Foi-me dada a hipótese de aceder em primeira mão, em termos de grande público, a esta obra que contraria muitas das ideias feitas sobre a forma de educar as crianças, tanto na perspectiva dos pais como dos professores.

Podia gostar apenas do tema como catalisador para um bom debate, mas acontece que partilho de muitas das ideias dos autores, por vezes contrárias às vulgatas que pululam na abundante bibliografia de auto-ajuda ou orientação e/ou aconselhamento educacional. Curiosamente, algumas das ideias estranhas que este livro contém baseiam-se em pesquisas científicas pouco populares para a opinião pública e para alguns especialistas agarrados às teorias de anteontem.

Um dos exemplos é o caso da auto-estima e do papel do elogio, e da sua natureza, no desempenho escolar das crianças. Deixo aqui o link – com a autorização da editora – para a descarga gratuita do primeiro capítulo que aborda este tema e de que eu passo a fazer uma citação para provocar alguma discussão que vá para além de política educativa e entre por territórios muito mais importantes para a qualidade da Educação. Aviso desde já que algumas conclusões são claramente contrárias a muito do que se lê e ouve pela comunicação social e ainda se ensina na formação inicial ou contínua de professores, e que só à custa de muita prática muitos de nós conseguem ter o discernimento e coragem para contrariar, conseguindo fundamentar essa opção.

Presume-se que se uma criança acredita que é inteligente (após ouvir isso constantemente), não se intimidará com novos desafios académicos. O elogio constante deve funcionar como um anjo de guarda, assegurando que as crianças não desaproveitam os seus talentos.

Mas um corpo cada vez maior – e um novo estudo feito a partir das trincheiras do sistema de ensino público de Nova Iorque – indica com grande convicção que pode estar a acontecer precisamente o contrário. Dizer às crianças que são “inteligentes” não as impede de ter um desempenho fraco. Pelo contrário, pode ser a causa disso.

(…)

Após a publicação de The Psychology of Self-Esteem em 1969, onde Nathaniel Branden considerava que a auto-estima era a qualidade mais importante de uma pessoa,a  convicção de que devemos fazer o que possível para termos uma boa auto-estima transformou-se num movimento com grandes repercussões na sociedade.

Em 1984, a legislatura da Califórnia já havia criado um grupo de acção oficial dedicado à auto-estima, acreditando que ao melhorar a auto-estima dos cidadãos contribuiria para inúmeras outras melhorias, desde uma menor dependência na segurança social até à diminuição da gravidez juvenil. Estes argumentos transformaram a auto-estima num movimento imparável, em especial em relação às crianças. Tudo o que pudesse afectar negativamente a auto-estima das crianças era eliminado. As competições começaram a ser vistas negativamente. Os treinadores de futebol deixaram de contar os golos e começaram a dar troféus a todos. Os professores deixaram de usar lápis vermelhos. As críticas foram substituídas por elogio ubíquos e imerecidos. Existe inclusivamente um distrito escolar em Massachussetts onde as crianças “saltam à corda” na aula de ginástica sem uma corda – para evitar o embaraço de tropeçarem. (pp. 21, 26-27)