Sábado, 30 de Janeiro, 2010


Robert Plant & Alison Krauss, Gone, Gone, Gone

At first one shouldn’t talk too much for talk reveals character and unless one is simple and artless anda appealingly boyish, it’s best not to talk at all, to remain silent and smiling, enigmatic, waiting for the proper momento to assume the character of the other’s dream.

Gore Vidal, “Three Stratagems” in Clouds and Eclipses, p. 8.

Só mesmo num acinzentar de tarde para dar atenção ao complemento da referência anterior em que se afirma:

The Ten Best Ways for a Woman to Impress a Man

Neste caso os conselhos ainda são piores do que os anteriores porque, enfim, parecem feitos por uma mulher, o que não é, acreditem, a melhor maneira de entrar na curta psique masculina.

E o que dizer quando se escreve (nº 8 ) que os homens buscam «One with a Non-Pretentious Smile but with Fire in her Eyes», mas depois incluem uma foto como esta…

Antes o sorriso, antes o sorriso…

Como resistir a um artigo que anuncia:

The Ten Best Ways for a Man to Impress a Woman

E tem uma frase como esta:

There is no girl alive who doesn’t want a priapic response to a new dress.

Bom… é possível resistir quando se percebe que os conselhos de tipo romântico são globalmente maus pois, o que é praticamente sinónimo, são ingleses.

Por uma Miss Snuffleupagus, que assim se apresenta:

I teach in a state school in inner-city London. I’m black. I want to change the world – one kid – one school – one policy at a time. I blog because I need to stay sane. But my blogs won’t necessarily stay up for long… so be quick! And while I have been blogging for over two years, I am not sure how much longer I will last… My views are a little controversial. What I say makes sense. It’s just that we don’t like to make sense anymore. My goal in life is to find perspective again.

Girls beat the boys under ‘nappy curriculum’ Early Years results

Girls are outperforming boys under the Early Years Foundation Stage curriculum, with figures out today showing the marked impact of gender, race and wealth on young children’s development.

New national data from assessments of more than a million children in England showed divisions in performance under what has been dubbed a “nappy curriculum” depending on the child’s background.

Seria penoso demais alinhavar citações do António Barreto anti-caciques locais e desacreditador da transparência do poder local. Mas é nisto que dá a postura de senador algo diletante e planador por sobre a realidade, vista assim de longe-longinho, como que se de uma miragem se tratasse:

António Barreto defende entrega do ensino básico e secundário ao poder local

O sociólogo António Barreto defendeu hoje que o ensino básico e secundário deviam ser entregues à responsabilidade das autarquias.

Porque estas pessoas quando falam do centralismo e tal, parece que se esquecem que vivem em Portugal, um país mais pequeno que a generalidade dos estados americanos e com uma população pouco superior à da cidade de Nova York.

Já se falarmos em descentralizar competências directamente para as escolas, em especial com órgãos de gestão eleitos de forma democrática, começa a arrepiar-se-lhes a sensibilidade.

Gostei muito da notícia do Público que esclarece algo que aqui no outro dia se discutiu quanto ao OE de 2010 para a Educação.

Porque a maior parte da imprensa – não toda, já alguém teve a simpatia de me telefonar a queixar-se de eu não ter lido todos os jornais do tal dia – decidiu comparar e misturar coisas que não deviam ser comparadas dessa forma.

Porque foi comparada a despesa consolidada de 2009 com a despesa estimada para 2010. Ora, mesmo eu que não sou economista ou especialista em qualquer outra ciência oculta, sei que não é isso que se deve fazer.

Devem comparar-se estimativas com estimativas. Logo entre o OE de 2010 e o de 2009 existe um aumento de 8% na despesa esperada no ME.

Os 0,8% é o que se estima gastar mais do que o que se gastou efectivamente em 2009. O que se gastará efectivamente só saberemos daqui por um ano. E só então será possível comparar a despesa consolidade de 2009 com a de 2010.

Público, 30 de Janeiro de 2010

Estamos num momento de acalmia e amolecimento relativo. O acordo, em conjunto com um novo processo negocial distendido no tempo (agora já não há urgência em reunir todas as semanas até de madrugada)  tinha, entre diversos outros, esse objectivo de anestesiar um pouco o clima nas escolas.

Não se vislumbra no horizonte próximo nenhuma convergência massiva de descontentes para lado nenhum – e não será dia 5 que vai acontecer, digamos o que dissermos – e, por isso mesmo, é talvez altura de se pensar com alguma serenidade para que (também) serve este espaço novo de debate e circulação de informação que é a blogosfera.

  • Devem os blogues animados por professores e com temáticas mais politicamente empenhadas nas questões educativas, numa perspectiva mais próxima dos docentes, continuar apenas ou predominantemente a tratar de questões relativas à luta? Entrar – ou continuar – numa fase de piloto automático, em que se procuram tocar de forma repetida os pontos sensíveis e estimulantes de quem está mais motivado para a contestação e crítica do que chega de cima?
  • Ou devem os blogues substituir ou complementar esse tipo de intervenção, com uma acção de um tipo reflexivo diferente, lançando outros temas para discussão, apresentando elementos para uma compreensão mais alargada das questões que constituem e envolvem o processo educativo?

A resposta de curto prazo, de quem prefere colher os louros da contestação permanente é a de se continuar com mais do mesmo, disparando sobre tudo o que mexe e repetir ad nauseum o mesmo argumentário, secundarizando todas as outras temáticas e tornando-se uma espécie de câmara de eco dos espaços específicos do movimento sindical ou aparentado?

A resposta que olha para médio e longo prazo, mesmo que à custa da diminuição (aparente, por vezes só aparente) das audiências e comentários inflamados, é a que aposta na discussão de temas que farão, obrigatoriamente, parte da agenda educativa dos próximos anos: a discussão em redor da configuração do sistema educativo, não apenas quanto à reorganização curricular, mas igualmente em relação ao necessário aperfeiçoamento do modelo de gestão escolar, à conjugação entre sector público e privado, à formação (inicial e contínua) dos docentes, aos modelos pedagógicos dominantes em cada área disciplinar/científica, à incorporação das novas tecnologias de um modo eficaz na sala de aula.

Para quando a tradução legislativa do acordo em documento com valor legal que permita aos agrupamentos e escolas terem um referencial para as suas práticas em matéria de avaliação do desempenho?

Falou-se que seria só para a Páscoa, agora fala-se em Fevereiro, pois o Janeiro já se escoou.

Enquanto tal, há uma espécie de regresso à lei da selva nas escolas, com cada um a seguir os humores do(a) seu(ua) Director(a), tudo agravado com a divergência entre as declarações mediáticas de Isabel Alçada – que as escolas deveriam suspender os procedimentos desnecessários a um processo cujos traços para este ciclo ainda não estão definidos – e as que depois são transmitidas em privado nas reuniões com o(a)s Directore(a)s, em que se afirma que, até novas leis, se aplicam as que estão em vigor, o que significa o simplex3.

Uma espécie de manutenção do que está, pela força das circunstâncias.

O que é grave, por exemplo, do ponto de vista da definição dos avaliadores que, neste momento, só podem ser professores titulares, mas que pelo acordo poderão ser muitos outros docentes.

E este detalhe está longe, muito longe, de ser irrelevante.

O problema é que estamos a meio do ano e as coisas não podem continuar neste estado pastoso de indefinição e incoerência. Há escolas em que há procedimentos já a decorrer que podrão vir a ser desautorizados e outras onde começa a ser tarde para se fazer alguma coisa com sentido, pois já se anda em testes intermédios e a preparação das provas de aferição e exames não está assim tão longe.

Se o ambiente negocial é muito diferente do mandato anterior, a inépcia legislativa mantém-se. Mesmo se a pressa é inimiga de se fazerem bem as coisas. Mas já lá vão 3 semanas mais do que completas e umas páginas não demoram assim tanto tempo a elaborar.

Isto acontece talvez porque, abaixo da superfície, continue pelo ME a dominar a ganga do costume.

Não sou um fervoroso apoiante do sindicalismo que temos, mas há declarações que primam por um anti-sindicalismo confrangedor nos seus preconceitos.

Braga da Cruz até é autor de um estudo interessante sobre a profissão docente, publicado há já muitos anos na Análise Social, poderia ser menos básico nas suas análises.

A perda de autoridade dos professores foi causada, isso sim, pela conjugação da pressão do ME no sentido do professor ser responsabilizado por tudo o que corre mal numa escola ou sala de aula e por práticas defensivas (individuais ou de grupo) de uma quantidade variável de docentes.

Neste caso particular, não consigo discernir o nexo causal que coloque culpas nos sindicatos. Disso, acho eu, estão inocentes.

Braga da Cruz, reitor da Universidade Católica Portuguesa, afirma que a perda de autoridade dos professores é um dos efeitos perversos da sua sindicalização.

Acho redutora a forma como Paul Pastorek apresenta as reformas desenvolvidas no Louisiana no sentido de melhorar os resultados escolares. E acho muito, muito difícil, prová-lo do ponto de vista estatístico de um modo sério.

Na peça seguinte do I sou citado como estando de acordo com parte das ideias de Pastorek. Certamente não é com a teoria unívoca da culpa do professor. É, isso sim, com a necessidade de erguer uma política de rigor na avaliação de todos os intervenientes no processo educativo e na forma continuada de implementar essa política.

Quanto ao mais, e para não me demorar muito no que ontem disse à jornalista Kátia Catulo, não basta comparar resultados de alunos pobres. É necessário refinar a malha da análise e não ceder à tentação do modelo de professor eficaz único.

Porque não é só o nível de rendimento que define a atitude de um aluno perante a escola ou as suas capacidades. Desde logo há uma diferença enorme no perfil e contexto de escolas rurais e suburbanas. E, da mesma forma, há perfis diversos de professores eficazes na obtenção de resultados – numa perspectiva de valor acrescentado e não meramente de valores absolutos – que não devem ser homogeneizados num padrão único.

Não ouvi a conferência de Pastorek, mas pelo relato que me foi feito, ele caricaturou e exacerbou desmesuradamente a responsabilidade do professor, desvalorizando o empenho dos alunos, o contexto familiar e outras variáveis relevantes.

Insucesso escolar. A culpa é do professor

As reformas nas escolas no Estado do Luisiana dividem os especialistas na área do ensino.

Se o aluno chumba o ano, a culpa é do professor; se o aluno desiste de estudar, a culpa também é do professor; e se o aluno falta às aulas, a culpa é outra vez do professor. O sucesso escolar de uma criança está sempre nas mãos do professor. Nem as origens socioeconómicas nem o contexto familiar servem de justificação – a culpa é sempre da escola, que não soube encontrar as estratégias certas para ensinar os seus alunos.

Esta é a convicção de Paul Pastorek, superintendente para a Educação no estado de Luisiana nos EUA. Mais do que uma crença é uma teoria que o responsável máximo pela educação em Luisiana diz poder comprovar com dados estatísticos

Talvez pelo contexto específico da conferência, tenha optado pelo traço grosso da caracterização do que se passa efectivamente no Louisiana.

Porque em outras declarações se percebe que o modelo não é assim tão unívoco e a responsabilização vai bem mais acima dos professores:

Quem quer bons professores, tem de dar boa formação. A receita não é secreta e, no estado Louisiana, ao qual pertence Pastorek, é levada a sério: as universidades que não formam bons professores não têm apoios financeiros.

Mais importante do que saber o que se passa dentro da sala de aula, defende o político, é ter a certeza de que os alunos aprendem e a aprendizagem é atestada pelos resultados de exames estatais, iguais para todos.

Os professores são depois avaliados, de acordo com estes resultados, sendo levadas em consideração as diferenças sociais, económicas e familiares dos alunos.

Quem é bom professor tem recompensas monetárias, quem é mau é convidado a encontrar novo emprego.

Não sou detentor da verdade; sou um ‘zeco’. Mas isso não impede que tenha espírito crítico, pensamento reflexivo e convicções fundamentadas. Por isso, a quem interessar, envio informações obtidas numa reunião sindical.

Foi realizada uma reunião sindical dirigida por um delegado da Fenprof, onde basicamente se obtiveram os seguintes esclarecimentos:

– o delegado começou por afirmar que o objectivo principal era esclarecer os aspectos do acordo e não justificá-lo.

– foi fornecido um panfleto onde estavam evidenciadas as vantagens obtidas; descontextualizado, estava um quadro comparativo entre aquilo que os profs obtiveram em relação aos restantes trabalhadores da AP. Também existia uma tabela comparativa entre os estatutos de 1998 (carreira 312/99), 2007 e actual acordo.

Depois da explanação sindical ficou retido o seguinte:

– não foi obtido o melhor acordo mas o acordo possível. Numa perspectiva profissional, os sindicatos reconhecem aspectos perversos e negativos no acordo mas numa perspectiva politica seria a única solução no actual contexto político. Foi colocada a incógnita por parte do delegado se os profs aceitariam a não assinatura do acordo. Foram enfatizadas as conquistas em relação ao ECD actual: a possibilidade de todos chegarem ao topo da carreira, alterações no modelo de avaliação. Foi feita a observação por alguns profs, da negociação ter sido baseada num ECD que foi um erro e daí não ser possível criar um acordo mais correcto e justo.

– o acordo celebrado está em vigor até 2012. Depois dessa data será outra vez uma incógnita. O delegado admite que o actual governo assina um acordo como uma possivel estratégia politica em contexto de maioria relativa, com o intuito de até 2012 ocorrerem hipotéticas eleições que poderão abrir a possibilidade a nova maioria absoluta. Nessa hipótese, seria feito um ‘ajuste de contas’ que poderia regredir tudo o que foi acordado. Assim, será premente cada um verificar se tem condições de progredir até 2012; a partir daí, pode-se fechar a porta outra vez.

– foi admitido que a carreira docente piorou ao longo dos anos. Analisando a tabela observada, vários índices progressivamente foi recuando na carreira, obrigando à prestação de mais anos de serviço.

– a carreira está construída com base nos índices e não com base nos anos de serviço prestados. Isto implica, que muitos profs estão colocados em momentos da carreira muitos anos antes do que deveriam estar.

– os contratados são o elo mais fraco neste acordo: muitos, independentemente dos anos de serviço, podem estar sujeitos a- se tiverem a sorte de entrar na carreira- começar no índice 167, devido aos regimes de transição.

– vários profs manifestaram que se sentem ludibriados com este acordo, e acreditam que é um sentimento generalizado pelo país.

– o delegado concorda que a carreira piorou, mas explica que a estratégia passa por não valer a pena ficar retido no passado. Deve-se regulamentar o acordo, e posteriormente continuar a luta nos aspectos que continuam a gerar injustiça.

– foi revelado pelo delegado que vivemos momentos políticos novos: o que é negociado agora não está garantido que não seja destruído por uma nova equipa governativa a curto-médio prazo. A tendência é no sentido da punição e da perda progressiva de direitos.

E nada mais havendo a tratar, dou por encerrado este telegráfico relato.

Mário Silva

Júlio Resende (2000)