O mais importante é que existam e que sirvam para desbloquear questões muito importantes para a vida quotidiana das escolas e não apenas dos docentes.

Ao início da noite, a caminho de casa, respondi de forma nem sempre muito focada às perguntas da Rita Carvalho do DN sobre o problema dos horários e das componentes lectiva e não lectiva.

Este é um assunto já muito repisado por todos os que estão por dentro da vida escolar. Para os leigos parece algo estranho, quem olha de fora, parece questão de somenos e presta-se a aproveitamentos demagógicos.

Não vou estar aqui a percorrer caminhos conhecidos ou a tentas desmistificar acuações infundadas sobre o pouco tempo que os professores passam nas escolas. Seria ridículo depois de ter chegado pelas 10 horas e saído às 18.30, com uma hora de almço pelo meio, como em qualquer emprego normal, só que com o adicional de ter trazido para casa aquele trabalho que poucos trazem. Trabalho que ocupa todos os dias pelo menos uma a duas horas e muitas mais em algumas alturas do ano.

Quanto às horas passadas na escola, para mim o critério definidor deveria ser muito simples: trabalho envolvendo directamente alunos só pode ser considerado lectivo, sejam aulas regulares, apoios, tutorias, etc. Tão simples quanto isso.

Quanto à componente não lectiva muito haveria a dizer. É recorrente aquela exigência das 35 horas serem para cumprir efectivamente na escola, havendo os meios para os educadores e professores poderem fazer, em condições e com os recursos necessários, todo o trabalho relacionado com a sua avtividade profissional, sem vir para casa carregados de papelada. Quem nunca teve de corrigir 150 testes de mês em mês que atire a primeira pedra quanto ao tempo consumido nessa fase, a que se junta a concepção dos materiais de avaliação, matrizes, grelhas de correcção, etc, etc.

Que durante a negociação de amanhã se tenha a noção que a redução da componente lectiva e/ou de permanência obrigatória dos docentes nas escolas, em especial a partid e uma certa idade, não é um privilégio mas uma exigência que visa a sanidade dos profissionais mais experientes mas também mais expostos a um desgaste que só quem não passa pela profissão pode menorizar.

Consta que pela 5 de Outubro existe sensibilidade para estas questões. Espero que mais do que sensibilidade exista bom senso. O bom senso necessário para não ceder à facilidade das acusações demagógicas do mandato anterior. O bom senso necessário para compreender que a função docente é desempenhada com tanto maior empenho e motivação quanto as condições são propícias e o respeito é sentido.

Mas se de sensibilidade quisermos igualmente falar, então que ela exista para perceber que uma sala de aula não é o que foi, em tempos míticos, um espaço estático, de prelecção, de mera transmissão de conhecimentos. Pelo contrário, é neste momento um espaço profundamente dinâmico, de constante interacção, de conflito, onde a gestão de emoções é permanente e onde a dimensão humana é colocada à prova a cada momento.

Eu quero acreditar que estas negociações passarão por aí: por entender que a docência é uma profissão de desgaste imenso, de desgaste emocional e que há muito mais para lá da contabilidade orçamental das horas pagas aos professores.