Era 1.30 da madrugada de hoje e estava eu a pensar o que iria fazer umas 9 horas depois à FCT, como palestrante convidado do TICE.pt.

Claro que há aquela tentação de aderirmos logo às coisas tecnológicas e fazer uma comunicação toda modernaça, cheia de efeitos multimédia para encher o olho e parecer que se está mesmo na onda.

Mas eu não tinha preparado ainda nada de muito definitivo, para além de umas leituras preparatórias, umas referências, umas citações.

E apetecia-me dormir.

E foi então, enquanto espreitava uma gravação do Frasier, que tive a ideia óbvia: que sentido faz ir ao Pólo Norte mostrar como se faz gelo?

Pelo contrário, deve-se levar o que não há por lá em quantidades industriais. é algo desnecessário ir soletrar a Bíblia ao vigário.

E então decidi por uma comunicação não-tecnológica, analógica ou mesmo anterior, reduzida à pessoa que fala e que transmite pela palavra as suas ideias e o que pensa.

Uma espécie de retorno à essência primordial da função do professor e da comunicação. Se uma imagem vale por mil palavras, uma palavra dita com a sua carga expressiva valerá algumas imagens.

E assim dividi a intervenção em três partes para uma meia hora cumprida com razoável rigor.

Equívocos, Complementaridades e Desafios da relação entre a Tecnologia e a Educação.

Que equívocos?

  • Antes de mais o equívoco que tende a pensar que a tecnologia é mais do que um meio, uma ferramenta, que em poucos momentos prescinde da presença humana para dirigir a sua utilização.
  • Em segundo lugar, o equívoco de que basta despejar equipamentos nas escolas, para estas ficarem modernas, esquecendo-se que sem enquadramento na formação de professores e produção de conteúdos adequados. Um computador é uma máquina que pode ser útil ou não. Como a própria net pode ser uma importante ferramenta ou um incentivo á preguiça.
  • Em seguida, o equívoco resultante de existir um evidente desajustamento entre os meios que se disponibilizam e aquilo que se pretende dos alunos ao longo da escolaridade. Se em provas do 6º ano é habitual que se peça ainda que sejam ordenadas palavras por ordem alfabética ou que se contem cd’s empilhados, não me parece que a banda larga e muitos computadores sejam essenciais para saber o alfabeto e a tabuada aos 12 anos. Ou seja, é necessário percebermos antes de mais o que queremos da educação e que tipo de alunos pretendemos formar, em que nível de escolaridade, antes de lhes entregarmos um computador.
  • Por fim, entender que os recentes avanços nas tecnologias da informação, com o seu efeito multiplicador, em vez de potenciarem a individualidade e a criatividade, acabam – se utilizadas de forma superficial – por promoverem em muitas situações a indiferenciação e a replicação, por exemplo, das mesmas informações colhidas numa enciclopédia enorme, mas sem índice ou hierarquização do valor dos conteúdos. Porque, e acho que concordarão, era mais fácil há 10 ou 15 anos termos trabalhos com características mais individuais dos autores do que agora em que todos vão à net, pesquisam no google e desaguam na wikipedia, de onde fazem copy/paste para o Word ou Power Point.

E é aqui que entra a questão das complementaridades. Na necessidade das empresas ligadas às TIC, ao desenvolvimento de equipamentos, redes e conteúdos, entrarem em contacto com as escolas e não se perderem apenas nos contactos com a estrutura burocrática e/ou política do ME para fazer negócios. Porque é necessário ouvir as necessidades concretas das escolas ao nível não apenas dos equipamentos, mas igualmente do software, seja educacional, seja de gestão. E isso só se consegue com parcerias no terreno e não nos gabinetes.

Essa complementaridade deve ser conseguida contra múltiplas resistências, seja da inércia das escolas e professores (ou da sua falta de autonomia para gerar e gerir verbas), seja das empresas que tendem a olhar para as escolas como unidades desinteressantes para o negócio, preferindo grandes contratos com o estado central ou mesmo as autarquias, seja do próprio aparato burocrático do Estado que analisa os negócios muitas vezes apenas do ponto de vista da racionalidade económica e quase nunca do ponto e vista do interesse e necessidades dos utilizadores.

Relativamente aos desafios que se colocam, pelo menos numa perspectiva breve e a partir da base escrevo amanhã, que agora já estou mais para ó lado do Morfeu do que para o meu.