamente de origem africana pratico efectivamente algum tipo de discriminação ou abuso de poder sobre os meus alunos.

No fundo, Daniel Oliveira gostaria de chamar-me racista, mas faltam-lhe os…

Aliás, já agora, se há algo com que o Daniel não precisa preocupar-se é em como dirigir-se aos elementos de etnias não-caucasianas quando em simpósio com os notáveis do Bloco. Porquê? Porque os não há. Porque, por estranho e paradoxal que seja, o Bloco é dos partidos mais visual e publicamente caucasianos que eu conheço. Tal como o PCP. O que é estranho. Ou não.