Não comprei em papel para guardar no Museu dos Horrores, mas está online a notícia que vem na p. 10 do Público em que Isabel Alçada é citada como pretendendo eliminar as repetências por serem «um mal que gera conflitualidade».

Só a força e poder do argumento chegam para esmagar qualquer um.

Olhe, cara senhora ministra, elimine o engenheiro do cenário político e muita conflitualidade desaparecerá do país. Se o argumento é esse, estamos conversados.

Mas como não é, como a verdade é outra e já por demais falámos deste assunto e eu escrevi por aqui, vou resumir-me ao essencial de forma curta e grossa.

  • Pelas bandas do ME, em especial no âmbito de um grupo de amizades longas a que a actual ministra não será estranha, existe uma enorme confusão (será mesmo?) acerca do trajecto dos sistemas educativos modernos e entre o culminar de um processo e o próprio processo. A eliminação das repetências no Ensino Básico foi uma consequência – o produto – em diversos países, da maturação do processo de alfabetização e de literacia das populações, não o processo que levou a essa maturação. Não conheço, e olhem que li muita coisa sobre isto, acreditem, nenhum estudo que demonstre uma relação causal entre eliminação de repetências e desenvolvimento educacional de um país. A relação é inversa. Atingida a velocidade de cruzeiro, é possível tal medida. Antes é um erro crasso, trágico mesmo, em virtude da cedência a uma pressão virada para o sucesso estatístico.

  • Uma medida deste tipo, no actual momento e contexto educativo, será a pedra de toque para o completo desmoronamento de uma cultura de rigor na Escola Pública, só servindo para a tornar uma escola de 2ª ou 3ª categoria destinada a acolher os coitadinhos de um tipo (social e economicamente desfavorecidos) ou outro (líricos ou românticos que ainda acham que devem ser coerentes com os seus princípios…), enquanto o sector privado florescerá por oferecer um outro modelo de escola. Para além disso, a eliminação de barreiras à progressão será – repito-o, sem qualquer dúvida – uma medida que agravará ainda mais a erosão de um clima de responsabilidade e empenho em todos aqueles – professores e alunos, antes de mais – preocupados em manter um maior grau de rigor e dificuldade no seu trabalho. Ao forçar uma indiferenciação do sucesso a todo o custo, com uma escala de valorização do mérito curta e sem qualquer tipo de destaque e recompensa, a tentação será o acomodamento da maior parte e a fuga dos elementos que se sintam mais visceralmente ofendidos por esta cultura laxista e pretensamente inclusiva. Para além disso, não haverá qualquer tipo de Estatuto do Aluno ou medida de qualquer tipo que sirva de barreira ao aumento da indisciplina e demissão do envolvimento das actividades lectivas, quando não existe qualquer medida sancionatória e o clima geral do país é de descalabro ético e moral.

Mais vale mesmo passarmos um diploma universitário a cada criança no momento em que nasce, datado do dia do seu 21º aniversário, mesmo que calhe a um domingo.

Ahhhhh…. ia-me esquecendo… e transformem os professores em transportadores de material e animadores de recreios. Ou substituam-nos por tarefeiros pagos com o ordenado mínimo à medida que nos formos aposentando ou demitindo de funções.

Agora é que eu quero ver a reacção de algumas e determinadas personalidades se esta medida for mesmo em frente…