Afinal as alterações curriculares no 3º ciclo vão ser meramente cosméticas. Não percebo se é falta de ideias claras, se é falta de coragem política, mas é certamente falta de alguma coisa.

Vai-se de novo investir em alterações casuísticas, subjectivas, para consumo mediático e vantagens pouco evidentes para o funcionamento das escolas.

Que o problema maior está exactamente na transição dos 2º para o 3º ciclo e todas as estatísticas e estudos o demonstram – excepto para os teorizadores do trauma da passagem do 4º para o 5º ano – pelo que algo deve ser feito.

A minha opinião, nada nova, é que deveríamos fundir estes dois ciclos de escolaridade, até porque já funcionam nas mesmas escolas e, apesar de isso talvez provocar um certo franzir de sobrolho a certas doutoras e doutores, a maioria dos docentes ter uma habilitação académica equivalente, só ganhando em trabalhar mais em conjunto, sem a sobranceria típica de algumas aulas iluminadas pelo facto de darem 7ºs e não 6ºs anos.

Mudanças prometidas para o 3.º ciclo vão ser um “mero ajuste”

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Contudo, o que a equipa de João Formosinho vai fazer é um “mero ajuste”, revela o professor e investigador da Universidade do Minho.

Para variar são inquiridos especialistas sobre os assuntos, mas nenhum professor em exercício nas escolas. Ou seja, teremos novamente um enxerto imposto de cima para baixo, delineado por especialistas e comentado por especialistas, sendo que por especialistas se entende quem fala sobre o assunto e o ofício, mas não o pratica.

Concordo, por isso, com o que afirma José Augusto Pacheco, que parece ser o único com uma ideia clara sobre o que está verdadeiramente em causa.

“O mais coerente seria uma reforma dos programas de todas as disciplinas e a criação de novos planos curriculares”, defende José Augusto Pacheco, director do Centro de Investigação em Educação da Universidade do Minho, para quem é “urgente uma nova reforma, pensada de forma integrada e não por passos”.
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Para José Augusto Pacheco, o actual modelo curricular devia ser avaliado antes de se introduzir alterações.

Quanto a outras opiniões, há as que fazem sentido e as que nem por isso. É o caso de quem defende o conceito de mini-reforma, mas depois afirma que devem ser as escolas e os professores a configurarem o currículo.

Ou o caso do Ramiro Marques que acha que as escolas já têm suficiente autonomia para gerir o currículo, o que é uma ideia bastante peregrina e desconhecedora dos requisitos necessários para deslocar um bloco de 90 minutos na organização curricular, ao nível de escola.

Em relação à ideia dos exames em todas as disciplinas no final do ciclo é interessante, mas não chega. O sistema  necessita de uma maior monitorização do que exames à saída, a menos que os sistema de exames seja de tipo integrado, sem os vários ciclos a funcionarem cada um por si, uns com provas de aferição, outros com exames, com objectivos e finalidades diferentes.

Inês Sim-Sim e Carlinda Leite, presidente do conselho directivo da Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto, concordam com a ministra e defendem que deve ser dada mais autonomia às escolas para gerirem o currículo, adequando-o ao perfil dos alunos, o que é impossível com um currículo nacional “tão recheado”, aponta Carlinda Leite. “Os professores deviam ser configuradores de currículo”, explica.

Ramiro Marques discorda. Actualmente, as escolas já têm margem para gerir o currículo e a tutela não deve prescindir desse poder. Por isso, o melhor é manter as disciplinas que existem e introduzir exames em todas, no final do ciclo. É bom para conhecer o sistema, o modo como as escolas trabalham, mas também para os alunos ganharem resiliência, recomenda.