Quinta-feira, 4 de Março, 2010


Beck, Jack-Ass

Governo estima adesão à greve em 13 por cento, sindicatos em 80 por cento

RAMALHO ORTIGÃO, UMA ESCOLA PORTUGUESA ACTUAL E O PARLAMENTO EUROPEU

“O homem não se concebe sem movimento e de há muito que os filósofos vêm usando a imagem do anti-homem representado pela ostra fixada ao rochedo” (Jean-Pierre Gasc, “A Aventura Prodigiosa do Nosso Corpo”).

Segundo um post  publicado neste blogue (04/03/2010), intitulado “Quotidianos Complicados”, o director da Escola Secundária Cristina Torres (Figueira da Foz)  “não reconhece a importância da Educação Física”(sic.).

Ninguém nasce ensinado,  mas toda a gente está a tempo de aprender. Para mais se tiver a seu cargo a responsabilidade da educação integral da população escolar: a Educação Física escolar, para além de uma disciplina curricular,  é, também,  uma questão de Saúde Pública.

Recuo no tempo. skip to main | skip to sidebar Debruço-me sobre “As Farpas” publicadas com o objectivo definido por Eça de Queiroz: “No estado em que se encontra o país, os homens inteligentes que têm em si a consciência da revolução – não devem instruí-lo, nem doutriná-lo, nem discutir com ele – devem farpeá-lo”. Esta vasta obra literária, de leitura obrigatória, descreve situações semelhantes às do actual contexto da vida portuguesa. Desta feita, focalizo a minha atenção, tão-só, em Ramalho Ortigão, nas palavras de João Maia, “saudável de corpo e alma”.

A Ramalhal figura, membro da Academia das Ciências de Lisboa, em censura acerba aos políticos do seu tempo, dizia que “não eram homens de ciência, nem sequer homens do mundo, por não terem princípios nem ideias gerais”, justificando a sua opinião de forma corrosiva: “Pela sua cultura de espírito estão abaixo do mais corriqueiro leitor da ‘Revista dos Dois Mundos’ e do ‘Dicionário de Laroussse’. Como cultura física, indigência igual à da cultura mental. Se falando metem os pés pelas mãos, calados metem os dedos pelo nariz. Não têm ‘toillete’, não têm maneiras, e têm caspa”.

Mas não se pense que a exprobração que faz a esta indigência sobre a cultura física se quedou por fortuita intervenção. Nada disso! Ramalho foi a personagem do panorama literário português que mais e mais vigorosas páginas dedicou às práticas físicas da juventude.

Como prova inicial, este pequeno naco de prosa, indiciador de uma defesa estrénua das actividades corporais: “Em Portugal, país de magricelas, de derreados, de espinhelas caídas, nada mais importante do que a educação física… e a ginástica não é uma questão de circo nem de barraca de feira, é uma alta e grave questão de educação nacional”.

Corria o ano de 1871. Ramalho, em apelo quase patético, desiludido com a ausência de medidas dos políticos em favor de uma educação integral dos jovens (ele mesmo o diz, “não nos dirigimos aos políticos”), pede, ou exige mesmo, uma tomada de posição por parte dos pais em defesa da formação completa dos filhos:

“Leitor! Leitora! – falemos dos vossos filhos.
Eles e elas são pálidos, têm as gengivas esbranquiçadas, os dentes baços, as pestanas longas, as pálpebras oftálmicas, os cantos da boca levemente feridos, o sorriso triste, os movimentos indecisos e fracos, o olhar quebrado.
Precisam de tomar banhos frios, de comer carne ao almoço, de beber uma colher de óleo de fígado de bacalhau todos os dias, de fazer ginástica e de que se lhes corte o cabelo.
Pelo que respeita ao corpo, se vêm de um ‘bom colégio’, sabem de ginástica o suficiente para fazer dele um mau arlequim, mas nunca empregaram a sua força nos exercícios verdadeiramente úteis a um homem. Não estão habituados à fadiga das marchas, não sabem defender-se se os esbofeteiam, não sabem nadar
[na Roma Antiga, em apodo aos ignorantes, dizia-se “neque natare, neque litteras”, ou seja não sabe nadar, nem sabe ler ], desconhecem os princípios mais elementares da higiene.
Nós mesmos já fomos educados assim. Vede o que estamos sendo! Vede os homens que deitámos. Vede o país que fizemos e a sociedade que construímos!
Possam os nossos filhos reclamar a felicidade a que seus pais não têm direito, apresentando-se ao futuro com merecimentos que nós não podemos invocar! Suspensão de veemências e de ironias! Trata-se da infância. Não nos dirigimos aos políticos. Conversamos honrada sinceramente contigo, leitor amigo, leitora honesta.
Pesa sobre vós uma responsabilidade tremenda. No estado em que se acha a sociedade portuguesa, a família é um duplo refúgio – do coração e do espírito. A família é dos pouquíssimos meios pelos quais ainda é lícito em Portugal a um homem honrado influir para o bem no destino do seu século. Querido leitor! O modo mais eficaz de seres útil à tua pátria é educares o teu filho. Consagra-te a ele”.

São passados mais de dois séculos. Mudou algo relativamente a esse tempo? Julgo que sim, embora com o contra-vapor de directores de escolas, como aquela de que aqui é dada conta,  que não evoluíram desrespeitando  o próprio Parlamento Europeu que aprovou em 2007, por ampla maioria (590 votos a favor, 56 contra e 21 abstenções) um relatório em defesa de uma carga horária de educação física no ensino básico e secundário que contempla um mínimo (um  mínimo, repare-se) de três horas semanais para contrariar o aumento de peso e a obesidade nos jovens que se não fica a dever tanto a uma elevada ingestão de alimentos mas a uma declarada inactividade física: “esses jovens não comem mais, mexem-se menos”, segundo o relatório do Parlamento Europeu.

Para contrariar este statu quo foi proposto um equilíbrio entre os períodos de tempo dedicados às actividades intelectuais e físicas nas escolas. Só desta forma será possível e desejável combater uma sociedade juvenil vitimada pela pouca actividade física. Em consequência, povoada de jovens que são “ostras fixadas aos rochedos”.Em resumo, não queira o director da escola secundária da Figueira da Foz ser mais papista que o insuspeito Parlamento Europeu! Ou mesmo que queira, não o devem deixar…

Rui Baptista

Ideal Esquecido

Há quem pense, com certa razão, que o partido que vence as eleições e atinge o poder deve fazer exactamente o que os anteriores mandatários do povo andaram a fazer: encher bem a gamela”,  alambuzando o mais que puder.

E explicam: Se quem lá esteve antes andou quatro ou mais anos a repartir privilégios pelos correligionários, porque carga de água não vão os que acabam de alcançar o poder fazer o quer fizeram os outros?

O raciocínio não deixa de ter algum nexo. Na verdade, se o partido que ascende ao poder se põe com muitos pruridos morais, os seus dirigentes correm o risco de serem chamados de otários.

Convirá, no entanto, reflectir no seguinte:

Será que esta rotatividade política, baseada em obstinados  revanchismos partidários, redistribuindo à vez o tacho político, ora pelo partido A, ora pelo partido B, não é uma espécie de mudança ilusória? Isto é: a aparente mudança de protagonismo político não conduz o país ( ou o concelho)  a um estado de letargia económica e social?

É que, embora a alternância política seja em si desejável, não tem resolvido um problema ainda insolúvel: o da não promoção do mérito e do esforço.

É que esta é a forma de eternizar no poder o grupo da estrada-da-Beira e o da beira-da- estrada. Ou seja, apenas dois grupos mais ou menos restritos de cidadãos que vão repartindo entre si os privilégios ou benefícios da ocupação do poder. E no interior desses grupos nem sempre se encontram os mais capazes.

A grande maioria dos cidadãos vêem-se, assim, impedidos de intervir nos palcos onde as decisões são tomadas. E não é por não estarem preparados. É por não terem cartão. E muitas vezes não o têm porque “não lho passam…”.

O que fazer então para tentar corrigir esta iniquidade que se vem repetindo há décadas?

Acabando com as nomeações directas e partidárias para os cargos públicos.

Guterres deixou-nos, além do exemplo da “aura mediocritas”, uma outra herança que anda bastante esquecida: o ideal político que tentou implementar através de um projecto de acção política que  celebrizou na frase “no jobs for the boys”. Um ideal que os seus “colaboradores” partidários resolveram cortar pela raiz.

E como acabar com esse processo injusto e iníquo das nomeações?

Através do concurso público e transparente. Da selecção curricular dos melhores. Sem olhar ao grande símbolo da incompetência e do vício que é o cartão partidário.

É difícil? Pois é. Mas se Guterres fosse tão perseverante  como a sua pior  criatura política, teria com toda a certeza implementado o seu ideal. Porque era justo, e a maioria do povo iria aprovar.

Cunha Ribeiro

Estou só à espera que entrem todos de serviço. Entre fontes oficiais, blogueiros e comentadores hão-de arranjar por aí uma teoria explicativa para a coisa tíbia que aconteceu. E não falo só do sector da Educação. Vão dizer que mesmo com uma percentagem baixa de adesão é muita gente, que fecharam muitos serviços (não dão números relativos, fazem listas), que a culpa é dos que não viram a luz, dos que não se calaram e decidiram dar a sua opinião, ou seja, um exercício deletério de regresso ao passado no seu pior.

A mim não me interessam culpados, responsáveis, seja o que for. Interessa-me que não voltem a fazer as asneiras que já fizeram demasiadas vezes por decidir isto em grupo de amigos, à volta da mesa com escassa ligação ao terreno. A manifestação da Função Pública poderia ter dado uma pista sobre o estado das coisas. Mas não. Insistem em seguir – de novo – as cartilhas que poderiam ter começado a perceber que devem ficar arrumadas de vez.

Mas aposto que a culpa vai ser dos outros. Dos que tinham razão.

E das duas uma, ou os outros tinham razão na avaliação da situação, ou não tinham e são fortes e insinuantes as suas vozes que conseguiram desmobilizar as massas furibundas.

E não digam que os críticos estão a fazer o jeito ao engenheiro. Jeiro ao engenheiro fazem aqueles que insistem em decidir convocar protestos e manifestações e vigílias e greves sem perceberem que o terreno ainda não está devidamente adubado.

Vamos lá ser sérios: as coisas não correram bem porque foram mal pensadas.

Já estamos habituados.

Vá lá, ainda estão a tempo de marcarem uma greve aos exames.

Ou com a Isabel não, que ela é amiga e a Lurdes não era?

Este tipo de declarações:

O secretário-geral da Fenprof, Mário Nogueira, considerou que a greve desta quinta-feira está a ter uma adesão «extraordinária» entre os professores e o pessoal auxiliar das escolas e lamentou que alguns estabelecimentos se encontrem abertos «irresponsavelmente».

Definam-me extraordinária e expliquem-me se agora a Fenprof já representa também o pessoal não docente.

Aquela voz.

Admito que é injusto da minha parte e o homem não tem culpa. Eu tenho mais culpa pela ridícula extensão do meu cabelo, em redor da clarabóia para arrefecimento local.

Mas, mesmo assim…

Já recebi este mail há dias. Decidi não o publicar sem ter alguma espécie de segunda fonte. Entretanto, o mail tem retornado á minha caixa de correio, de diversas origens. O Ilídio publicou-o entretanto.

Hoje voltei a recebê-lo, de forma personalizada, sob pseudónimo, com o pedido expreso de divulgação. Pelo que aqui fica.

O problema – penso eu de que, não sei se correctamente – está na forma como o currículo está organizado e como se calculam as médias. Porque a situação de base que é descrita – os problemas com a classificação de EF para alguns alunos top nas disciplinas teóricas.

Complicado, muito complicado.

.

Olá colegas

Venho expor-vos um assunto para o qual gostaria de obter um comentário vosso:

Na Escola Secundária c/ 3ºCiclo de Cristina Torres (Figueira da Foz), o Director, com o apoio do Conselho Pedagógico, veio obrigar a que os professores de Educação Física desta escola, implementem medidas de apoio educativo sempre que a média de um aluno/a nas outras disciplinas difira dois ou mais valores em relação à classificação atribuída em Educação Física. Este plano tem como objectivo permitir ao aluno/a a recuperação e o desenvolvimento das competências necessárias para este/a atingir um nível equivalente ao seu “perfil”.

Ou seja, por absurdo, poderemos ter um aluno com uma classificação de 18 valores em Educação Física, mas que tendo média de 20 valores nas restantes disciplinas, terá que ser sujeito a um plano de recuperação. Convém referir que mesmo que esta situação se verifique noutras disciplinas, o referido plano só se aplica na disciplina de Educação Física. Temos portanto aqui uma situação clara de discriminação e de arbitrariedade com a conivência do Conselho Pedagógico, o que é efectivamente grave.

Situações como esta são comuns na nossa escola. Desde uma gradual degradação das condições de trabalho, passando pela elaboração de horários de Educação Física – que não só desrespeitam os professores como os próprios alunos, impedindo-os de ter condições de prática que lhes permita ter uma aprendizagem de qualidade (a título de exemplo dir-vos-ei que há professores a trabalharem em todos os turnos da semana sem folga alguma, algo nunca visto em nenhuma escola; condições de espaço para 3 professores trabalharem em simultâneo, chegam a trabalhar 5; etc) – e acabando noutras situações que agora não vale a pena aqui relatar. A verdade é que a desconsideração pela disciplina não tem limites.

Perante estas situações tudo têm os professores feito para alterar este estado de coisas. Debalde. A Direcção está apostada em fazer a vida negra aos professores de Educação Física e tem conseguido levar a sua avante para desespero de todos nós. Perguntar-me-ão o porquê de tudo isto?. Será que os professores são uns baldas, não trabalham? Nada disso. Em vez de reconhecer o trabalho que os seus profissionais desenvolvem, o Director persegue-os pq não reconhece importância à Educação Física e, acima de tudo, não está de acordo com as classificações atribuídas na disciplina que, segundo ele, prejudicam os melhores alunos. Isto apesar de a média em Educação Física ser a mais alta comparativamente com as restantes disciplinas. Só que isso para a Direcção e a maioria dos restantes colegas pouco importa. Para esta “gentalha” se um aluno/a tem média de 18 tem que obrigatoriamente ter a mesma classificação em Educação Física. Claro está que esta atitude merece o apoio da Associação de Pais. A guerra está instalada: enquanto não soçobrarmos a declaração de guerra é para manter. É justo isto? Não me parece.

Agradecendo a atenção dispensada, me subscrevo

********

Na minha escola forte adesão do pessoal auxiliar. Fraca adesão de professores. Abertura da escola à hora do almoço em jeito de serviços mínimos mesmo indispensáveis.

Pelo que me toca fui ficando a conversar a maior parte do meu (curto) tempo lectivo do dia de hoje.

Não vale a pena virem-me tentar incutir um certo sentimento de culpa, com aquele tipo de táctica que deixou de ter efeito em mim desde o tempo em que jogava aos berlindes.

Sei o que não fiz e porquê.

Se fosse cínico diria que até achei o acordo menos mau.

Quanto à comunicação social, confesso nada estar a ouvir porque a petiza está a desfrutar de uma dose inesperada de Canal Disney e por aqui acertou-se que só há uma televisão em exercício para o agregado, sem refúgios individuais.

O documento é público e oficial, não comento nenhuma indiscrição e qualquer um o podia ter enviado. Por acaso foi sob pseudónimo, pelo que nem vale a pena perguntarem-me quem é.

Este esclarecimento é anterior ao conhecimento público da decisão judicial.

Não me move nada de particular, que não que se perceba que, como este, muitos outros casos existiram por aí, só que tudo se foi passando com o beneplácito generalizado de quase todos e a intromissão, de permeio, de jogatinas políticas  locais. Como neste caso, pelas descrições que me chegaram.

Assim como a repetição da expressão caça às bruxas. Lamentável.

Recebi por mail da Teresa (que também lhe dedica um post) a informação que o professor Rogério Fernandes faleceu (notícia do Público aqui com artigo devidamente actualizado e docuemntado).

Não vou aqui hiperbolizar uma relação pessoal que teve apenas uma meia dúzia de anos, aqueles que se passaram entre o dia em que, depois de uns contactos telefónicos a propósito de uma participação num colóquio e uma carta a fazer o pedido, aceitou ser meu orientador de doutoramento em 2001 e uns tempos posteriores á defesa da dita cuja. Ou seja, penso que não o via pessoalmente há alguns anos.

Por isso, certamente, existirá quem o poderá evocar melhor, mas não quero deixar de fazer aqui o elogio de alguém que foi muito importante no meu trajecto académico, em especial pela absoluta liberdade que me concedeu e o misto de curiosidade e divertimento com que ele observava e comentava a minha combinação improvável de trabalho atrasado e o que ele chamava atracção pelo abismo em algumas abordagens.

Mas foram uns anos de contacto pessoal e académico muito interessante, do qual esteve ausente qualquer ganga ou formalidade académica. Aconselhou-me a usar uma fatiota mais formal e gravata, já agora, no dia da defesa da tese e tão só. No entretanto, partilhámos embirrações políticas e académicas, da esquerda à direita.

Nunca fui um seu colaborador directo, quanto muito uma visita mensal ou quinzenal em alguns períodos. Mas permitiu-me algo demasiado valioso para mim – o que já acontecera com o meu orientador de tese de mestrado, curiosamente seu colega de curso em letras nos idos dos anos 50 do século passado – para não lhe estar imensamente grato: deixou-me fazer as coisas como eu quis, apenas me aconselhando de forma cirúrgica quando eu me estava claramente a exceder em matéria de megalomania.

Ele nunca acreditou que aquelas 200 páginas finais conseguissem ser arrancadas naquele mês de Agosto, mesmo a finalizar a minha equiparação, muito menos em três.

Mas não me desencorajou e esperou. E, nesses casos, eu sinto-me obrigado a cumprir.

Raramente gosto de elogios fúnebres, muito menos quando sei que não são sinceros ou resultam de diversos níveis de oportunismo.

Neste caso, no meu caso em relação ao professor Rogério Fernandes, resta o tributo a alguém que conheci como alguém de uma cordialidade imensa, de uma crítica apurada e com um sentido de humor que permitia partilhar a minha verrina. E, como já disse, um praticante da liberdade intelectual que me faz falta como do oxigénio para respirar.

Era um homem bom.

… e só nos sobressaltamos quando o dramatismo chega ao cenário mediático.

Ontem uma criança desapareceu, por moto próprio ou acidente, alegadamente em virtude de  brutalidade repetida por parte de colegas mais velhos.

Tenho sempre poucas certezas em relação a estes casos. Na televisão – RTP, esta manhã – eufemiza-se com desentendimento na escola. Quem parece conhecer os antecedentes relata outras coisas.

Uma das poucas certezas que tenho é que, havendo agressores e mesmo sendo agressores recorrentes, nada de significativo lhes acontecerá.

Teremos especialistas a explicar o caso na televisão ao longo do dia. Teremos um sobressalto epidérmico em relação a mais um fenómeno. Aparecerão os relativizadores. Os mesmo que se arrepiam com uma morte em Bagdad, em Havana ou em Guantanamo, neste caso relativizarão.

Tenho a quase absoluta certeza que, em nome de uma ideologia passadista, de uma juventude perdida que os trouxe para o poder instalado, ou para as suas franjas, dirão que não podemos dramatizar, que tudo é outra coisa se não aquilo que é. Que as escolas são seguras. Que não podemos alarmar as famílias. Com jeitinho, ainda alguém dirá que não se deverão alarmar as famílias dos alegados agressores.

Isto enoja-me. A sério que enoja.

Há alguns dias explicava a uma personalidade pública com a possibilidade de ter a descendência no ensino privado, aquilo que vi ao longo destes anos em pátios e corredores das escolas, o que por vezes sou mesmo obrigado a fazer e os riscos que corro ao fazê-lo porque não o consigo evitar.

Quase não acreditam, de tão incrível, mesmo para quem desconfia das escolas públicas.

Mas é o que se passa.

E cada vez mais nos isolamos disso, para nos protegermos, para conseguirmos resistir melhor a um quotidiano quantas vezes arrepiante.

Buscam-se, periodicamente, culpados, razões, soluções. Quase nunca se faz mesmo algo com interesse e muito menos com eficácia.

Culpados? Somos praticamente todos.

Vamos lá, por uma ordem que talvez vá do geral para o particular.

  • Uma sociedade imbuída de uma ideologia que proclama e não pratica valores éticos ou quaisquer que sejam, dominada por varas & ruispedros depois dos outros se terem servido na década anterior. Uma ideologia servida à mesa por aqueles pseudo-libertários herdeiros de 68 que, na maior parte, só queriam ser eles a mandar e que mandam relativizar porque sabem que o seu trajecto não suportaria análise apurada. Proclamam-se inclusivos para que eles se possam incluir. De forma vitalícia.
  • Um modelo de escola dita inclusiva que passou a misturar tudo e nada, servindo a todos e a ninguém, numa indiferenciação cheia de matizes burocráticos que nada distinguem, apenas servindo de corredores para um sucesso certificado. Uma escola onde se faz desaguar tudo, não percebendo que para isso são necessários espaços e pessoal técnico que não se pode resumir a funcionários e professores, mais um psicólogo para 1500 ou 2000 crianças e tomem lá um ou dois docentes do chamado Ensino Especial para se desenrascarem. Uma escola onde os professores são obrigados a fazer tudo e onde os directores são avaliados como excelentes se fizerem funcionar um par de CEF medíocres. Um modelo de escola que não tem fronteiras com nada, onde tudo cabe.
  • Um número assinalável de responsáveis pela gestão da escola que mascaram activamente os números de ocorrências graves nas escolas para não terem problemas para cima. Que para isso são capazes de convencer docentes a não apresentarem queixas, a não as passarem a escrito, ou que as fazem desaparecer depois de apresentadas. Que preferem o diálogo, ou que têm a distinta lata de negar as evidências ou então de afirmar que não há provas. As provas que eles fazem o favor de filtrar para um ME que daí lava as suas mãos. Tudo com cobertura açucarada de especialistas em depurar estatísticas em nome da dificuldade em categorizar comportamentos ou aplicar conceitos.
  • Um grupo alargado de docentes que, para sua própria defesa, muitas vezes optam por sobreviver no trajecto entre a sala dos professores e a sala de aulas ignorando o que se passa em seu redor, falando quantas vezes entre si, olhando-se nos rostos, para evitarem o mundo ao redor, para poderem dizer que não se aperceberam. Que muitas vezes já procuram sobreviver ele(a)s mesmo(a)s até à aula seguinte, ao dia seguinte, ao fim de semana. É a verdade num número muito vasto de escolas, não vale a pena mascararmos os factos reais com representações oficiais, feitas de números filtrados em vários patamares da cadeia de comando.
  • Mas não esqueçamos as sacrossantas famílias ou o que resta delas, enredadas numa vida dura,  igualmente sem grandes referenciais, mas que não justifica o absentismo moral ou ético na educação dos seus filhos. Que não pode revelar-se apenas quando um professor ou director de turma toma uma atitude mais firme. E não falemos apenas das chamadas classes perigosas de outros tempos. Há muito bom e aperaltado burguesinho que é tão ou mais besta quadrada quanto aqueloutro que ele despreza quando se cruza na rua. O que dizer daqueles que só aparecem na escola quando se levanta um processo disciplinar, em defesa do seu rebento que nada fez, de certeza que não foi ele, que a culpa é de tudo menos da educação e valores que não soube transmitir. O que dizer das famílias que têm como representante máximo alguém que nem tem filhos no ensino público, mas depois tem paradigmas para distribuir sempre que lhe colocam uma câmara ou microfone à frente?

E depois os miúdos nem se queixam? Claro que não se queixam. Eles são os primeiros a sentir na pele o medo e a inutilidade da denúncia.

Ahhhh… ia-me esquecendo: e tempo culpa a comunicação social quando só faz parangonas quando há mortes ou filmes. Aí já se fazem Prós e Contras e debates vespertinos para apelar ao sentimento. No resto do tempo, associa-se para o lado e enfileiram-se números ou casos dramáticos singulares.

Seja na área da Educação ou em outras.

Eu entro às 13.30. Já verei.

Winsor MacCay, Little Nemo in Slumberland

Antecipo, com gosto, a matinal hermenêutica gundisalbiana…

Van She, Kelly

O acórdão interessante foi-me enviado de muito longe, por alguém ligado a questões jurídicas. Deixem lá de fazer caça às bruxas e feiticeiros que não foi ninguém da casa.

Aliás, se tomassem atenção isso já estava escrito no post. E penso mesmo que o documento está online e que foi assim que foi encontrado.

Adenda: Acórdão aqui.

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