Acordar ou não acordar… eis a questão do momento

Ando há dias para escrever o que me vai naquela coisa imortal que eu não sei bem se ela realmente existe, mas uma certa dose de desilusão misturada com uma pitada de “ando-mesmo-fartinho-que-nem-posso” têm contribuído para uma vontade de não ter vontade de nada… e pouco mais.

Mas por considerar-me um “umbiguista-de-gema” (não, não tem nada a ver com a “franga à solta” do Paulo…) e achando que todo verdadeiro “umbiguista” não come e fica calado, segue aqui mais uma opinião sobre o tema quente – para nós – deste inverno: o Acordo entre o Ministério e (alguns) Sindicatos.

Para começar gostaria de dizer que não entendi muito bem a designação “Acordo de Princípios”. Fiquei na altura meio assarapantado, pensando para comigo: “Um “Acordo de Princípios” nesta altura do campeonato, após não sei quantas reuniões e depois de não sei quantas horas de negociações pressupõe exactamente “o quê”? Que nada mais poderia ser acordado que não a regulação das acções futuras dos intervenientes? Que ficariam acordados os princípios mas não os meios e os fins (…)? Que não poderia ficar nada acordado de substancial porque já era tarde que se fartava? Bem… a verdade é que apesar de todas as esdrúxulas hipóteses que esta cabeça imaginava, uma certeza me invadia:

Um qualquer Acordo tinha que ser assinado naquela noite. Custasse o que custasse!

E isso, na altura, eu não entendi muito bem… mas vamos em frente.

Após a leitura do “famigerado” comecei a perceber melhor algumas coisas. E a entender que, independentemente do acordo ser na minha modesta opinião um mau acordo, ele era muito provavelmente o acordo possível. Digo-o na convicção de que de nem Ministério nem Sindicatos poderiam ceder mais. E à partir daí comecei a achar que – tendo havido uma estratégia por parte dos Sindicatos – a assinatura do acordo teria sido positiva.

E passo a explicar porque pensei/penso assim:

– Um conjunto de factores começou a desmobilizar/desagregar a nossa classe nos últimos tempos: a saída do trio-maravilha somado à entrada de uma equipa mais simpática e sorridente; a concretização do primeiro ciclo de (pseudo) avaliação com as óbvias querelas que um sistema “competitivo” e não-meritocrático produz; o anunciado fim da divisão da carreira, que hoje constato, infeliz e paradoxalmente, ter sido – devido à existência dessa divisão e às consequências legais da mesma – um dos factores que mais potenciou a união dos professores; e o natural cansaço que uma luta tão prolongada no tempo produz. Tudo isto somado acabou por contribuir para que a maioria da nossa classe voltasse àquele natural estado de entorpecimento que nos caracterizou durante tantos anos. Lembro aqui as sensatas palavras do Pedro Castro que explicou há dias que se por um lado os mais “interessados nestas coisas” são exactamente os que mais se informam e, daí, serem os mais participativos/atentos à Blogosfera, por outro, estes colegas estão longe de representar a classe docente. A verdade, meus caros, é que a maioria da nossa classe não age: apenas reage.

– A opinião pública – que considero ter “voltado para o nosso lado” à partir de fins de 2008 graças, principalmente, à beleza e simpatia invulgares de Maria de Lurdes (…) e à constatação de que o sucesso das políticas educativas propagandeado pelo anterior governo era manifestamente uma ilusão e pura fantasia – começou, no final do ano passado, a não entender muito bem o que afinal os professores pretendiam/pretendem, ou seja, tivemos uma inversão nesta matéria, o que, em termos estratégicos, tem muito peso neste tipo de luta.

– Não acredito que a oposição parlamentar estaria – excepção à esquerda do PS – disponível para viabilizar qualquer projecto que provocasse uma derrota esmagadora ao Governo nesta matéria pois as negociações do orçamento de estado poderiam ficar seriamente comprometidas e, como podemos constatar há já algum tempo, CDS e PSD andam a disputar o título de “foi-graças-a-mim-que” (…), o que por si tornaria bastante improvável que a aposta no parlamento – nesta altura – fosse uma boa aposta. Relembremos o recente artigo de opinião do deputado Pedro Duarte no Público e as reacções dos partidos após a assinatura do Acordo para constatarmos que a vontade de todos era a de que Ministério e Sindicatos chegassem a um qualquer entendimento. Fosse ele qual fosse.

Por estas razões, considero que o momento não nos era favorável numa lógica de prolongamento do braço-de-ferro.

E por isso acho que os Sindicatos tomaram a opção correcta.

Dir-me-ão que foi um mau Acordo, uma vez que grande parte das nossas reivindicações não foram atendidas. Concordo. Porque a paz não voltará às nossas Escolas com um modelo de avaliação que continua sendo burocrático e não meritocrático e porque não aceito que “joguem no lixo” anos de trabalho de milhares de professores através de um reposicionamento na carreira que roça o absurdo.

Mas… se calhar… este era o momento de dar um passo atrás.

Para – na crença da existência de uma estratégia por parte dos Sindicatos – podermos ainda limpar muita da sujeira que foi feita pela anterior equipa ministerial.

E para daqui por algum tempo voltarmos a acordar.

– Na altura devida.

De preferência, espero eu, antes do toque para dentro…

Maurício Pereira de Brito