… e só nos sobressaltamos quando o dramatismo chega ao cenário mediático.

Ontem uma criança desapareceu, por moto próprio ou acidente, alegadamente em virtude de  brutalidade repetida por parte de colegas mais velhos.

Tenho sempre poucas certezas em relação a estes casos. Na televisão – RTP, esta manhã – eufemiza-se com desentendimento na escola. Quem parece conhecer os antecedentes relata outras coisas.

Uma das poucas certezas que tenho é que, havendo agressores e mesmo sendo agressores recorrentes, nada de significativo lhes acontecerá.

Teremos especialistas a explicar o caso na televisão ao longo do dia. Teremos um sobressalto epidérmico em relação a mais um fenómeno. Aparecerão os relativizadores. Os mesmo que se arrepiam com uma morte em Bagdad, em Havana ou em Guantanamo, neste caso relativizarão.

Tenho a quase absoluta certeza que, em nome de uma ideologia passadista, de uma juventude perdida que os trouxe para o poder instalado, ou para as suas franjas, dirão que não podemos dramatizar, que tudo é outra coisa se não aquilo que é. Que as escolas são seguras. Que não podemos alarmar as famílias. Com jeitinho, ainda alguém dirá que não se deverão alarmar as famílias dos alegados agressores.

Isto enoja-me. A sério que enoja.

Há alguns dias explicava a uma personalidade pública com a possibilidade de ter a descendência no ensino privado, aquilo que vi ao longo destes anos em pátios e corredores das escolas, o que por vezes sou mesmo obrigado a fazer e os riscos que corro ao fazê-lo porque não o consigo evitar.

Quase não acreditam, de tão incrível, mesmo para quem desconfia das escolas públicas.

Mas é o que se passa.

E cada vez mais nos isolamos disso, para nos protegermos, para conseguirmos resistir melhor a um quotidiano quantas vezes arrepiante.

Buscam-se, periodicamente, culpados, razões, soluções. Quase nunca se faz mesmo algo com interesse e muito menos com eficácia.

Culpados? Somos praticamente todos.

Vamos lá, por uma ordem que talvez vá do geral para o particular.

  • Uma sociedade imbuída de uma ideologia que proclama e não pratica valores éticos ou quaisquer que sejam, dominada por varas & ruispedros depois dos outros se terem servido na década anterior. Uma ideologia servida à mesa por aqueles pseudo-libertários herdeiros de 68 que, na maior parte, só queriam ser eles a mandar e que mandam relativizar porque sabem que o seu trajecto não suportaria análise apurada. Proclamam-se inclusivos para que eles se possam incluir. De forma vitalícia.
  • Um modelo de escola dita inclusiva que passou a misturar tudo e nada, servindo a todos e a ninguém, numa indiferenciação cheia de matizes burocráticos que nada distinguem, apenas servindo de corredores para um sucesso certificado. Uma escola onde se faz desaguar tudo, não percebendo que para isso são necessários espaços e pessoal técnico que não se pode resumir a funcionários e professores, mais um psicólogo para 1500 ou 2000 crianças e tomem lá um ou dois docentes do chamado Ensino Especial para se desenrascarem. Uma escola onde os professores são obrigados a fazer tudo e onde os directores são avaliados como excelentes se fizerem funcionar um par de CEF medíocres. Um modelo de escola que não tem fronteiras com nada, onde tudo cabe.
  • Um número assinalável de responsáveis pela gestão da escola que mascaram activamente os números de ocorrências graves nas escolas para não terem problemas para cima. Que para isso são capazes de convencer docentes a não apresentarem queixas, a não as passarem a escrito, ou que as fazem desaparecer depois de apresentadas. Que preferem o diálogo, ou que têm a distinta lata de negar as evidências ou então de afirmar que não há provas. As provas que eles fazem o favor de filtrar para um ME que daí lava as suas mãos. Tudo com cobertura açucarada de especialistas em depurar estatísticas em nome da dificuldade em categorizar comportamentos ou aplicar conceitos.
  • Um grupo alargado de docentes que, para sua própria defesa, muitas vezes optam por sobreviver no trajecto entre a sala dos professores e a sala de aulas ignorando o que se passa em seu redor, falando quantas vezes entre si, olhando-se nos rostos, para evitarem o mundo ao redor, para poderem dizer que não se aperceberam. Que muitas vezes já procuram sobreviver ele(a)s mesmo(a)s até à aula seguinte, ao dia seguinte, ao fim de semana. É a verdade num número muito vasto de escolas, não vale a pena mascararmos os factos reais com representações oficiais, feitas de números filtrados em vários patamares da cadeia de comando.
  • Mas não esqueçamos as sacrossantas famílias ou o que resta delas, enredadas numa vida dura,  igualmente sem grandes referenciais, mas que não justifica o absentismo moral ou ético na educação dos seus filhos. Que não pode revelar-se apenas quando um professor ou director de turma toma uma atitude mais firme. E não falemos apenas das chamadas classes perigosas de outros tempos. Há muito bom e aperaltado burguesinho que é tão ou mais besta quadrada quanto aqueloutro que ele despreza quando se cruza na rua. O que dizer daqueles que só aparecem na escola quando se levanta um processo disciplinar, em defesa do seu rebento que nada fez, de certeza que não foi ele, que a culpa é de tudo menos da educação e valores que não soube transmitir. O que dizer das famílias que têm como representante máximo alguém que nem tem filhos no ensino público, mas depois tem paradigmas para distribuir sempre que lhe colocam uma câmara ou microfone à frente?

E depois os miúdos nem se queixam? Claro que não se queixam. Eles são os primeiros a sentir na pele o medo e a inutilidade da denúncia.

Ahhhh… ia-me esquecendo: e tempo culpa a comunicação social quando só faz parangonas quando há mortes ou filmes. Aí já se fazem Prós e Contras e debates vespertinos para apelar ao sentimento. No resto do tempo, associa-se para o lado e enfileiram-se números ou casos dramáticos singulares.

Advertisements