Há pouco tempo, em resposta a uma questão sobre como era possível a um(a) professor(a) conduzir uma sala de aula e o que era mais importante, tentei explicar que o debate tradicional está espartilhado à partida quando se faz uma oposição redutora entre os que defendem o primado do conhecimento científico a transmitir (conteúdo) e os que defendem o primado das metodologias da transmissão de conhecimentos (a forma).

Porque, numa sala de aula, se é importante que o(a) docente domine o conhecimento que pretende transmitir e que o saiba transmitir de um modo eficaz (quantos professores tivemos, mesmo no ensino superior, que podiam ser muito bons numa dessas dimensões, mas eram fracos ou mesmo péssimos na outra), também é muito importante uma terceira dimensão que é a que mais dificilmente se consegue adquirir e desenvolver na formação inicial ou contínua, tanto pela inexistência da dita formação específica, como de certas características decorrerem demasiado das características pessoais de cada indivíduo. Falo, obviamente, das capacidades de relacionamento interpessoal ou, numa visão mais popularizada nos últimos anos graças a David Goleman, da inteligência emocional, ou seja, da identificação e capacidade de utilização das emoções nos outros e em nós, canalizando-as de uma forma eficaz.

Esta é a competência (como se diz agora) ou capacidade mais difícil de ser desenvolvida, ou aperfeiçoada, porque resulta de um conjunto de qualidades que em muito são intrínsecas a cada individualidade, desde logo a capacidade de despertar empatia nos interlocutores.

A obra que destaco neste post (e que julgo já ter referido há uns meses) corresponde a uma investigação decorrente da formação em gestão de emoções junto de um grupo de professoras do 1º ciclo. A metodologia pode despertar algumas reservas em algumas pessoas, nem todos pressupostos ou conclusões serão partilháveis por todos (acho mesmo que a certo nível, são demasiado unilaterais por quase responsabilizarem em exclusivo uma das partes na relação pedagógica e pessoal), mas há constatações muito interessantes.

Passo a destacar algumas passagens das páginas 505-506 que acho bastante interessantes:

Depois de uma intervenção junto das professoras, verificou-se que naquelas que tinham uma atitude de permissividade em relação às regras de comportamento, que foram mais trabalhadas e implementadas de forma orientadora nesse caso, os alunos tomaram consciência do seu comportamento, havendo uma mudança significativa na ideia que os alunos têm do seu comportamento. Ou seja, os alunos passaram a achar que eram mais mal comportados. A tomada de consciência é o primeiro passo para qualquer processo de transformação.

Mais uma vez se verifica que o trabalho que se faz com as professoras provoca igualmente mudanças nos alunos, o que reforça uma das ideias que serviu de guia a esta investigação; a de que, para se mudar a realidade de uma sala de aula, o melhor é começar por uma intervenção que mude em primeiro lugar os comportamentos e as atitudes das professoras.

(…)

As dificuldades que as professoras sentiram em mudar de atitudes na sala de aula vieram pôr em evidência alguns esquemas estereotipados e crenças educacionais tradicionalmente utilizadas na condução das aulas, assim como a importância que as características pessoais e os problemas da vida pessoal das formandas podem ter igualmente nos processos de mudança.