Recebi por mail da Teresa (que também lhe dedica um post) a informação que o professor Rogério Fernandes faleceu (notícia do Público aqui com artigo devidamente actualizado e docuemntado).

Não vou aqui hiperbolizar uma relação pessoal que teve apenas uma meia dúzia de anos, aqueles que se passaram entre o dia em que, depois de uns contactos telefónicos a propósito de uma participação num colóquio e uma carta a fazer o pedido, aceitou ser meu orientador de doutoramento em 2001 e uns tempos posteriores á defesa da dita cuja. Ou seja, penso que não o via pessoalmente há alguns anos.

Por isso, certamente, existirá quem o poderá evocar melhor, mas não quero deixar de fazer aqui o elogio de alguém que foi muito importante no meu trajecto académico, em especial pela absoluta liberdade que me concedeu e o misto de curiosidade e divertimento com que ele observava e comentava a minha combinação improvável de trabalho atrasado e o que ele chamava atracção pelo abismo em algumas abordagens.

Mas foram uns anos de contacto pessoal e académico muito interessante, do qual esteve ausente qualquer ganga ou formalidade académica. Aconselhou-me a usar uma fatiota mais formal e gravata, já agora, no dia da defesa da tese e tão só. No entretanto, partilhámos embirrações políticas e académicas, da esquerda à direita.

Nunca fui um seu colaborador directo, quanto muito uma visita mensal ou quinzenal em alguns períodos. Mas permitiu-me algo demasiado valioso para mim – o que já acontecera com o meu orientador de tese de mestrado, curiosamente seu colega de curso em letras nos idos dos anos 50 do século passado – para não lhe estar imensamente grato: deixou-me fazer as coisas como eu quis, apenas me aconselhando de forma cirúrgica quando eu me estava claramente a exceder em matéria de megalomania.

Ele nunca acreditou que aquelas 200 páginas finais conseguissem ser arrancadas naquele mês de Agosto, mesmo a finalizar a minha equiparação, muito menos em três.

Mas não me desencorajou e esperou. E, nesses casos, eu sinto-me obrigado a cumprir.

Raramente gosto de elogios fúnebres, muito menos quando sei que não são sinceros ou resultam de diversos níveis de oportunismo.

Neste caso, no meu caso em relação ao professor Rogério Fernandes, resta o tributo a alguém que conheci como alguém de uma cordialidade imensa, de uma crítica apurada e com um sentido de humor que permitia partilhar a minha verrina. E, como já disse, um praticante da liberdade intelectual que me faz falta como do oxigénio para respirar.

Era um homem bom.