Quinta-feira, 21 de Janeiro, 2010


Shrek Forever After

Vi de passagem a entrevista de Pedro Passos Coelho na RTP – acho que foi o pretexto próximo – a propósito do lançamento do seu livro Mudar.

Ouvi muito sobre tricas e lutas de poder no PSD mas praticamente nada sobre o país.

Mas parece que no livro estão sistematizadas as suas ideias para as várias áreas da governação do país como é o caso da Educação.

Tendo saído hoje o livro, suponho que no dia 13, 4ª feira da semana passada, já estivesse impresso ou quase. Pelo menos acho que a versão final já deveria estar escrita, aquela que plasma (gosto da palavra…) as ideias do candidato a líder do PSD e, indirectamente a primeiro-ministro deste país.

Ora eu tinha sido convidado para participar num encontro entre PPC e bloggers nesse dia, no Spazio Buondi, a partir das 13 horas, com o objectivo de se trocarem ideias sobre diversas matérias, entre as quais a dita Educação. Constava que era para PPC recolher ideias junto deste estrato novo da sociedade civil activa que é a blogosfera.

Não fui, desmarcando a minha presença já durante a manhã, não por qualquer desafeição para com PPC, mas porque afazeres pessoais e aquela chuva brutal me baralharam o dia todo.

Fiquei com pena porque gostaria de confrontar e debater algumas ideias em torno da questão da liberalização de alguns sectores de actividade do Estado, como a Educação e a Saúde, de que PPC parece ser apoiante. Assim como dos cheques-ensino e dessa quimera que é a liberdade de escolha das escolas pelas famílias.

Mas agora percebo que de nada serviria, porque PPC já teria as suas ideias definidas e, no mínimo, em pré-impressão nesse momento. A menos que o repasto fosse aceitável, eu só teria ido gastar tempo e paciências, para além de estragar o cenário com a minha melena revolta e desgrenhada em dia de chuva e vento.

Um relato, muito vago, do encontro está no Aventar. Pelo que percebi nada haveria verdadeiramente a debater e muito menos a alterar nas ideias de PPC.

O que é pena.

António Gomes Mota, professor catedrático da ISCTE Business School escreve hoje uma crónica no Diário Económico que contém a seguinte passagem:

Enquanto pai, acompanhando os percursos escolares das minhas duas filhas, fui formando a opinião de que o nosso sistema de ensino tem dois momentos de transição muito difíceis: do 4º para o 5º ano do básico e do 12º ano para a universidade.

A única coisa que posso dizer, a este respeito, é que as filhas de António Gomes Mota são algo atípicas, pois todos os dados estatísticos disponíveis apontam as transições do 6º para o 7º ano e do 9º para o 10º como aquelas que motivam maior insucesso escolar.

Basta ver o quadro seguinte, oficial, disponível aqui, que julgo compreensível para qualquer académico e especialista em gestão de empresas

E depois ainda acusam os zecos de sóo olharem para o seu quintal.

Aceitam-se outras propostas, críticas, aperfeiçoamentos.

Acordar ou não acordar… eis a questão do momento

Ando há dias para escrever o que me vai naquela coisa imortal que eu não sei bem se ela realmente existe, mas uma certa dose de desilusão misturada com uma pitada de “ando-mesmo-fartinho-que-nem-posso” têm contribuído para uma vontade de não ter vontade de nada… e pouco mais.

Mas por considerar-me um “umbiguista-de-gema” (não, não tem nada a ver com a “franga à solta” do Paulo…) e achando que todo verdadeiro “umbiguista” não come e fica calado, segue aqui mais uma opinião sobre o tema quente – para nós – deste inverno: o Acordo entre o Ministério e (alguns) Sindicatos.

Para começar gostaria de dizer que não entendi muito bem a designação “Acordo de Princípios”. Fiquei na altura meio assarapantado, pensando para comigo: “Um “Acordo de Princípios” nesta altura do campeonato, após não sei quantas reuniões e depois de não sei quantas horas de negociações pressupõe exactamente “o quê”? Que nada mais poderia ser acordado que não a regulação das acções futuras dos intervenientes? Que ficariam acordados os princípios mas não os meios e os fins (…)? Que não poderia ficar nada acordado de substancial porque já era tarde que se fartava? Bem… a verdade é que apesar de todas as esdrúxulas hipóteses que esta cabeça imaginava, uma certeza me invadia:

Um qualquer Acordo tinha que ser assinado naquela noite. Custasse o que custasse!

E isso, na altura, eu não entendi muito bem… mas vamos em frente.

Após a leitura do “famigerado” comecei a perceber melhor algumas coisas. E a entender que, independentemente do acordo ser na minha modesta opinião um mau acordo, ele era muito provavelmente o acordo possível. Digo-o na convicção de que de nem Ministério nem Sindicatos poderiam ceder mais. E à partir daí comecei a achar que – tendo havido uma estratégia por parte dos Sindicatos – a assinatura do acordo teria sido positiva.

E passo a explicar porque pensei/penso assim:

– Um conjunto de factores começou a desmobilizar/desagregar a nossa classe nos últimos tempos: a saída do trio-maravilha somado à entrada de uma equipa mais simpática e sorridente; a concretização do primeiro ciclo de (pseudo) avaliação com as óbvias querelas que um sistema “competitivo” e não-meritocrático produz; o anunciado fim da divisão da carreira, que hoje constato, infeliz e paradoxalmente, ter sido – devido à existência dessa divisão e às consequências legais da mesma – um dos factores que mais potenciou a união dos professores; e o natural cansaço que uma luta tão prolongada no tempo produz. Tudo isto somado acabou por contribuir para que a maioria da nossa classe voltasse àquele natural estado de entorpecimento que nos caracterizou durante tantos anos. Lembro aqui as sensatas palavras do Pedro Castro que explicou há dias que se por um lado os mais “interessados nestas coisas” são exactamente os que mais se informam e, daí, serem os mais participativos/atentos à Blogosfera, por outro, estes colegas estão longe de representar a classe docente. A verdade, meus caros, é que a maioria da nossa classe não age: apenas reage.

– A opinião pública – que considero ter “voltado para o nosso lado” à partir de fins de 2008 graças, principalmente, à beleza e simpatia invulgares de Maria de Lurdes (…) e à constatação de que o sucesso das políticas educativas propagandeado pelo anterior governo era manifestamente uma ilusão e pura fantasia – começou, no final do ano passado, a não entender muito bem o que afinal os professores pretendiam/pretendem, ou seja, tivemos uma inversão nesta matéria, o que, em termos estratégicos, tem muito peso neste tipo de luta.

– Não acredito que a oposição parlamentar estaria – excepção à esquerda do PS – disponível para viabilizar qualquer projecto que provocasse uma derrota esmagadora ao Governo nesta matéria pois as negociações do orçamento de estado poderiam ficar seriamente comprometidas e, como podemos constatar há já algum tempo, CDS e PSD andam a disputar o título de “foi-graças-a-mim-que” (…), o que por si tornaria bastante improvável que a aposta no parlamento – nesta altura – fosse uma boa aposta. Relembremos o recente artigo de opinião do deputado Pedro Duarte no Público e as reacções dos partidos após a assinatura do Acordo para constatarmos que a vontade de todos era a de que Ministério e Sindicatos chegassem a um qualquer entendimento. Fosse ele qual fosse.

Por estas razões, considero que o momento não nos era favorável numa lógica de prolongamento do braço-de-ferro.

E por isso acho que os Sindicatos tomaram a opção correcta.

Dir-me-ão que foi um mau Acordo, uma vez que grande parte das nossas reivindicações não foram atendidas. Concordo. Porque a paz não voltará às nossas Escolas com um modelo de avaliação que continua sendo burocrático e não meritocrático e porque não aceito que “joguem no lixo” anos de trabalho de milhares de professores através de um reposicionamento na carreira que roça o absurdo.

Mas… se calhar… este era o momento de dar um passo atrás.

Para – na crença da existência de uma estratégia por parte dos Sindicatos – podermos ainda limpar muita da sujeira que foi feita pela anterior equipa ministerial.

E para daqui por algum tempo voltarmos a acordar.

– Na altura devida.

De preferência, espero eu, antes do toque para dentro…

Maurício Pereira de Brito

Com as negociações entre ME e sindicatos a transferir-se para o terreno dos horários, claro que começa a investida dos gabinetes de informação junto da imprensa mais flexível.

O Diário Económico chegou-se à frente com uma peça divertida – com um título maldoso e todo spinado –  em que se diz, com base em números da OCDE, que os professores portugueses trabalham menos horas, mas ficam mais tempo na escola.

Segundo o estudo ‘Education at a Glance 2009′, um professor em Portugal trabalha cerca de 39 horas por semana, um valor que conta também com o trabalho de preparação de aulas e estudo individual fora da escola. A média dos países da União Europeia (UE) é de mais de 42 horas. Mesmo assim, onde se regista uma maior carga horária nos docentes portugueses é no tempo passado na escola: 34 horas para Portugal contra cerca de 30 para restantes países da UE.

Sendo que o tempo na escola é facilmente verificável e o do trabalho em casa não, nem sabemos como foi calculado, temos que o que é efectivamente certo é que os professores portugueses permanecem mais tempo no seu local de trabalho.

Aliás, não deixa de ser sintomático que oficialmente os professores portugueses tenham horários de 26-27 horas na escola, mas depois lá permaneçam a quase totalidade das 35 horas que compõem o horário total.

O resto é conversa fiada para ocupar papalvos.

Atrasada, porque eu sou um ingrato nestas coisas. Um dos convivas no passado sábado foi Luís Diferr, co-autor com o mítico Jacques Martin, de um álbum a sair brevemente na Casterman e de que foi dada conta no Pérola de Cultura.

Abaixo fica o desenho que ele gentilmente me enviou:

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